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ESPECIAL: JACKSON 100 ANOS

Jackson era grande demais para um pandeiro

Em pouco tempo, Jackson do Pandeiro deixou claro que não se tratava apenas de uma voz a mais no cenário artístico pernambucano

Publicado em 25/08/2019, às 08h10

Com Almira Castilho (à esquerda) Jackson formou uma dupla que incendiava os palcos / Foto: Reprodução
Com Almira Castilho (à esquerda) Jackson formou uma dupla que incendiava os palcos
Foto: Reprodução
JOSÉ TELES

O Rei do Ritmo, epíteto que geralmente se aplica ao nome Jackson do Pandeiro, não faz jus ao talento do franzino cantor, que chegou ao Recife em 1948, com a fundação da Rádio Jornal do Commercio, onde foi contratado como ritmista (o que hoje chama-se de percussionista), na Orquestra Paraguary, uma das duas que a emissora mantinha. Tocando ao lado de estrelas feito Sivuca e Luperce Miranda, Jackson era muito grande para se limitar apenas a tocar pandeiro.

Aos poucos foi se destacando como cantor nos programas de auditório. Mas logo ficou claro que não se tratava de uma voz a mais no cenário artístico pernambucano. Com Almira Castilho ele formou um dupla que incendiava os palcos. Ela, bem mais alta do que ele, curvilínea, reforçava a presença em cena com a particular coreografia que criaram, na qual entravam coco, rumba, frevo, entre outros ritmos.

Mas teve dificuldade em chegar ao microfone. O superintendente da Rádio Jornal do Commercio, o rigoroso Theóphilo de Barros (pai de Théo de Barros, parceiro de Geraldo Vandré em Disparada), emitia sempre um sonoro “não” quando Jackson pedia para cantar nos programas da emissora. O paraibano, aproveitando uma viagem de Téofilo a São Paulo, conseguiu convencer que o deixassem cantar. Segundo Jackson, o superintendente não lhe dava oportunidade por causa de sua aparência. “Ele fazia questão de manter na Rádio Jornal do Commercio gente que tivesse pinta de galã”, contou Jackson à revista Mundo Ilustrado.

Jackson do Pandeiro submetia-se às rígidas normas da empresa, onde qualquer deslize no trajar, nem que fosse um mero par de meias diferente do padrão, era motivo para uma multa ou suspensão. Por isso, em 1953, enquanto seu nome estava em todas as paradas do país, na programação das principais emissoras de rádio cariocas, ele continuava morando oficialmente no Recife. Jackson e Almira só conseguiram viajar ao Rio no ano seguinte, quando foram liberados para apresentações no “Sul”. Na Rádio Nacional, no Rio, Record, Bandeirantes e TV Tupi, em São Paulo.



Não é exagero comparar o surgimento de Jackson do Pandeiro ao de João Gilberto, cinco anos mais tarde. Ambos estenderam os limites do canto popular. João transgrediu a regra do vozeirão, herdado do bel canto italiano. Jackson, o da voz bonita pelos padrões radiofônicos. Tanto um quanto o outro faziam proezas vocais com uma simplicidade que levou a se achar que João fosse afinado, mas sem voz, ou que Jackson fosse somente embolador ou coquista. Na verdade, com Orlando Silva, os dois formam a trinca de vozes-guias da música popular brasileira. Os três criaram um caminho que deu em várias estradas vicinais.

CAMINHO DIFERENTE

O talento de Jackson do Pandeiro era tão superlativo que ele não precisou seguir os trâmites que regeram o mercado do disco até os anos 90. No início dos anos 50, artistas submetiam-se a programas de calouros, daí a uma gravadora, que promovia o trabalho, levando seu contratado às emissoras de rádio, TV, sessões de autógrafos e promoções, que poderiam ou não surtirem efeito.

Muitos tiveram as carreiras abortadas ou demoraram a chegar às paradas. Com Jackson do Pandeiro foi um rastilho de pólvora que provocou um fogaréu nacional. Sem ter sequer disco gravado, seu nome começou a ser comentado no Sudeste, principalmente no Rio de Janeiro, que abrigava o grosso da indústria do entretenimento no país.


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