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ESPECIAL: JACKSON 100 ANOS

Jackson trocava composições como mercadoria

Para driblar as editoras musicais, autores registravam obras com outros nomes. Jackson assinava como José Gomes

Publicado em 25/08/2019, às 08h50

'Ele Disse', de Edgar Ferreira (foto), foi uma das canções modificadas por Jackson do Pandeiro para que se adaptasse ao seu estilo / Foto: Reprodução
'Ele Disse', de Edgar Ferreira (foto), foi uma das canções modificadas por Jackson do Pandeiro para que se adaptasse ao seu estilo
Foto: Reprodução
JOSÉ TELES

Para driblar as vorazes editoras musicais, autores muitas vezes registravam a obra com um nome fictício, ou mesmo o nome de batismo. Jackson assinava também como José Gomes Filho. Até 1967, quando se separou da cantora Almira Castilho, assinava como José Gomes.

Almira, por sinal, depois de Rosil Cavalcanti, é a autora a quem Jackson mais recorreu. É duvidoso que ela tenha feito mais do que dar algum pitaco nas 25 músicas com seu nome (a maioria com parceiros) que estão na obra do cantor. Dificilmente precisariam de parcerias com autores escolados como Paquito e Romeu, campeões do Carnaval brasileiro (das marchinhas Tomara Que Chova, Bigorrilho, Daqui Não Saio), muito menos Gordurinha e Waldeck Artur Macedo, baiano de Salvador, contemporâneo de Jackson do Pandeiro na Rádio Jornal do Commercio.

Mais conhecido pelos papéis cômicos no rádio e TV, Gordurinha assina com Almira Castilho Chiclete com Banana, uma dessas composições que merecem o desgastado adjetivo “icônica”. Com precisão de bisturi a laser a canção define a colonização cultural que os EUA exerciam (e continuam a exercer) no país. Certamente Jackson imprimiu seu estilo à composição, e Almira em tempo algum revela que não tinha participações nas parcerias. Aos autores da biografia de Jackson ele praticamente confessa como era o método de se fazer parcerias: “Eu não podia assinar como Jackson. Ele era da UBC eu da Sbacem. Como tudo o que fazíamos era em conjunto, quando aparecia algum parceiro, ora registrava eu, ora registrava ele, ora eu, dependendo da sociedade do camarada. Fica tudo em casa, né?...”

Jackson diria mais tarde (também citado no livro) que “Gordurinha fez o Chiclete e eu peguei a música e introduzi profundos arranjos”. O certo é que, depois da separação, coincidentemente, Almira deixa de compor, ela assina composições, umas sem parceiros, até 1966, a exemplo de Forró Quentinho, a última vez que seu nome aparece como autora, num disco de inéditas de Jackson.



Agora, como sugerem os autores da biografia de Jackson do Pandeiro, ele poderia ter parceria em tudo que gravou. Composições simples, ou até medíocres, crescem de acordo com o intérprete. Já Inaldo Soares, do livro A Musicalidade de Jackson, em que enumera toda discografia do cantor, afirma que Almira Castilho era realmente compositora.


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Jackson era muito rigoroso no que gravava, e ao adaptar uma canção ao seu estilo, enquadrá-la no seu suingue, podia modificá-la a ponto de o intérprete tornar-se um co-autor. Foi o caso de Ele Disse, de Edgar Ferreira, baseada na carta testamento de Getúlio Vargas.

Segundo Almira, Jackson teria cortado parte da letra, dado-lhe o balanço necessário, mas Edgar Ferreira registrou a música apenas em seu nome, o que provocou a irritação da mulher do cantor, que era a cabeça do casal em relação a negócio. Foi a última composição que gravaria de Edgar.




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