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ESPECIAL: JACKSON 100 ANOS

O tempo deu razão a Jackson do Pandeiro

Jackson deixou o Rio de Janeiro em 1958, ano em que a música brasileira sofreu mudanças severas. Enfrentou tempos difíceis e deu a volta por cima, tornando-se um dos músicos mais requisitados para gravações

Publicado em 25/08/2019, às 09h50

Jackson do Pandeiro trabalhou até o fim da vida. Morreu aos 62 anos, por complicações do diabetes e um edema pulmonar / Foto: Reprodução
Jackson do Pandeiro trabalhou até o fim da vida. Morreu aos 62 anos, por complicações do diabetes e um edema pulmonar
Foto: Reprodução
JOSÉ TELES

Jackson e Almira deixaram Copacabana em 1958, ano em que a música brasileira sofreu mudanças radicais. João Gilberto lançou, pela Odeon, Chega de Saudade, de Tom e Vinicius, com a interpretação causando ainda mais impacto do que quando Jackson do Pandeiro lançou Sebastiana, cinco anos antes. Na mesma época, pela mesma gravadora, Cely Campello estrearia em disco com o irmão Tony. Até então o rock and roll era tratado como mais um modismo circunstancial, e a adolescente, cândida e suave, de Taubaté, consolidou o gênero no Brasil. Ambos, João e Celly eram o novo no mercado da música. A trilha que abriram foi alargada por compositores e intérpretes. Com Juscelino o país entrava na modernidade, e nela não cabiam sambas-canções doloridos, ou música calcada em regionalismos. Ainda na primeira metade da década de 60, surgiriam a sigla MPB e o rock and roll se abrasileiraria com o rótulo de iê-iê-iê.

O 78 rotações continuava forte no Brasil, o compacto ainda era novidade, e LP ainda fora do alcance da maioria dos consumidores de discos do país. Jackson lançaria oito 78 rpm pela Columbia. O sucesso continuava, mas dentro de um padrão mais modesto, longe da fase de Jackson do Pandeiro na Copacabana, quando todos seus discos foram diretos para o topo das paradas. O cantor passaria um período curto na Columbia, pouco menos de dois anos, durante os quais a música mais marcante que gravou foi a citada Chiclete com Banana. Em 1967, ano em que a Jovem Guarda chegou ao ápice, o LP de estúdio de Jackson tem o emblemático título de A Braza do Norte (com “z” mesmo), uma óbvia referência ao “é uma brasa, mora”, bordão de Roberto Carlos disseminado no programa na TV Record.

Pela primeira vez desde que começou a gravar, Jackson do Pandeiro faz um hiato na carreira fonográfica. Só gravaria disco de estúdio novamente em 1970, Aqui Tô Eu, o apropriado nome do LP. Continuaria gravando um LP por ano, com uma parada entre 1978 e 1981, quando lançou o disco que fechou sua discografia Isso É Que É Forró.


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Sua carreira foi tão inusitada quanto seu surgimento no cenário musical. Ele começou como um nome nacional, por volta de 1968, tornou-se um artista regional, com espaço nos forrós do Rio e São Paulo. Mudou-se para a Zona a Norte carioca, onde viveu até o final da vida. Neste mesmo ano sofreu um acidente enquanto dirigia sua Rural Ford, que o deixou com os dois braços quebrados, e com sequelas. Passaria a ter dificuldades com o pandeiro. Mas o talento no instrumento era tanto, que foi com ele que enfrentou as vacas magras, tornando-se um dos músicos mais requisitados para gravações em estúdio.

“Vinte anos depois do seu surgimento espetacular, Jackson do Pandeiro voltou à imprensa impulsionado pela gravação de Chiclete com Banana por Gilberto Gil, no álbum Expresso 2222. A música voltou a tocar no rádio e Jackson voltou a ser procurado pelos jornalistas e produtores de shows: “Tem muita gente por aí que pensa que eu morri. Outro dia fui fazer um show em Minas, teve um rapaz que perguntou: Ué Jackson você ainda tá aí? Eu disse, sei disso não. Eu tô aí, gravo todo ano. Faço LP, faço Carnaval, faço São João. Agora, quede que tocam os discos? Tocam nada. Então não tem condição de eu aparecer. Passei 12 anos que nem lhe conto. 12 anos da moléstia. Só não fui passar o chapéu no Tabuleiro da Baiana porque eu tenho vergonha na cara”.

“Voltou também à Zona Sul carioca, apresentando-se no projeto Noitada de Samba, no prestigiado Teatro Opinião”, noticiava o Globo no início de 1973. Jackson já havia sido gravado por Gal Costa (Sebastiana, no LP de 1969, mas sem atrair atenção para o cantor.

“Às vezes até me esqueço como cantar porque não tem lugar para trabalhar, né? É difícil até viajar para o interior, não tem contrato para ninguém. Tudo isso por causa da invasão da música estrangeira. Meu conjunto é formado por quatro paraibanos e uma baiana, Neusa, minha mulher. Todo mundo lutando em cima disso, só cantando Brasil mesmo. A gente passa fome, passa necessidade, ninguém muda. Me chamaram para gravar cha-cha-cha. Eu disse não. Canto é baião, samba, frevo, coco, e ai” (entrevista em 22 de dezembro de 1972).



Com a gravação por Gilberto Gil de Cantiga do Samba (no LP Temporada de Verão, de 1974) e Chiclete com Banana, em 1972, Jackson voltou à mídia e foi descoberto por uma geração nascida nos anos 50. Tornou-se cult, cantando tanto para os imigrantes nordestinos que vieram em busca de melhores dias nas duas maiores cidades do país, quanto para universitários e intelectuais, em redutos como o citado Teatro Opinião. Quando o interesse esmorecia, chegaram Alceu Valença e Geraldo Azevedo, para defender com ele Papagaio do Futuro (assista abaixo), na fase nacional do Festival Internacional da Canção. Alceu faria o projeto Pixinguinha com Jackson (o show, na íntegra, circula na internet, com qualidade sonora muito boa).

ADEUS, JACKSON

Trabalhou até o fim da vida. Em julho de 1982, fez shows em Santa Cruz do Capibaribe (onde se sentiu mal, um princípio de infarto), Caruaru, e encerrou a carreira com uma apresentação em Brasília. Sofria de diabetes, diagnosticada em meados dos anos 60. Morreria em consequência da doença crônica e mal cuidada. Morte que teve pouco espaço na imprensa, e nenhuma comoção popular.

Passou mal quando se anunciava o embarque do seu vôo, de Brasília pra o Rio. Foi internado no dia 4 de julho, um domingo, na UTI da Casa de Saúde Santa Lúcia. Na quarta-feira, o Correio Brasilense noticiava o internamento. O médico Nery João atribuiu o internamento a “descompensação da glicose”. Com o título curioso de J-K Sou Brasileiro JK – Sou do Pandeiro, em 10 de julho, o mesmo jornal alertava para o estado grave do cantor, que morreria naquele dia.

A próxima matéria sobre Jackson noticiava seu sepultamento no Cemitério do Caju, no Rio. A causa mortis: um edema pulmonar. Oswaldo Oliveira, Carmélia Alves e Azulão eram alguns dos artistas que estavam no velório. Jackson estava com 62 anos.

Seus restos mortais foram trasladados para sua cidade natal, Alagoa Grande em 2009, e estão num mausoléu no Memorial Jackson do Pandeiro.

No vídeo a seguir, Silvério Pessoa, Biliu de Campina e Baixinho do Pandeiro apresentam Cabo Tenório, música de Jackson do Pandeiro, durante o Troféu Gonzagão 2019, em Campina Grande (PB). Jackson foi um dos homenageados da 11ª edição do evento:




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