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Entrevista
Bacurau

Mateus e Tomaz Alves são os nomes por trás dos sons de 'Bacurau'

Conheça a dupla responsável pela trilha sonora original do filme de Kléber Mendonça Filho e Juliano Dornelles

Publicado em 11/09/2019, às 17h04

Irmãos, Mateus e Tomaz são responsáveis por boa parte das trilhas sonoras de sucessos do cinema pernambucano / Divulgação
Irmãos, Mateus e Tomaz são responsáveis por boa parte das trilhas sonoras de sucessos do cinema pernambucano
Divulgação
João Rêgo

Quase imperceptível mas altamente potente, por trás de Bacurau há um trabalho sonoro fundamental. Assinado pelos irmãos e músicos pernambucanos Mateus e Tomaz Alves, a trilha original do filme aprofunda suas dimensões imagéticas, sutilmente, em um universo sonoro rico e autoral.

Não é de hoje que a dupla vem realizando grandes trabalhos. Aquarius e Mens Sana in Corpore Sano, obras de Kléber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, já carregavam seus nomes nos créditos – sendo responsáveis também pelas trilhas de projetos de cineastas como Tuca Siqueira, Marcelo Pedroso, Pedro Severien e Marcelo Gomes.

A relação com a música veio desde cedo através do seu pai, um colecionador de disco apaixonado por jazz e música clássica. No entanto, seguir carreira no ramo não foi a primeira opção. “Eu me formei em direito, por exemplo, e meu irmão fez ciências da computação. Mas nesse período a gente sempre estava envolvido em projetos musicais”, conta Tomaz, o irmão mais velho.

Passada a primeira fase, ambos se entregaram à música de formas diferentes. Tomaz, autodidata, seguiu tocando em bandas quando recebeu a proposta para compor duas trilhas para o longa Cinema, Aspirinas e Urubus, de Marcelo Gomes. “Foi um misto de sorte e acaso. Como esse filme teve uma certa visibilidade, eu terminei recebendo outros convites para trabalhar com cinema”.

Já Mateus escolheu o lado mais acadêmico: estudou música na UFPE, entrando em maior contato com um repertório erudito e a possibilidade de escrever para orquestras. Durante seu mestrado em Londres, pela sua amizade com cineastas pernambucanos, compôs trilhas para curtas de Pedro Severien e Marcelo Pedroso, com quem reeditaria a parceria em Brasil S/A (2014) – rendendo prêmios no Festival de Brasília. 

Cinéfilos desde pequenos, trabalhar com o cinema nunca foi distante. A formação de ambos vai desde a paixão pelos clássicos hollywoodianos e blockbusters até o cinema de gênero dos anos 80. Como músicos, as trilhas sempre os fascinaram. Do clássico, pescaram referências em nomes como Ennio Morricone e Bernard Hermann, além de outros compositores como John Williams, Mica Levi, John Coltrane, Clóvis Pereira e György Ligeti.



O SOM DE BACURAU

Em Bacurau, esse leque foi colocado em ação. Trabalhando em conjunto, os dois se dividiram na trilha do filme; Mateus ficou responsável pelas cenas da cidade – com tons mais clássicos e orquestrais, mas igualmente incomuns, enquanto Tomaz cuidou dos estrangeiros, com uma pegada mais enigmática.

“Kleber e Juliano nos mostraram de cara a música do funeral: Bicho da Noite, do Sérgio Ricardo, como um referencial. A partir disso, eu fiz as trilhas meio idílicas, meio orquestrais, e às vezes de suspense. Eu já venho trabalhando elementos regionais de formas novas. Fazer algo daqui, mas que é universal, e nem mesmo desse planeta. Eu penso muito cosmicamente. Alinhar a música contemporânea e a experimental, inserindo esses elementos alienígenas (talvez) em sonoridades locais”, explica Mateus.

Tomaz, por sua vez, concebeu um processo mais sensorial; de terror e estranhamento. “Eu fui atrás de sonoridades que remetessem a uma ideia de futuro, de ficção cientifica e do filme de aventura. Quando o KMF e o Juliano mostraram o tema do John Carpenter, tudo ficou muito claro. Eu comecei a produzir também, além de temas musicais, sons que não são estritamente musicais. Ruídos, distorções, que foram usados já na parte final do filme quando a violência toma conta. Tem coisas em Bacurau que compus que são indissociáveis do desenho de som – você não sabe se está ouvindo a música ou a captação dos passos. Esses limites ficam borrados porque eu não me preocupei se o que eu estava fazendo era música, ruído ou só ambiência”.

O resultado é uma aproximação bem referenciada em narrativas de gênero, mas com uma dimensão propriamente nacional – acompanhando discretamente o que está disposto na tela. “Historicamente, no começo do cinema, a trilha sempre foi muito detalhista e narrativa. Hoje em dia, com o cinema desenvolvido mais como uma linguagem própria, ela atua mais sugerindo o que está acontecendo em uma perspectiva interna da trama. Em Bacurau, por exemplo, é normal que as pessoa vejam o filme e não percebam nosso trabalho. Porque ele foi feito para se unir a narrativa sonar do filme e não se sobrepor a ela”, pontua Tomaz.

"Quando eu vi a primeira vez o processo de montagem, eu falei: isso aqui é música. O ritmo do filme é totalmente musical, a trilha só dá uma ajuda a algo que é assim por natureza. E muito da música também vem em imagens abstratas. Mesmo que o cinema traga isso diretamente, do corte final, ao mesmo tempo, não penso muito nisso. Eu busco me aprofundar na música pela música e nas sensações que surgem a partir disso; e não é nem pensando musicalmente, mas sim sonoramente”, completa Mateus que reuniu recentemente no álbum Música pra Cinema boa parte das suas trilhas compostas para filmes. Entre elas a de Aquarius, com a qual foi premiado no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro.

A trilha de Bacurau também está disponível nas plataformas digitais, reunindo além das canções licenciadas para o longa, várias composições da dupla.




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