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Entrevista/Tom Zé

Tom Zé não se encantou com os Beatles

Cantor comenta sobre Pernambuco na sua vida

Publicado em 01/12/2019, às 09h55

Tom Zé voltando ao circuito interancional / Foto: André Conti/Divulgação
Tom Zé voltando ao circuito interancional
Foto: André Conti/Divulgação
JOSÉ TELES

“O que senti no Japão? Vergonha. Um país destruído na segunda guerra, que hoje é uma maravilha, aqueles trens tudo com uma pontualidade, o povo muito educado, gentil”. O comentário é de Tom Zé, que faz show dia 7 de dezembro, no Baile Perfumado, com a Ave Sangria e o Mulungu. Ele se apresentou pela primeira vez no Japão, em Tóquio, no final de outubro, e no Mitaka Hikari Hall, na cidade universitária de Shizuoka, no dia 3 de novembro. Viagem que temeu não fazer, por ter sido submetido a um cateterismo em agosto.

 “Passei por uma carraspana danada, tive asma durante uns dias, mas já estou mais ou menos normal. Desde o princípio do ano tinha este contrato com o Japão, e como aqui no Brasil se está trabalhando muito pouco, que o governo diz que vai acabar com a gente, fiquei com o maior medo de não ir pro Japão, senão terminaria o ano no vermelho. Por felicidade conseguimos ir, aguentei a viagem, aquela comida estranha, mas os shows foram muito bem, o Japão é um país muito organizado, uma coisa muito bonita. Foi uma felicidade conhecer aquilo”, comenta Tom Zé, em conversa por telefone com o JC.

A redução de shows no Brasil o obrigou a retomar as apresentações internacionais aos 83 anos, completados em 11 de outubro: “Eu parei essas turnês há uns dez anos. Cada vez que vai atravessar o oceano é uma noite inteira de viagem, a gente pra se recuperar é o diabo. Mas o ano retrasado, o trabalho aqui começou a diminuir muito. Quem é rico não se incomoda. Tem gente até que tá com esse governo aí, tudo bem. Mas eu voltei a trabalhar no exterior. Ano passado fui pros Estados Unidos duas vezes, este ano fui novamente e pro Japão. Já tem uma viagem acertada pra Noruega. Não gosto de viajar, estou com esta idade, e sofro de asma. Mas se preciso disto, o que é vou fazer?”

Tom Zé começou a viajar para o exterior quando estava prestes a viajar para o interior, da Bahia. No ostracismo, pretendia voltar a morar na sua cidade natal, Irará a 153 quilômetros de Salvador. Não foi porque o americano David Byrne, de passagem pelo Rio, comprou num sebo de discos, o LP Estudando o Samba, e fez o mundo conhecer Tom Zé, com o álbum The Hip of Tradition.

“Desde 1992, descobri que podia fazer show no exterior. Fiz um show na Suíça, que comemorou os 500 anos da navegação portuguesa. Me convidaram, mas queriam sem banda, eu disse que sem banda não adiantava ir. Resolveram levar me levar com banda. Descobri no dia em que fiz este show, que poderia trabalhar no exterior com facilidade. Lá tinha o recurso de falar meu inglês miserável, mas a plateia queria ouvir qualquer coisa. Cantaram até o refrão de Augusta, Angélica, Consolação, e várias outras coisa que ninguém poderia imaginar. Passei a noite com o baterista, no balcão do hotel. Eles nos vendendo cerveja por debaixo dos panos, porque lá não se podia vender bebida depois das dez da noite. E a gente comemorando, porque não sabia que podia cantar no exterior. O show foi um sucesso tão grande que precisou a funcionária da prefeitura ir ao palco, para pedir pra terminar o show, porque o metrô ia fechar”.

PERFUMADO

Tom Zé aproveitou o nome da casa em que fará a apresentação para dar título ao show, Recife Perfumado. Pernambuco está bem presente na história de Tom Zé, até pela rivalidade entre a capital pernambucana e a capital baiana: “Cresci vendo do sentimento de disputa, de ciúme entre as duas cidades. A seleção da Bahia jogava contra Alagoas, Sergipe, e ganhava. A seleção de Pernambuco jogava também com Alagoas e Sergipe  e ganhava. Então Bahia e Pernambuco se enfrentavam. E só uma seguia adiante”. Ele lembra dos tempos em que havia campeonato de seleções estaduais. Em Pernambuco ele teve um infarto, causado pela emoção de ver milhares de pessoas cantando junto com ele, no Abril Pro Rock, em 2000, no pavilhão do Centro de Convenções. Foi também pernambucana a gravadora pela qual lançou seu disco de estreia, em 1968: a Rozenblit.

E aqui ele esclarece uma curiosidade do disco, que tem o nome oficial de Tom Zé, porém é conhecido como Grande Liquidação. Na arte da capa, a foto do cantor está em meio a símbolos da sociedade de consumo (expressão muito usada na época). As palavras “Grande Liquidação” aparecem bem nítidas sobre sua cabeça. Passa realmente a impressão de ser o título. Mas é muito mais a perplexidade de Tom Zé com São Paulo:



“Quando cheguei em São Paulo estava circulando a ideia de vender a crédito. Tudo estava virando banco. Antigamente fiado era um horror para o comerciante, e eu já fui comerciante. E as lojas estavam começando a faturar no fiado. Aquilo para mim era novidade”, conta Tom Zé, que cita o crediário na letra de São São Paulo (“Por mil chaminés e carros/caseados à prestação”). São São Paulo, com que venceu o IV Festival da Música Popular Brasileira, da TV Record, é a primeira das várias canções dedicadas cidade. Tem canções a ele dedicadas suficientes para um álbum. Porém desfaz a ideia de que seja o cantor da Pauliceia por excelência:

 “ Quando eu estava em Irará, cantava Irará. Vi que não dava certo fazer música romântica, então comecei a fazer reportagem cantada. Os personagens da cidade, os problemas da prefeitura, quando fui pra Salvador fiz a mesma coisa, e em São Paulo cantei São Paulo”.

A música irrotulável do Antônio José Santana Martins leva produtores de eventos a escalar bandas de rock para tocar com ele, como acontecerá no Baile Perfumado, com a Ave Sangria (que não conhece pessoalmente, só de escutar). Nos Estados Unidos também fez turnês com a banda pós-rock Tortoise: “Eu não ouvia rock. Vim com o pessoal a São Paulo fazer o Arena Canta Bahia, e depois voltei para Salvador, não podia perder minha bolsa de estudo. Voltei nas véspera daquele festival, de 67. Um dia Caetano me disse: ‘Você não ouve música popular, mas vai ouvir este disco aqui’. Me mostrou o disco dos Beatles, Sgt Pepper’s. Me falou tudo, traduziu tudo pra mim. Fiquei admirado, mas logo esqueci aquilo, que não era meu prato de feijão. Era mais ligado ao mundo do folclore da Bahia”.

OPERÁRIO

Pernambuco entrou mais uma vez na vida de Tom Zé, involuntariamente, quando o jornalista italiano Pietro Scaramuzzo veio ao Brasil e ouviu Frevo (Pecadinho), do álbum Tom Zé, de 1972. Provavelmente o primeiro frevo que escutou, e que resultou num interesse pelo autor, que desaguou na biografia Tom Zé, l’ultimo tropicalista (ADD Editore), prefaciado por David Byrne, que terá e breve edição em português:

 “Deveria ter um agradecimento ao Whatsapp. Conversamos o tempo todo por Whatsapp. Às vezes, durante quatro horas. Não li o livro, mas vi que as matérias na Itália são elogiosas. Até li um pouco pela proximidade do italiano com o português. Ele faz uma romanceação sobre minha ligação com Irará. Pra qualquer lugar que vou eu vou pra Irará”

Trabalhando num disco, que não sabe ainda quando sai, ou como será, Tom Zé é meio paulistano, um operário da música: “Sempre estou trabalhando, minha profissão não tem aposentadoria. Dou volta e contravoltas pra entrar na ideia um disco, as vezes não rende, passo pra outra, agora tá demorando até um pouco demais, talvez porque não esteja mais tão forte, mas fico aqui trabalhando com minha banda de craques encantadores, que vai comigo ao Recife: Daniel Maia, Jarbas Mariz, Cristina Carneiro, Felipe Alves e Fábio Alves”.




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