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Tia Amélia foi uma pernambucana que marcou a MPB

Ignorada em seu estado, ela é comparada a Chiquinha Gonzaga

Publicado em 17/01/2020, às 16h43

Tia Amélia, nos anos 30 / Foto: reprodução
Tia Amélia, nos anos 30
Foto: reprodução
JOSÉ TELES

Um enigma na música pernambucana: por que a compositora e pianista Amélia Brandão Nery ainda não foi redescoberta pelas novas gerações do seu estado? Sobretudo as mulheres, que tanto se preocupam em encontrar nomes femininos emponderados e atuantes em décadas passadas. Nascida em Jaboatão – há versões de que foi em Vitória de Santo Antão, em 1897, Amélia Brandão Nery, aliás, não foi a única. Dois outros nomes também precisam ser prestigiados: a pianista Argentina Maciel, recifense, nascida em 1888, que se casou e foi morar em Pesqueira, para anos depois, residir em Olinda, onde faleceu em 1970. A outra é Stefana de Macedo, também do Recife, nascida em 1903, primeira cantora folclorista brasileira, violonista, com vários discos gravados nos anos 30.

Mas na vitrine está neste momento Amélia Brandão, ou Tia Amélia, como ficou conhecida, depois que enviuvou e se mudou para o Rio, onde conviveu com os grandes nomes da música popular, como Pixinguinha e Jacob do Bandolim. Vinicius de Moraes costumava dizer que ela seria uma reencarnação atualizada de Chiquinha Gonzaga. Ernesto Nazareth, dos primeiros a se encantar com o talento da pianista recifense. Pediu-lhe que quando ele morresse, não deixasse o choro morrer. Ela não deixou. Embora tenha feito um hiato na carreira em 1939, retomando-a no final da década de 50.

Os que a viram tocar nos saraus da casa de Jacob do Bandolim exaltavam sua técnica original, e complexa. Ela foi da música regional aos tangos brasileiros, maxixes, valsas e choros, e música regional nordestina. Pelo Selo Sesc, o pianista capixaba Hércules Gomes lançou o disco Tia Amélia para Sempre, com, um repertório formada por 14 composições de Amélia Brandão Nery, que morreu em Goiânia (GO), em 1983. Gomes é fascinado pela história do piano brasileiro. No encarte do álbum conta que procurou uma resposta para uma curiosidade sua: “O que aconteceu com o piano brasileiro entre Chiquinha Gonzaga e Tom Jobim? E também como a forma de se tocar choro evoluiu entre Ernesto Nazareth e Laércio de Freitas?”

Ele procurou conhecer todos os pianistas que lhe foi possível: “Entretanto de todos, uma especialmente me impactou muito – Tia Amélia. Tudo nela me chamou atenção desde a primeira audição: as composições, o gingado, o virtuosismo, a inteligência ao traduzir no piano a linguagem do choro, o carisma, a alegria”. Hércules diz não entender como Tia Amélia, uma verdadeira gigante do piano brasileiro, possa ser tão pouco lembrada nos dias de hoje.

NO RECIFE

Casada bastante jovem, Amélia Brandão foi morar na fazenda do pai do marido em Jaboatão. Já tocava piano desde os quatro anos, mas em reuniões familiares. A propriedade foi à falência, algum tempo depois o sogro morreu. E em seguida, o marido. Até então, tanto o genitor quanto o esposo a impediam que se tornasse profissional da música. Viúva, com quatro filhos para criar, a fim de garantir o sustento dela e das crianças, valeu-se do único ofício que aprendeu: o de instrumentista.

Teve, obviamente, que enfrentar o preconceito, afinal eram raras as mulheres pianistas profissionais. Mas seu talento como compositora, e a pianista, além de louvado carisma, a levou em pouco tempo a se tornar umas das mais elogiadas e prestigiadas concertistas do estado. “A musicista pernambucana Amélia Brandão Nery vai realizar um festival no Teatro Lírico, patrocinado pelos altos elementos da sociedade pernambucana. Participarão do festiva, interpretando composições de Amélia Brandão, os tenores Reis e Silva e Vicente Cunha, além da senhorita Stefana de Macedo e da senhora Carmem Paranhos, e de outros artistas do meio musical carioca”.



A notícia foi publicada no Jornal de Recife, em 18 de julho de 1930. Era a primeira investida de Amélia Brandão Nery na capital federal. Ao voltar do Rio, os jornais noticiavam o sucesso da pianista, que tinha feito testes em três das principais gravadora da época RCA, Brunswick e Columbia. Provavelmente, pela probabilidade de se mudar para o Rio, e devido aos constantes compromissos para produzir e dirigir festivais, Amélia Brandão pediu desligamento de suas funções de pianista e diretora de orquestra no Cine Ideal, onde tocava durante as exibições de filmes mudos.

O pedido foi publicado no Jornal de Recife em fevereiro de 1930. Amélia Brandão foi apresentada à sociedade carioca num concerto acontecido na casa da cantora Stefana de Macedo, então já um grande nome da música regional brasileira, que cantou composições da conterrânea, entre estas o samba Cavalo Marinho e Casa de Farinha. Foi quando conheceu Ernesto Nazareth, com quem chegou a tocar em rádios.

Amélia era eclética, ia da valsinha à marcha, à música junina, e à carnavalesca. Em 1930, por exemplo, os jornais anunciavam a venda de partituras das “colossais marchas Moleca e Cheguei - letra e música da conhecida pianista Amélia Brandão”. O anúncio era da Casa Ribas, localizada na Rua da Imperatriz. Uma pioneira, da presença a mulher no frevo-canção. Em 1931, ela já se tornara uma das mais conhecidas artistas da música pernambucana, com convite para concertos em estados vizinhos. Neste mesmo ano realizou um badalado festival Amélia Brandão no Teatro de Santa Isabel, reunindo os mais prestigiados intérpretes da música local, cantando um repertório assinado por ela.

O Recife já não comportava mais o talento e a produção de Amélia Brandão Nery, que se mudou para o Rio de Janeiro, em setembro de 1931, depois de uma calorosa despedida nas ondas da Rádio Clube de Pernambuco, escutada pelos 4 mil aparelhos de rádio que existiam então em Pernambuco. O primeiro concerto no Rio, no Teatro João Caetano, teve lotação esgotada, e participações de artistas renomados, entre estes Gastão Formenti. Amélia apresentou-se nos Estados Unidos, na Argentina. Em 1939, aos 42 anos, afastou-se dos palcos, foi morar com a filha e o genro em Goiânia (GO).

Duas décadas depois, viajou ao Rio a fim de resolver negócios pessoais, foi reconhecida, convidada para participar de programas de TV e rádio, e acabou retomando a carreira, com um disco elogiadíssimo, com contracapa escrita pelo mais importante crítico musical do país, Lúcio Rangel: “Difícil será resolver-se o problema de qual é a maior em Tia Amélia, a pianista ou a compositora (...) deixará certamente páginas definitivas da música popular brasileira, como estes choros, frevos, maracatus, cocos e marchas que serão lembrados para sempre”, escreveu Rangel, estranhando Tia Amélia ter tocado com uma banda de formação popular, certamente uma orquestra de frevo.

DISCO

Aquelas músicas, no entanto, foram esquecidas, e Hercules Gomes trata de resgatá-las, produzindo o álbum, e acompanhado por grandes músicos, tais como Nailor Proveta, Henrique Araújo, Rafael Toledo, Gian Correa, Alfredo Hacl, Natan Oliveira. Depois de escutar os discos que Tia Amélia gravou, aprender composições inéditas, Hercules chegou a um repertório que dá uma geral na música da pianista, começando com Saracoteando, do disco de estreia de Tia Amélia, em 1953. Hércules tenta se aproxima o máximo possível do estilo da pernambucana, que, originalmente, procurava desempenhar, com a mão direita, a função do violão de 7 cordas no choro.




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