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Memória

Meio século sem o doutor Zé Dantas

Zé Dantas é o compositor pernambucano com mais clássicos na MPB

Publicado em 11/03/2012, às 04h03

José Teles

O pernambucano, de Carnaíba, José Dantas de Souza Filho, ou Zé Dantas, faleceu há exatos 50 anos, estava com apenas 41 anos. Com exceção talvez de Alceu Valença, ele é o compositor pernambucano que mais emplacou sucesso no Brasil. E certamente o que mais legou clássicos à música popular brasileira. Uma de suas músicas mais conhecidas, O xote das meninas tem mais de uma centena de gravações diferentes, sem contar com regravações pelo mesmo intérprete. Depois de Luiz Gonzaga e Ivon Cury, os primeiros que a gravaram, O xote das meninas foi gravadas pelos mais diversos artistas, com versões inusitadas como a de Os Patinhos, Gerson King Combo, ou o Coro de Câmara Villa-Lobos. Em sua obra, relativamente curta, mais extremamente substanciosa, a maioria gravada por Luiz Gonzaga, sobram composições que hoje são referências da MPB: A volta da asa branca, Vem morena, Forró de Mané Vito, Paulo Afonso, Algodão, Noites brasileiras, A dança da moda, Acauã, Cintura fina, Riacho do navio, Farinhada, e Sabiá. Uma obra que nunca deixou de ser visitada. Muitas foram criadas antes mesmo que ele conhecesse Luiz Gonzaga, o que aconteceu em 1947, no antigo Grande Hotel, no Cais de Santa Rita. O Doutor do Baião, era médico obstetra, chegou a diretor do Hospital dos Servidores do Rio de Janeiro, paradoxalmente faleceu em consequência de um acidente banal, na fazenda de Luiz Gonzaga, em Miguel Pereira, região serrana fluminense, como lembra sua viúva Yolanda Dantas, 81 anos, que mora na avenida Boa Viagem, num apartamento que é uma espécie de museu Zé Dantas: “Ele rompeu o tendão do pé. Foi levado às pressas para o hospital, medicado. Mas aquilo não sarava. Para aliviar as dores, ele sofria também da coluna, Zé tomava cortisona, que mandava buscar nos Estados Unidos. Continuou tomando durante muito tempo, até três comprimidos por dia, aquilo comprometeu os rins. Ele sofreu o acidente num carnaval, e morreu no carnaval seguinte”. conta dona Yolanda, que criou os três filhos que teve com o compositor, ao mesmo tempo em que cuidava de preservar sua memória. Ao longo deste meio século ela preservou das abotoaduras e gravatas borboletas que Zé Dantas costumava usar ao pesado gravador com que ele registrava suas músicas, e cocos, repentes dos artistas do sertão do Pajeú, que costumava visitar sempre que tinha tempo. Ele nasceu na região, em Carnaíba (27 de fevereiro de 1921): “A gente nunca viajou para o exterior, até porque tínhamos três crianças para cuidar. Quando podia, ele preferia viajar para a terra dele. Gostava de lá, de plantar, de conversar com o pessoal da fazenda”. Destas conversas surgiram muitas músicas, e os causos, que ele costumava contar, tinha uma veia humorística que explorou muito, tanto nas composições, quanto nos programas de que participou no rádio carioca. Na Nacional, fez com Humberto Teixeira, Luiz Gonzaga e o apresentador Paulo Roberto, o programa No mundo do baião. Zé Dantas foi bastante prolífico. Além das cerca de 100 músicas gravadas, deixou muita composição inédita, textos longos em versos, como um sobre Lampião, gravado com sua voz. Dona Yolanda foi liberando para gravação boa parte das músicas ao longo dos anos. Algumas permaneceram inexplicavelmente na gaveta, como é o caso da antológica O parto de Sá Juvita, ou Sá Marica parteira, composta nos anos 50, e só gravada, por Luiz Gonzaga (e logo em seguida pelo Quinteto Violado) em 1973: “No dia em que sofreu o acidente na fazenda, Zé Dantas deu um show lá para os convidados, se acompanhando ao violão. Ficou tudo gravado, várias músicas dele. Sá Marica estava entre elas, e Luiz Gonzaga decorou tudo, as falas, tudo, e gravou. Mas, apesar de ser um ótimo cantor, e Zé sempre dizia isto, a versão dele não se compara com a que Zé fazia. Ele cantava bem, quando já estava bem doente, me disse que pensava em gravar um disco cantando”, revela dona Yolanda Dantas.


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