Jornal do Commercio
Biografia

Biografia do roqueiro mais irado dos anos 80

Carreira de Nasi se confunde com história do rock paulista

Publicado em 09/09/2012, às 06h00

José Teles

“Uma discussão a respeito do amplificador de retorno começou entre os quatro irados. Sol quente, vacas magras, vendas baixas, gravadoras insensíveis, crise criativa, tudo desabou sobre estas cabeças quentes na poluição. Em um momento, alucinado, Edgard apanhou uma lata de cerveja e jogou em direção a Nasi. No meio do caminho André Jung colocou seu rosto na frente. A lata explodiu no rosto do baterista. 



Silêncio. sabiam que se aquela lata tivesse acertado Nasi a briga seria feia. E esse seria o fim do livro, não o começo”. O trecho foi transcrito de A ira de Nasi, dos jornalistas Mauro Beting e Alexandre Petillo (BelasLetras, 320 páginas, R$ 34,90). A pretexto de escrever a biografia do vocalista da finada Ira! a dupla conta a atribulada história do rock paulistano dos anos 80, que revolucionou São Paulo tanto quanto o manguebeat o Recife na década seguinte. O rock paulista livrou a capital paulista de seu ar sisudo, provinciano, fez surgir casas noturnas hoje lendária, gravadoras, lojas, influenciou até a] imprensa. O rock paulistano foi divulgado pela Ilustrada, da Folha de São Paulo, e pela revista Bizz, em cuja redação trabalhavam roqueiros
como Thomas Pappon (Voluntários da Pátria e Fellini), ou Alex Antunes (Akira S e as Garotas que Erraram).
O paulistano Marcos Valadão Rodolfo, ganhou o apelido de Nasi, que vem de nazista mesmo. Passaram a chamá-lo assim em 1978, pelas brigas que arrumava, quando a TV Globo passou a série Holocausto. Ele se irritou, e o apelido pegou. O hiperativo Nasi esteve no epicentro do furacão roqueiro que se abateu sobre a São Paulo. Foi vocalista das citadas Voluntários da Pátria, e da Fellini, sem ter nada a ver com o som de ambas. O ira! começou sem o sinal de exclamação e punk rock. O primeiro show, num festival da PUC (Pontifícia Universidade Católica), é contado por Nasi no livro: “..lembro realmente de estar pendurado no pedestal do microfone. Acho que devo ter cantado pelo menos uma música. Ou algum trecho dela. Porque, de resto, eu fiquei deitado, desmaiado no palco. Sangrando, todo sujo. Pena que não haja gravação daquilo. Certamente seria a apresentação mais punk da história do punk”.
Embora os autores, aqui, ali, resvalem para elogios exacerbados à banda. cometam pequeno deslizes como atribuir o sucesso da Jovem Guarda, Menina do chapéu vermelho a Deny & Dino (é dos Jet Blacks), A ira de Nasi lembra Life, a autobiografia de Keith Richards, por não dourar a pílula. As 320 páginas do livro são coalhadas, de drogas, brigas, intrigas, sexo (com infidelidades no meio), e rock and roll. Com um início tão pouco ortodoxo como foi a apresentação inaugural, o
Ira! até que durou muito. O fim do grupo, uma confusão generalizada, na qual coube até corpo a corpo entre Nasi e o irmão dele Junior. Tudo culminando com cinco processos contra Nasi movidos pelo pai e pelo
irmão.
Embora o Ira! não tenha sido a mais bem-sucedida banda do rock brasileiros dos anos 80, é a que tem a história mais interessante. Gaspa e Andre Jung são citados pouco no livro. Scandurra e Nasi foram o núcleo da banda, e o centro da discórdias. O fim do Ira!, o livro é claro, começou quando Nasi transou com Beatriz, uma namorada de Scandurra, que ameaçou quebrar a cara do vocalista e sair da banda. Nem quebrou, nem acabou a banda, mas a amizade trincou, e seria
estilhaçada alguns anos mais tarde. Até lá Nasi pintou e bordou. Afundou-se nas drogas a ponto de se internada: “Minha casa caindo aos pedaços e eu só não cheirei, porque não consegui vender. Os shows estavam cada vez piores. Só serviam para
pagar a fornada de coca...”. Meteu-se numa encrenca com a família de
uma namorada, com direito a sequestro, ameaças de mortes, e polícia, obviamente. Deu tempo para aparecer nas colunas sociais, ao namorar com Marisa Monte, depois com Marisa Orth. Mas a ira permeia quase toda a história, e uma história muito bem contada pelos autores. “Talvez o melhor disco do Ira nunca foi gravado. Tínhamos músicas incríveis e fazíamos shows maravilhosos. Teve um monte de músicas que a gente nem gravou, como Encha minha cabeça de ordens. Esta fase nunca foi ao disco”, comenta no livro o roqueiro e macumbeiro Nasi, como ele
se define (é iniciado no candomblé, e tem guia espiritual na religião).
O Ira! foi a banda do rock oitentista do Brasil com mais potencial,
mas que, dos 14 discos que lançou, em poucos este potencial foi desenvolvido. em 1983, as gravadoras voltaram sus baterias para o rock paulista. O ira! foi um das bands que assinou com a Warner. Mas a letra do lado A do compacto de estreia, Pobre paulista (de Edgard Scandurra) evitou que a gravadora o divulgasse: “Não quero ver mais essa gente feia/não quero ver pessoas ignorantes/eu quero ver gente da minha terra/eu quero ver gente o meu do meu sangue”. Destilava ódio contra imigrantes, hoje seria impensável que fosse gravada.
O irascível Ira”! não ajudava. quando foram gravar o Psicoacústica, no estúdio Nas Nuvens, no Rio, brigaram com o produtor Liminha mal começaram as sessões de gravação . O último álbum, na Warner Música calma para pessoas nervosas, vendeu menos de 2 mil cópias. A partir daí o grupo saiu pulando de gravadora: Arsenal, Paradoxx, Abril Music,
sempre no mais ou menos. O grupo também não agradava à imprensa. Thomas Pappon, da Bizz malhou o o disco, e no release, texto pago pela gravadora, para ser distribuído com o álbum.
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