Jornal do Commercio
Disco

Mayra Andrade é a nova grande voz da música do Cabo Verde

Cantora passou despercebida no Recife no Carnaval de 2013

Publicado em 13/04/2014, às 06h00

José Teles



A cantora caboverdiana Mayra Andrade é constantemente comparada a Cesária Évora (1941/2011) A Dama dos Pés Descalço, responsável por incluir os ritmos do Cabe Verde no vocabulário musical internacional. No entanto, pelo quarto disco de Mayra Andre, o amplamente elogiado Lovely difficult (Sony Music), há uma grande distância entre as duas. Mayra e Cesária só comungam de semelhanças por serem compatriotas, e grandes cantoras. Enquanto Cesária Évora até o final da vida se prendeu à música tradicional de seu país, Mayra Andrade lançou no final do ano passado um disco pop, com boa parte das letras em inglês.

Filha de um ativista pela libertação de Cabo Verde, Mayra Andrade nasceu, há 29 anos, em Havana, Cuba. Mas se apressa em ressaltar que sua pátria é caboverdiana: “Foi programado. Minha mãe, naquela ocasião, não podia ter um filho no Cabo Verde, então fomos para Cuba.Logo depois voltamos. Queria que isto ficasse bem esclarecido porque nas matérias que sai no Brasil sempre me põem como cubana”, diz Mayra, em entrevista por telefone, de São Paulo, no final das férias, tiradas em parte no Brasil.

Uma caboverdiana, cidadã do mundo. O padrasto pertencia ao corpo diplomático, até a adolescência Mayra morou em Angola, no Senegal e na Alemanha (atualmente mora em Paris). De volta ao seu país, ela começou a cantar, e ganhou uma medalha participando dos Jogos Francófonos de 2001, em Montreal, no Canadá: “Nas competições entrava também o canto. Quando ganhei esta medalha fui à casa de Cesária, eu tinha apenas 14 anos, nos tornamos muito amigas, mas não conversávamos sobre música. Cesária não conceituava a música, cantava como se falasse, mas faz parte da trilha da minha vida. O que a gente tinha mais em comum, além de cantar, era o fato de sermos duas mulheres apaixonadas pelo Cabo Verde”.

Ela diz ter sorte de ter convivido com mais outra lenda da música caboverdiana, Orlando Monteiro Barreto, ou Orlando Pantera (1967/2001), renovador da música do país, com quem ela conviveu até a sua morte, prematura, aos 33 anos (em consequência de uma pancreatite), às vésperas de viajar para gravar o primeiro álbum: “Foi uma pessoa que me marcou muito, ele estava dando uma nova abordagem à música do interior, que era conhecida apenas na região. Ele trouxe para a cidade estes ritmos, com novas letras, novas harmonias”, conta Mayra. Por interior, ela quer dizer de outras ilhas. Os gêneros que Cesária Évora cantava, a maioria, era da ilha de São Vicente. Mayra é de Santiago, onde predominam o funaná, o tabanka, e o Batuku, ou batuque.

“Um dia fui na casa dele apanhar um violão, e foi a primeira vez que não vi Pantera sorrir. Foi também a ultima vez que o vi com vida. Tenho uma vida muito feliz, e o único trauma que senti até agora foi a morte dele. No meu disco navega, gravei uma música de Pantera, chamada Regaso, ouvi pela primeira vez no seu enterro, e ele a compôs para ser cantada quando morresse. Desde então é uma música que não sai do meu repertório de shows “, conta. Foi Pantera que a desafiou a procurar fazer o diferente se assim o desejasse, e foi isto que Mayra Andrade fez no quarto álbum, Lovely difficult, em que se afasta, mas não radicalmente, dos ritmos regionais.Gravou em Brighton, Inglaterra, produzida por Mike “Prince Fatty” Pelanconi (que assina discos de Lily Allen e Graham Coxon).



Mesmo assim não é um disco que se espera de uma estrela da world music, muito menos de uma cantora africana.
Quem mais se surpreendeu com a resposta ao disco foi a própria Mayra Andrade. Embora Cabo Verde seja um dos países da África com um dos maiores índices de cidadãos morando no exterior (estima-se que a metade dos cabaverdianos), o que o estimula a ser culturalmente aberto ao que vem de fora, Mayra diz que, paradoxalmente, a cultura do país é muito fechada: “Temos um certo protecionismo cultural, e este disco no entanto foi muito bem recebido. Acho que para os jovens sobretudo foi como uma rajada de ar fresco. O desafio era fazer algo vindo para esta linguagem pop, mas que a alma do trabalho fosse a minha voz. O disco foi uma viragem no meu estilo, mas não uma ruptura total. Foi viragem bem acentuada em relação ao outros discos”, comenta Mayra Andrade.

Ela veio ao Recife no Carnaval do ano passado, como convidada da Orquestra Contemporânea de Olinda, mas como geralmente acontece em shows caranvalescos, passou despercebida. Foi uma viagem mais proveitosa para ela, confessa, que conheceu uma parte do Brasil ignorada no exterior: “Nunca havia passado um carnaval no Brasil, e adorei ter ido no Recife e em Olinda. Foi marcante pra mim. Os caboclos do maracatu me deixaram maravilhadas, porque é uma coisa muito especifica, que a gente só vai encontrar neste lugar. Salu (Macial), me convidou pra ver o encontro dos maracatus em Olinda, no Ilumiara Zumbi, nunca vi nada igual”, elogia Mayra, que volta ao Brasil no segundo semestre, torcendo para que o Recife entre no roteiro.

O DISCO
Lovelly difficult não foi bem recebido apenas pelos compatriotas, foi um dos álbuns de de uma artista de world music mais elogiados nos últimos anos pela crítica europeia (ainda não foi lançado nos EUA). Com uma voz cujo timbre fica ente Marisa Monte e Vanessa da Mata, mas com modulações, fraseados próprios, Mayra Andrade se sai bem em qualquer ritmo, ou idioma (fala cinco, incluindo o creolo caboverdiano).

É curioso, mas mesmo as melodias mais pop, estão impregnadas de Cabo Verde. Embora seja um disco nivelado por cima, algumas canções de destacam, pela beleza da interpretação e das melodias, como é o caso de Ilha de Santiago, Ténpo ki bai, ou We used to call it Love, uma daquelas canções pop perfeitas.

Cantado em inglês, Frances, creolo, português, o álbum não sao como estas saladas que alguns cantores costumam gravar, na maioria das vezes sem entender o que cantam. Mayra domina todos os idiomas em que canta (e fala português curiosamente com sotaque nordestino). Embora fissurada por música brasileira, nada de bossa ou samba no repertório. O que é palpável, e admitida, de Caetano Veloso, em canções como Build it up. Talvez coincidência, mas Ilha de Santiago lembra compassos de La belle dejour. Mesmo cantando em creolo (que tem uma loginqua semelhança com o português), não se encontra o exótico neste disco.



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