Jornal do Commercio
Centenário

Lourival Batista, Faraó da poesia, tem centenário festejado

Poetas, cantores, turistas, celebram Louro em São José do Egito

Publicado em 03/01/2015, às 06h36

 / Foto: Reprodução/Internet
Foto: Reprodução/Internet
José Teles

"... Saí dali convencido

 

Que não sou poeta não,

Que poeta é quem inventa

Em boa improvisação

Como faz Dimas Batista

E Otacílio seu irmão,

Como faz qualquer violeiro,

Bom cantador do Sertão,

A todos os quais humilde

Mando minha saudação".

Os versos de Manuel Bandeira exaltam os irmãos Dimas e Otacílio, e os cantadores em geral, são sempre citados pelos admiradores da cantoria de viola, como prova irrefutável, atestado por um poeta consagrado, da superioridade do repente sobre a chamada poesia de gabinete. No entanto, nem todos os poetas de gabinete são um Manuel Bandeira, nem todos os repentistas um Dimas ou um Lourival Batista, os dois lendários violeiros de São José do Egito, que com Otacílio Batista foram chamados de os Três Faraós da poesia do Sertão.

Todos eles são falecidos, Dimas, em 1986, Otacílio em 2003. O terceiro, mais velho dos irmãos, faleceu em 1992, e completaria 100 anos no dia de Reis. A cidade onde viveu a maioria dos seus anos está em festa, que se encerra na terça-­feira com um baião de dois, um baião de viola com alguns dos mais importantes cantadores da atualidade. Embora fossem todos extremamente talentosos, da trinca de irmãos, Louro destacou­se não apenas por ser o mais carismático, como também, e principalmente, por ter se dedicado em tempo integral ao repente.

Chegou a trabalhar ainda bem jovem, em empregos convencionais, mas por muito pouco tempo. Ele, assim como os irmãos, nasceu em Umburanas (hoje Itapetim), então distrito de São José do Egito. Por pouco tempo esquentou bancos de escola. Os pais mudaram­se no final dos anos 1930 para o Recife. Lourival Batista foi matriculado no colégio Dom Vital, na Rua do Jiriquiti, na Boa Vista. Concluiu o equivalente ao 1° grau, mas não colou grau por não ter se submetido aos exames finais de religião. O espírito de aventuras o levou a pensar em alistar­se nas tropas pernambucanas que iriam a São Paulo combater na revolução constitucionalista, deflagrada pelos paulistas em 1932. Estava com 17 anos e precisava da autorização dos pais, que lhe foi negada. Não precisava, no entanto, de autorização para cair no mundo da poesia.

A Praça Dom Vital, ao lado do Mercado de São José, era outro mercado de cultura popular, como foi até meados dos anos 80. Louro conheceu um cantador cego paraibano (de Patos), Cesário Pontes e começou a cantar com ele. A dupla acabou quando seu pai, Raimundo Patriota, descobriu­se com um filho cantador de viola. Lourival Batista escapou da sanha paterna fugindo para a Paraíba, porém não durou muito sua incursão inicial como profissional do repente. Voltou para a casa dos pais, que o queriam continuando os estudos. Não adiantaria. Sua escola seria o mundo, e os professores os cantadores com quem foi se deparando e aprendendo em contendas poéticas Nordeste afora.

"Eu comecei com um cego

Minha carreira de artista

Cesário José de Pontes

Que foi grande repentista

Depois que ele morreu

Fiquei guiando os de vista"

O repente, cordel, estavam no DNA de Louro e dos irmãos, e vinha do século anterior. Vinha da linhagem de Agostinho Nunes da Costa da Costa (1797/1852), o primeiro grande marco da poesia popular nordestina. Mais tarde reforçaria o DNA da família, casando­se com Helena, filha de um dos maiores nomes da história da poesia popular nordestina, Antônio Marinho (1887/1940). Seriam 60 anos dedicados à sua vocação. Notabilizou­se pela agilidade de raciocínio, pelo humor fino e ferino. Criou milhares de estrofes, nas diversas métricas abrigadas no repente. Foram preservadas por sertanejos de memórias privilegiadas, como o lendário Zé de Cazuza (José Nunes Filho, Monteiro, 1929), guardadas de cor.



No entanto, apenas trechos de cantorias de Louro em dupla com diversos cantadores. Boa parte com Pinto do Monteiro (Severino Loureço da Silva Pinto, 1896, Monteiro­PB), com quem Lourival Batista formou a que é considerada a mais perfeita dupla da cantoria de viola (coincidentemente, Pinto e Louro morreram no mesmo ano).

Boêmio inveterado, Louro largava­se pelo sertão a pé, ou de carona, atrás de cantoria. A mulher, tabeliã de São José do Egito, garantia o sustento dos filhos. Ele se casou com ela viúvo de um primeiro casamento. Suas longas andanças à procura dos versos e da vida pelas estradas sertanejas, afastado da família, de vez em quando eram comentadas nas cantorias de que participava. Cantando com o irmão Otacílio, que terminou o improviso com os versos "meu irmão você devia ter mais respeito à Helena", contra­atacou:

"De fato devo ter pena

Meu amável companheiro

De minha querida Helena

Que é meu amor verdadeiro

Mas quando vou com a pena

Ela já vem com o tinteiro".

A poesia improvisada de Lourival Batista é bastante confessional, entre chistes, trocadilhos, artifício de que foi primeiro sem segundo, ele abre o coração em Gemedeira, Mourões voltados e Galopes à beira­mar. Sobre o casamento com a filha do cantador Antônio Marinho, com quem chegou a cantar, tem uma das estrofes mais conhecidas:

"Eu me casei com Helena

Filha de um colega meu

E uma oitava de filhos

Do casal apareceu

Com dois, noves fora um

Quando fora sou eu"

A imprensa, troca as bolas em relação ao assunto, recorrendo sempre a cordelistas quando o assunto é poesia popular. Irrelevando que praticamente nenhum grande poeta popular vive mais dos antigos folhetos de feira, hoje praticado por diletantes, aspirantes a poetas, mas sem nenhum respaldo do povo, que o consumia aos milhares no passado (o próprio Louro foi também cordelista). Assim, o repente continua a viver à margem, existindo para um nicho cada vez menor de apreciadores, ou apologistas, com interregnos de abertura na mídia.

Foi assim, em outubro de 1948, quando Rogaciano Leite, poeta popular, poeta de gabinete, jornalista, intelectual renomado, organizou o primeiro congresso de cantadores no Teatro de Santa Isabel. Não confundir com um encontro de cantadores que o então jovem Ariano Suassuna levou ao citado teatro em 1946, certamente influenciado pelo congresso de violeiros que Rogaciano, também de São José do Egito), organizou, no mesmo ano, no Teatro José de Alencar em Fortaleza (Ariano, inclusive, trabalhou com Rogaciano no congresso de 1948).





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