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Cultura Popular

Morre Manuel Eudócio, último artista da geração de Vitalino. Ele tinha sintomas de chicungunha

Velório foi no Alto do Moura, onde ele morava. Família do artista diz que foi informada da chicungunha pelos médicos. Doença agravou a insuficiência renal e a hipertensão de Eudócio.

Publicado em 14/02/2016, às 11h29

Manuel Eudócio tinha 85 anos e morava no Alto do Moura, Caruaru / Heudes Regis/JCImagem
Manuel Eudócio tinha 85 anos e morava no Alto do Moura, Caruaru
Heudes Regis/JCImagem
Mateus Araújo
mateus@jc.com.br

Atualizada às 16h34

Morreu na noite desse sábado (13), às 20h30, o ceramista Manuel Eudócio, 85 anos, último artista da geração do mestre Vitalino e considerado Patrimônio Vivo de Pernambuco. A assessoria de imprensa da Prefeitura de Caruaru informou que a causa da morte do artista foi falência múltipla dos órgãos. Internado desde terça-feira (9), no Hospital Mestre Vitalino, em Caruaru, Agreste do Estado, Eudócio, segundo alguns familiares, tinha sintomas de chicungunha e, em decorrência à doença, agravou-se sua insuficiência renal e a hipertensão. Ele era diabético. A assessoria da prefeitura confirmou que ele estava com sintomas da febre chicungunha.

O corpo do artista está sendo velado em frente à casa dele, no Alto do Moura, e será enterrado neste domingo (14), às 16h, no mesmo bairro. A unidade de saúde onde ele estava internado não se pronunicou sobre o motivo da morte. 

Eudócio tinha um jeito tímido e uma maneira doce de lidar com as pessoas. A sua arte era feita com prazer e zelo singulares. Ele começou na cerâmica aos oito anos, acompanhando sua avó, que era locueira, e na adolescência, passou a observar de longe a maneira que o renomado Vitalino, seu vizinho, trabalhava. Foi ali que aprendeu de fato seu ofício. Foi junto com o mestre que, em 1962, ele viajou pelo Brasil e teve seu trabalho reconhecido. 

“Aquilo que a gente faz com amor e dá pra sobreviver, a gente não deve abandonar. Até doente eu trabalho aqui”, dizia Manuel Eudócio, que deixa nove filhos.

REISADO

Destacar-se entre as dezenas de artistas do barro que vivem no Alto do Moura não é fácil. São muitas obras, muitos nomes. Mas Manuel Eudócio conseguiu imprimir na sua criação uma identidade, com referências afetivas da infância naquela pequena comunidade caruaruense. 

O encanto que tinha pelo reisado – folguedo popular do Nordeste brasileiro – ganhou vida nas peças criadas por Eudócio. A festa de cores e máscaras que animam as noites do período natalino, com dezenas de personagens, se transformaram em primorosos bonecos de barro, como maneira de eternizar o passado. Obras que chegaram às mãos de nomes como o ex-presidente Lula e até o papa João Paulo.



“É tão difícil ver um reisado. Quando eu era menino, o reisado começava de noite e ia até o outro dia. A gente só parava para tomar café.” No seu ateliê, a festa foi recriada em mais de 200 peças. Estavam junto a reproduções de outras manifestações populares nordestinas, como o maracatu, o Carnaval e as festas juninas. Essas máscaras também figuravam em recriações de cenas do cotidiano do nosso povo. 

SAÚDE FRÁGIL

Conheci Manuel Eudócio pessoalmente durante a produção do especial Pernambuco Vivo, publicado pelo JC em 2013. Acolhedor, o artista recebeu a mim e ao fotógrafo Heudes Regis com enorme disponibilidade. Mostrou as lembranças que guardava nas prateleiras do seu ateliê, descreveu passo a passo as etapas de criação de uma obra, relembrou seu passado e sua paixão pelo reisado, mas, principalmente, não deixou esconder as dores de uma saúde fragilizada. 

Poucos meses antes daquela entrevista, Eudócio, que já sofria com insuficiência renal e hipertensão, esteve acamado. “Tive cobreiro. Era dor de morrer”, dizia, em voz mansa e pausada. “Eu sofri tanto no mundo. Emagreci seis quilos. Estou tomando remédio ainda. Mas sinto dor, cansaço, fraqueza.” Mas para quem amava o que fazia, era difícil ficar parado. Manuel Eudócio ficava ainda mais doente se não estivesse trabalhando. Foi ele mesmo que reafirmou isso inúmeras vezes durante aquele dia. As dores eram, de certo modo, impulso.

Quando sai da casa de Eudócio, escrevi: “Tudo dói. Mas o boi está quase de pé. As costas doem. Mas o casamento já está pronto. As pernas e os braços estão cansados. Mas as mãos continuam remexendo o barro. Tem um Nordeste enfileirado na prateleira de ferro, num ateliê pequeno, imprensado entre as casas de fachadas chochas, numa rua estreita e ainda mais apertada pelo aglomerado de gente que se aperta dançando forró.” 

“Não posso parar”, repetia o artista, que no ano passado amputou um dos dedos devido ao diabetes. Mas infelizmente a vida o fez parar. E com Eudócio vai a doçura e a beleza que habitam os olhos de quem ama a arte e faz dela razão para viver.


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