Jornal do Commercio
São João

Baião, que já foi dança da moda do Brasil, completa 70 anos

Lançada em 1946, Baião tomou conta do país e do mundo

Publicado em 24/06/2016, às 03h25

A familia do baião dança,Januário e Santana tocam. / foto: reprodução revista O Cruzeiro
A familia do baião dança,Januário e Santana tocam.
foto: reprodução revista O Cruzeiro
JOSÉ TELES

Em maio de 1946, o grupo vocal Quatro Azes e 1 Curinga lançou um 78 rotações, trazendo o samba De Quem É o Azar (Gil Lima/Nelson Teixeira), na face principal, e no lado B, Baião (Luiz Gonzaga/Humberto Teixeira). Nem o grupo, nem a gravadora tinham ideia da importância daquele disco, que só seria lançado para valer em outubro. O próprio Luiz Gonzaga somente gravaria baião dali a três anos.

Setenta anos depois, o baião é parte intrínseca do idioma da música popular brasileira e internacional, como o samba ou a bossa nova. Dominguinhos, autor de dezenas de baiões antológicos, considerava o baião a mais importante das estilizações realizadas por Luiz Gonzaga de ritmos nordestinos. Para ele, baião definia melhor a música nordestina do que o termo forró.

 Há quem questione que a bossa nova tenha sido criada em prédios da Zona Sul carioca. O baião, não se tem dúvidas, nasceu num prédio da Rua Calógeras, entre o final da Zona Sul e início do Centro do Rio, no escritório do advogado Humberto Teixeira. Uma rua de trânsito movimentado, onde funciona até hoje um dos históricos pontos da boemia da então capital do país, o Vilarino.

 Assim como alguns ritmos dançantes que importamos dos Estados Unidos, como o shimmy (no começo do século), ou mais tarde o mashed potatoes, ou o twist, o baião foi pensado como uma música e uma dança. Está explícito na letra, de Humberto Teixeira ("Eu vou contar pra vocês/como se dança o baião/e quem quiser aprender/é só prestar atenção"). Tal como outras danças da moda, o baião virou uma febre, porém durou mais do que uma temporada.

Num 78 rotações de 1950, que mereceria ter dois lados A (como foi feito, vinte anos depois, com o compacto dos Beatles que trazia Paperback Writer e Rain), Luiz Gonzaga gravou A Dança da Moda (com Zé Dantas) e Respeita Januário (com Humberto Teixeira). A Dança da Moda reflete em sua letra o domínio do baião na capital brasileira do entretenimento: "No Rio tá tudo mudado/Nas noites de São João/Em vez de polca e rancheira/O povo só pede, só dança o baião".

 O impacto do baião alcançou uma dimensão difícil de se entender sete décadas depois. "Baião" virou a palavra da moda, com emprego generalizado.  Utilizada nas mais diversas situações. O cronista político Franklin de Oliveira, por exemplo, a utiliza num artigo escrito para a revista O Cruzeiro, em outubro de 1950: "Agora que vão se definindo em cortes nítidos os resultados das eleições de 3 de outubro, surge no espaço, insuflado pelos corifeus do partido vencedor, o baião da conciliação nacional".

 Manuais de dança acrescentavam o baião aos ritmos que se deviam aprender, com o bolero, a rumba, e o foxtrot. Na mesma O Cruzeiro, numa página inteira dedicada a uma festa na mansão do ricaço e político paraibano Drault  Ernnany, vêem-­se casais elegantes dançando, e sob as fotos a legenda: "Swing? Não, baião, o ritmo que tomou conta do Brasil é aceito com agrado em todos os ambientes inclusive nos mais requintados. O samba continua em decadência. Sobe a cotação do bolero"

 NOBREZA

 O reinado do baião teve rei, claro, Luiz Gonzaga, e demais títulos nobiliárquicos, curiosamente, quando o Brasil voltava ao regime presidencialista com o final da ditadura Vargas. Carmélia Alves, era a Rainha do Baião, Luiz Vieira seria o Príncipe, e Claudete Soares a Princesinha. Doutor, título respeitadíssimo no país dos bacharéis, também foi incluído na nobreza do baião, com os doutores Humberto Teixeira e Zé Dantas(médico obstetra).



 Nos anos 50, foram poucos os astros do rádio que não embarcaram na moda do baião, de Cauby Peixoto a Emilinha Borba, Nelson Gonçalves, Ivon Cury, todos os grupos vocais, na cola do 4 Azes e 1 Curinga, Marlene, as orquestras, que até então se dedicavam a mambos e rumbas. Era uma época em que se saía pra jantar e dançar, baião, claro. "Em São Paulo, nas boates, tocava-­se baião na proporção de dez pra um" afirma um jornal paulista.

 Em 1950, um terço da arrecadação da União Brasileira de Compositores (UBC) era destinado a autores de baiões. A glória da música adaptada do intermezzo da viola dos repentistas nordestinos chegou a Hollywood. Baião, a canção inaugural, foi incluída no filme Nancy Goes to Rio (Romance Carioca), com Carmem Miranda, recebendo o esdrúxulo título de Caroom Pa Pa (versão de Ray Gilbert), que depois funde-­se com um frevo.

 Talvez isto tenha incentivado Humberto Teixeira a tentar um baião carnavalesco, Bate o Bombo, gravado por Emilinha Borba, em 1951. Emilinha fez sucesso naquele Carnaval, mas com o lado B do 78 de Bate o Bombo, a hoje clássica marchinha Tomara que Chova (Paquito/Romeu Gentil).

 NO ROCK

 Se não se deu bem no Carnaval, o baião fez carreira no exterior e acabou no Brill Building, célebre prédio em Manhattan, ocupado por editoras musicais. Foi um celeiro de compositores, entre outros, Burt Bacharach e Carole King, Leiber & Stoler, Lou Reed e Paul Simon. O Baião aterrissou no Brill Building vindo da Itália, com o sucesso internacional do baião Ana (El Negro Zumbon), de Armando Trovajoli, para o filme Ana, de Alberto Lattuada.

 No filme a música é cantada por Silvana Mangano, que dubla Flo Sandon, cantora italiana popular nos anos 50. No livro Always Magic in the Air, do jornalista Ken Emerson, dedica-se um trecho generoso ao baion, ou bione, cuja influência está em música como Stand by Me, de Leiber & Stoler (autor de vários sucessos de Elvis Presley), lançada por Ben E.King, porém mais conhecida pela gravação feita por John Lennon em 1975 : "Leiber e Stoler botaram um arranjo no estúdio, adicionaram uma linha de baixo modificada de baion, botaram um bumbo de bateria de lado, e tocaram nas laterais para produzir um som rascante" (trecho do livro citado).

 A inovação fez tanto sucesso que a maioria dos autores do Brill Building embarcou no baion. Carole King com o marido Gerry Goffin fizeram Bione Rhythms, lançada pelo cantor Jimmy Beaumont (do grupo de R&B The Skyliners). Burt Bacharach conheceu o baião em 1958, quando veio ao Brasil como pianista de Marlene Dietrich. Um dos baions mais conhecidos de Bacharach é o hit Do You Know the Way to San Jose?.

 O baião tomou o mundo com Delicado, de Waldir Azevedo, e Kalu, de Humberto Teixeira (já "separado" de Luiz Gonzaga. Esteve em lados antagônicos, no Tropicalismo e no Armorial, e continua no Chico Buarque de Paratodos, no Maciel Melo de Nos Tempos de Menino. Não é a dança da moda, mas continuará existindo daqui há mais 70 anos, quando o povo tiver esquecidos todos os modismos musicais que hoje ocupam palcos juninos no Nordeste

 

 


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