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Devotos começam a celebrar 20 anos do disco Agora Tá Valendo

Alto Zé do Pinho mudou depois do álbum de estreia da Devotos

Publicado em 28/01/2017, às 10h27

Devotos, do Alto Zé do Pinho / Foto: Sivulgação
Devotos, do Alto Zé do Pinho
Foto: Sivulgação
JOSÉ TELES

"O que pode um garoto pobre fazer/ a não ser tocar numa banda de rock?", os versos de Street Fighting Man (Keith Richards/Mick Jagger") parecem ter sido feitos para Cannibal, Neilton e Celo, da Devotos, banda do Alto Zé do Pinho, Zona Norte do Recife, cujo disco de estreia, Agora Tá Valendo, foi lançado, pela BMG, há 20 anos.

É um dos álbuns mais importantes da música pernambucana nos anos 90, não apenas pela música, como igualmente pelos caminhos que desbravou para o rock da periferia. O grupo foi formado em 1988, por adolescentes que tinham em comum o amor pelo hardcore. Os pais não eram contra, mas não acreditavam que eles fossem se sustentar com rock and roll.

"Por incrível que pareça, a pior fase da banda aconteceu muitos anos antes do primeiro disco. Sabe como é, adolescente de comunidade, com 16, 17 anos, na idade de se alistar, todo mundo torcendo para não ficar no quartel. Mas os pais queriam ver o dinheiro. A gente saía para tocar, voltava e não trazia nada. Naquela época o estudo na comunidade ficava em segundo lugar, primeiro vinha o trabalho. Eu até tive ajuda da minha mãe, que foi falar com meu tio que eu precisava de um contrabaixo, mas não rolou aquele apoio moral, que era primordial, da família dizer: vá lá, faça sua música", diz o vocalista Cannibal.

O prazer de tocar era mais forte, numa cena extremamente amadora. A Devotos do Ódio se limitava à trinca de músicos, sem roadie nem empresário, a contratação não poderia ser mais original: "Eu só sabia que a Devotos do Ódio ia tocar porque ia nos sebos, via os cartazes de show e o nome da gente estava na programação. O pessoal botava sem entrar em contato com a banda. Eu arrancava o cartaz e levava comigo pra saber onde iria tocar. No cartaz tinha um mapinha, o roteiro com o nome do ônibus que pegava. Mas às vezes a gente não tinha grana pro busão. Viajava na traseira do ônibus com os instrumentos. Passava por baixo da catraca ou então o pessoal pegava os instrumentos, tinha sempre uma galera do Alto que ia com a banda pra ver o show", conta Cannibal.

POLÍCIA

E tinha a polícia. Os tempos em que coquistas ou sambistas negros e pobres passavam por constrangimentos em batidas policiais não acabou nos anos 40. Varou décadas e teimava em existir nos anos 80. Cannibal, Neilton e Celo foram vítimas e testemunhas de muitos episódios que parecem ter saído de histórias de músicos dos tempos dos sambistas Sinhô ou João da Baiana na década de 20: "Sempre rolava uma blitz da polícia. Os homens mandavam a gente descer, dava baculejo. Na volta, de madrugada, o bacurau não subia no Alto. A gente descia na Avenida Norte. Toda vez tinha o baculejo. Mandavam todos se deitarem no chão.

Não teve porrada, o que rolava era constrangimento. Chamavam de maloqueiro, maconheiro, perguntavam porque a gente não procurava uma ocupação. A banda tocava umas três vezes por mês e sempre sofria baculejo dos mesmos policiais. Eu andava muito de skate, então um dia estou vindo com o skate na mão, no Parque da Jaqueira. Uma viatura me parou. Tinham roubado um skate de um burguesinho ali por perto.

Perguntaram se o skate era meu. Disse que sim. Um policial mandou que desse uma volta pra ele ver e avisou: se correr, eu atiro". Estas histórias aconteceram há quase 30 anos, quando músicos de outros recantos da Região Metropolitana começavam, ainda timidamente, uma movimentação musical que seria conhecida como manguebeat. Os integrantes da Devotos do Ódio até conheciam alguns deles, saídos do movimento punk, do qual Cannibal fazia parte, mas o pessoal da Devotos não se identificava com aquele tipo de música. Cannibal, assim como Chico Science, na adolescência, frequentou os bailes funks: "Eu ia para os que rolavam no Alto Zé do Pinho, no Vasco da Gama, então entrei para o movimento punk. Não pensava em tocar em banda, só queria participar das caminhadas, das panfletagens. Fui até Paulo Afonso só pra ver show. O povo vivia sugerindo que eu formasse um grupo, mas eu resistia".



Cannibal não tocava nenhum instrumento, nem nunca se imaginou compositor, mas acabou convidando Neilton e Celo, colegas de infância, para formar a banda, cujo nome foi dado por Lael, da banda punk SS20, tomado de empréstimo a um livro do escritor maranhense José Louseiro (Devotos do Ódio ­ Uma Profecia Camponesa, de 1987).

A Devotos do Ódio estreou no III Terceiro Encontro Anti­Nuclear, evento que os punks promoviam no dia 6 de agosto, data em que os americanos jogaram a bomba atômica em Hiroshima, "A primeira música que fiz foi Futuro sem Muro, mais ou menos em fevereiro de 1988. Fiz seis músicas. Sem nunca ter pego num instrumento na minha vida consegui fazer as bases da músicas e tocamos".

MANGUEBEAT

O Alto Zé do Pinho fica bem acima do mar, distante, portanto, dos manguezais que circundam o Grande Recife, mas os caranguejos com cérebro chegaram até lá. Uma tarde Cannibal estava casa quando chamaram seu nome. Era Chico Science com uma equipe da MTV, que fazia um especial sobre a música pernambucana: "Fiquei de cara quando ele disse que queria mostrar a Devotos do Ódio no programa. A primeira vez que vi Chico Science tocando foi no Sitio da Trindade. Devia ter umas 15 pessoas. Estavam lá Fred, Renato L, Otto. Tocavam quase sem plateia. A percussão deles me lembrou o maracatu e o afoxé do Alto Zé do Pinho, tem muito isto por lá. Eu não entendia muito bem o som que faziam, mas me identificava com eles. Fui interagindo com aquele pessoal. A turma do metal, do punk, não chegava nem perto, era muito fechado. A primeira vez que tocamos fora do circuito alternativo do punk foi com a Eddie, no Poco Loco, convidados por Fabio Trummer. Entendemos que para fazer parte do manguebeat não precisava botar um tambor, parecer com alguma coisa do maracatu".

A interação com os mangueboys, mesmo continuando a fazer punk e hardcore, levou a Devotos do Ódio a vôos mais altos do que eles jamais imaginaram. Pela primeira vez foram a São Paulo, abriram o show do Chico Science & Nação Zumbi, no Tom Brasil.

TÁ VALENDO

Agora Tá Valendo (produzido pelo mangueboy Lúcio Maia) deve ganhar uma edição comemorativa em vinil (em 1997, saiu apenas em CD). O título do álbum deve­se ao fato de ele ter sido sonho realizado, depois de muita espera. No início dos anos 90, A fita cassete ainda era a alternativa para a grande maioria dos artistas sem gravadoras. A Devotos do Ódio notabilizou­se por fitas bem gravadas, com capas bem cuidadas, feitas pelo guitarrista Neilton, que também é artista plástico. Hoje são preciosidades para colecionadores. A contratação por uma gravadora para eles era uma possibilidade remota. No Abril Pro Rock de 1996 quem estava na plateia era Maurício Valladares, do selo Plug, da BMG. Com o surgimento de um rock alternativo no Brasil, as grandes companhias abriram selos para abrigar artistas e bandas que não faziam música para o mainstream.

A Sony Music, por exemplo, criou o Chaos (pelo qual gravaram Chico Science & Nação Zumbi), a Warner Music agregou o Banguela (que lançou a Mundo Livre S/A): "Foi tudo muito rápido. Ele conversou com Paulo André (que se tornara empresário da banda), a gente assinou contrato. De repente, estava com um disco. Ficamos conhecidos no Brasil inteiro, a gravadora massificou a Devotos de uma forma que eu não sabia que era possível".

A vitória não foi apenas da Devotos do Ódio (o "ódio" foi suprimido no segundo disco, lançado pela pequena Rock It!, de Dado Villa­Lobos), mas do próprio bairro: "Foi uma mudança social muito grande. Costumo dizer que o álbum foi uma alegria para a comunidade porque mostrou o outro lado do Zé do Pinho. A impressa passou a subir aqui não pelos crimes, mas pela música".





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