Jornal do Commercio
FILOSOFIA

Olavo de Carvalho, pensador que desperta opiniões antagônicas

O filósofo, tema do filme O Jardim das Aflições, é alvo de visões sempre apaixonadas

Publicado em 09/07/2017, às 05h47

Cena do documentário O Jardim das Aflições / Matheus Bazzo/Divulgação
Cena do documentário O Jardim das Aflições
Matheus Bazzo/Divulgação
JC Online

Não é nada simples ter acesso a uma visão sobre o filósofo brasileiro Olavo de Carvalho – pivô de uma das recentes polêmicas do cinema pernambucano, quando o documentário sobre ele, O Jardim das Aflições, gerou a retirada coletiva de filmes da programação do Cine-PE – que não seja mediada pela reverência, paixão ou ódio. Para alguns, Olavo é o grande gênio injustiçado da cultura brasileira. É mais do que um pensador importante: chamado normalmente de “mestre” ou “professor”, é tido como a única voz autossuficiente da intelectualidade brasileira, que vai, com profundidade, contra a corrente da obviedade dos acadêmicos, do status quo, enfim, dos modelos estabelecidos.

Outros defendem que Olavo não tem nem a sombra de toda essa relevância. Assim, o filósofo seria, ao mesmo tempo, uma espécie de inimigo total (o próprio Olavo trata toda a esquerda e grande parte da direita como inimigos) e um conservador caricato e conspiracionista. Seus alunos seriam seguidores quase acríticos, fixados mais na autoridade de Olavo do que no seu pensamento.

Em ambas as visões, o Olavo de Carvalho que sai delas é mais uma idealização, para o bem ou para o mal, do que uma figura real. Talvez por isso ele seja tão fascinante, como mestre ou inimigo. A trajetória do filósofo e escritor, que muitas vezes seguiu caminhos que rejeitam os campos já estabelecidos e os modelos formais, só contribuiu para isso.

Nascido em Campinas em 1947, Olavo, apesar de ter uma vasta leitura sobre filosofia, optou por nunca fazer uma graduação na área – já disse que a formação é “o túmulo da filosofia e recomendo-a a quem tenha vocação de coveiro”. Seu mergulho no pensamento foi orgulhosamente autodidata, e o levou para autores como São Tomás de Aquino, Edmund Husserl, René Guénon, Eric Voegelin, Xavier Zubiri e, especialmente, Aristóteles. No Brasil, já destacou diversas vezes a obra de e Mário Ferreira dos Santos, que foi tema de seus estudos.

Muito antes de virar uma espécie de guru do conservadorismo nacional, Olavo militou em movimentos de esquerda, atuando no PCB entre 1966 e 1968. Sua primeira atividade profissional foi cedo, antes dos 18 anos, na Folha da Manhã. Terminou como colaborador de publicações como Folha de S. Paulo, Bravo!, O Globo e Época – em 2002, o filósofo fundou o site Mídia Sem Máscara para combater o “viés esquerdista da grande mídia brasileira”.



PAULO FRANCIS

O editor Wagner Carelli, que convidou Olavo para escrever para a Bravo!, conta que conheceu sua obra através de Paulo Francis. “Ele conheceu Olavo através de O Imbecil Coletivo, uma crítica ao pensar coletivo e ficou deslumbrado. Acho que morreu tranquilo ao saber que tinha um cara que iria levar adiante o trabalho dele de pensar de uma forma independente na imprensa”, comenta Carelli.

Uma das bases do pensamento de Olavo é a ideia de que a maioria das correntes filosóficas, como o pensamento de Hegel, Kant, Marx, Nietzsche, o positivismo, o pragmatismo e o existencialismo, entre muitas outras, transfere para o coletivo a responsabilidade de conhecer a verdade. Outro conceito importante para Olavo é da “paralaxe cognitiva”, que aborda “o afastamento entre o eixo da construção teórica e o eixo da experiência real anunciado pelo indivíduo”. Além disso, para ele, ascensão da esquerda no Brasil e no mundo se daria por conta do que chama de uma “estratégia gramsciana”, ou seja, “fazer a revolução cultural primeiro para fazer a revolução política depois”.

Responsável por conduzir a conversa com Olavo no filme O Jardim das Aflições, Carelli não poupa elogios ao filósofo. “Olavo sabe como pensar. É alguém que toma posse de todos os seus recursos intelectuais para avaliar a sociedade e os acontecimentos e para, corajosamente, ir contra a corrente”, opina. Ele destaca a erudição de Olavo, que é capaz de citar autores “de que ninguém fala porque há uma conspiração em torno dos pensadores que não compartilham das ideias de esquerda”.

O economista e filósofo liberal Joel Pinheiro da Fonseca já teceu várias críticas a Olavo, inclusive em um artigo para a Revista Café Colombo. Argumenta, por exemplo, que Olavo acusa a esquerda de ser sectária, mas é tomado pela “histeria anticomunista” de antes da Guerra Fria – para Joel, Olavo quer dizer que “não há que se discutir com pessoas de esquerda; há que se combatê-las, posto que são ignorantes e perversas. Carregam uma espécie de doença espiritual”. O economista ainda defende que há mais reverência do que aprendizado no entorno do professor. “Questionar e discordar são práticas coibidas ou, na melhor das hipóteses, desestimuladas. Chegou-se ao ridículo de inventar a ‘virtude’ conhecida como ‘humildade metódica’, segundo a qual o aluno, mesmo quando lhe parecer que Olavo está errado em um ponto particular, tem a obrigação de guardar a impressão para si e de convencer a si mesmo de que o professor, ainda que pareça estar errado, ‘deve estar certo’, posto que tem acesso a um plano mais elevado da realidade”, explica no artigo.

Para Carelli, a acusação de que o curso de Olavo funciona quase como uma “seita” é surreal. “Ele é um professor, fundamentalmente. Não conheci nunca alguém com a sua capacidade de passar adiante ideias para ajudar na condução da verdade. E não deixa de ser um guru, um mestre, alguém que leva até a luz. E a um mestre você presta reverência, tem respeito”, comenta.


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