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VÍDEO-INSTALAÇÃO

Exposição sobre swingueira é exibida na Bienal de Veneza

A obra de Bárbara Wagner e Benjamin de Burca foi realizada em Jaboatão dos Guararapes

Publicado em 05/08/2019, às 12h36

A swingueira seria uma música, uma batida vinda de um sincretismo baiano, pernambucano / Imagem: Thiago/JC
A swingueira seria uma música, uma batida vinda de um sincretismo baiano, pernambucano
Imagem: Thiago/JC
Joaquim Arruda Falcão*
Especial para o JC

Perguntei quantos visitantes vinham por dia. “Até as 15 horas, tinha contado 1.113 visitantes”, respondeu a responsável brasileira pela contagem, com sotaque italiano. Fiz então um cálculo superficial.

A exposição Swinguerra vai durar 167 dias, seis meses. Seis dias por semana. Segunda fecha. Provavelmente assistirão a vídeo-instalação no Pavilhão do Brasil na Bienal em Veneza cerca de 154 mil pessoas. 

Será, sem dúvidas, um dos dez pavilhões mais visitados este ano. Competindo com 90 de outros países. Com Estados Unidos, França, Bélgica, países escandinavos. De uns anos para cá, com países da Ásia, África, Europa Oriental. E crescente arte tecnológica.

Esta vídeo-instalação brasileira foi comissionada pela Bienal de São Paulo. Responsável pela escolha e por nosso pavilhão. A autoria é de Bárbara Wagner e Benjamin de Burca. E foi realizada em Jaboatão, Pernambuco.

Duas imensas telas, música e dança arrebatadoras, grupo de cerca de vinte habitantes da periferia. Dançarinxs, pessoas não binárias. Transexuais, bissexuais, heterossexuais. À frente, Eduarda Lemos. Público sentado no chão para assistir.

São, nas telas, jovens, a imensa maioria morenos, mestiços, como os que encontramos no cotidiano do Recife. Força, energia, vibração de quem quer agarrar o futuro com as mãos. Eles dançam, tocam, batalham, mas é o visitante quem sai exausto.

A swingueira seria uma música, uma batida vinda de um sincretismo baiano, pernambucano. Acrescida por intensa coreografia recifense e coletiva, se completa como espetáculo e expressão cultural. Na instalação, performance para a câmera.

Além de ritmo frenético, como a vida de hoje, há intenso e sincopado movimento das virilhas. Diz o texto, com pudor. Vai indignar muitos.

Mas, é mais do que isto. É o intenso ato sexual, em ritmo de dança. Como, aliás, é. Depende de cada um. Às vezes valsa, samba de uma nota só, às vezes swingueira. Um recaminho do icônico movimento de pernas de Elvis Presley. Talvez o primeiro.



Acessando a internet por palavras como “swingueira” e “quebradeira” qualquer um poderá visualizar o que não pode ser bem descrito. A vídeo-instalação fez um jogo de palavras: a música e a coreografia da swingueira transformam-se em “swinguerra”. 

Significando o traço mais atual de nossas periferias, favelas, comunidades. A guerra permanente em busca de identidades, participação, vida mais digna. Menos indigna.

Origem da swingueira

Dizem que a swingueira nasce na Bahia. Prima do axé. Passa por São Paulo. Prima do funk. Encontra outro primo nas escolas de samba do Rio de Janeiro. Completa a família como funk-brega pernambucano. Sobretudo com o passinho. Passinho dos Malokas.

A analogia com o frevo é inevitável. Dançar o frevo, dizia-se, diz-se ainda, é fazer o passo. Passinho, agora?

A hegemonia do frevo está mudando cumulativamente. Novos pernambucanos assumindo referências e origens em nossa cultura significa novas criatividades. 

Bárbara Wagner fala em “atualização das tradições”. O que já experimentamos, com sucesso, com Chico Science e Nação Zumbi.

Como este passinho se tornou possível? Pela radicalização das liberdades.

A comunicação é virtual. A internet permite conhecer o que se passa em outras periferias no Brasil. Sem muros. Uma música, um ritmo, uma batida, uma coreografia, uma linguagem acumula, transforma-se e cria a outra, incessantemente. Da convenção para a inovação.

Grupos, artistas apropriam-se da inovação sem se transformarem em seus proprietários. Cultura não regida pelos empecilhos dos direitos autorais. Ninguém copia ninguém. Ninguém é de ninguém. Cada um é seu próprio original. É mundo novo. Pós-leis e pós-tribunais. A criação comunitária como bem comum.

Mais ainda. Não precisa de Lei Rouanet. De auxílio do estado. Do dirigismo e aprisionamento pelo estado. É cultura livre. Feita na hora. 

No máximo, precisa-se de vigilância e segurança nas praças e nas quadras coletivas. Onde os grupos marcam suas festas e exibições, e se inventam. 

Será esta a ressurgência do frevo, nosso patrimônio? 

Que tenhamos praças, quadras e liberdades para a swingueira. Ou melhor. Para continuar a fazer o passo. Passinho.

*doutor em educação pela Universidade de Genebra, mestre em direito pela Universidade de Harvard e membro da ABL



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