Jornal do Commercio
Notícia
Patrimônio

Catálogo conta trajetória de Odete Maciel, mestra da Renda Renascença

Remanescente de grupo pioneiro na difusão da técnica em Pernambuco, ela permanece ativa

Publicado em 13/02/2020, às 13h28

Aos 92 anos, dona Odete Maciel continua a trabalhar com Renda Renascença / Andréa Franco e Felipe Cândido/Divulgação
Aos 92 anos, dona Odete Maciel continua a trabalhar com Renda Renascença
Andréa Franco e Felipe Cândido/Divulgação
Márcio Bastos

“Ave maria, a renda é minha paixão, minha maior distração. Quando estou trabalhando esqueço todos os meus aperreios”, contou mestra Odete Maciel, aos risos. Aos 92 anos, celebrados no último dia 1º, ela, que é referência na Renda Renascença em Pernambuco, continua trabalhando diariamente e ávida para transmitir seu conhecimento. Sua trajetória fascinante é contada em um cuidadoso catálogo bilíngue lançado dia 13 de fevereiro, às 16h30, no auditório de eventos da Faculdade Senac.

A renda entrou na vida de Odete quando ela tinha pouco mais de 12 anos. Ela é a única remanescente das oito alunas de Elza Mendes Medeiros, conhecida como mestra Lála, que montou um grupo de rendeiras em Vila Poção por volta de 1936 e 1938. Até então, a técnica trazida a Pernambuco pelas irmãs da congregação francesa Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo era tratada com sigilo quase absoluto.

Leia também: Especial 'Tramas da Renda', conta a história das rendeiras pernambucanas

Leia também: Encontro no Agreste reúne rendeiras de Pernambuco e da Paraíba

Como a obra elucida, o nome da renda veio do período em que foi criada, na Itália, entre os séculos 15 e 16. É considerado um dos tipos mais engenhosos da renda de agulha, de difícil execução. Em outros locais, como na Bahia, tem o nome de renda inglesa, em decorrência do comércio daquele Estado com a Grã-Bretanha. Para Lála – e posteriormente mestra Odete – ainda que árduo, o ofício não deveria ser monopolizado, e sim difundido.

“Quando casei, aos 27 anos, e me mudei para Pesqueira, o prefeito me ofereceu a oportunidade de dar aulas em uma escola. No começo, ninguém trabalhava com a renda na cidade e poucas se interessaram. Então, cheguei e disse: ‘Quem quiser aprender, eu ensino’. A procura foi tanta que em pouco tempo já tinha 40 alunas”, lembra.

Essa disposição de dona Odete e suas contemporâneas para ensinar, assim como o esforço em promover a Renda Renascença, ajudou a transformar a economia da região durante décadas. Ainda hoje, ela é uma referência, ocupa um espaço na Alameda dos Mestres da Fenearte, maior feira de artesanato da América Latina, e não para de trabalhar.



“Hoje a vista está cansada, o que me atrapalha bastante, então tenho feito menos trabalho manual. Foco mais em supervisionar. Já viajei muito para vender minhas rendas e ainda hoje faço isso. Pelo menos uma vez por mês estou em Maceió com os trabalhos” enfatiza. “Com a idade a gente tem que desacelerar um pouquinho, mas estou sempre na ativa, trabalhando geralmente até as 22h, porque não sei ficar parada.”

MEMÓRIA PRESERVADA

Mestra Odete diz se sentir realizada com a publicação do catálogo por valorizar sua trajetória e, especialmente, por salvaguardar o legado da Renda Renascença para as gerações futuras. A obra, que tem incentivo do Funcultura, conta com texto do jornalista Phelipe Rodrigues; fotografias de Andréa Franco e Felipe Cândido, e produção executiva e de moda de Tereza Franco e Ricardo Moreira, respectivamente.

A publicação toca ainda em questões como a estratificação do trabalho, além de reverenciar a primeira designer da Renda Renascença, dona Edite Patriota.

A pesquisa para o catálogo, inclusive, deve dar origem ainda a um documentário assinado por Andréa e Felipe, reforçando a importância de registrar os mestres e as práticas do fazer manual no Estado.

Serviços

Lançamento do catálogo Odete: Mestra da Renascença em Pernambuco – 13 de fevereiro, às 16h30, no auditório de eventos da Faculdade Senac (Rua do Pombal, 57, Santo Amaro). Entrada gratuita




Os comentários abaixo são de responsabilidade dos respectivos perfis do facebook.

OFERTAS

Especiais JC

Irmã Dulce e as lições que se multiplicam Irmã Dulce e as lições que se multiplicam
A Santa Dulce dos Pobres deixou um legado enorme por todo o país, e não poderia ser diferente em Pernambuco. Veja exemplos de quem segue o "anjo bom da Bahia"
Jackson era grande demais para um pandeiro Jackson era grande demais para um pandeiro
Em pouco tempo, Jackson do Pandeiro deixou claro que não se tratava apenas de uma voz a mais no cenário artístico pernambucano. Confira especial sobre o artista
Especial Novo Clima Especial Novo Clima
O inverno não é mais o mesmo. E nem o verão. Os efeitos da crise climática alteraram a rotina de milhares de cidadãos das grandes cidades. O JC traz reportagens especiais desvendando o "novo clima"

    SIGA-NOS

    LICENCIAMENTO

  • Para solicitação de licenciamento, contactar editores@ne10.com.br

Jornal do Commercio 2020 © Todos os direitos reservados

EXPEDIENTE |

PRIVACIDADE

Sistema Jornal do Commercio Grupo JCPM