Jornal do Commercio
TRADIÇÃO

Queijo do reino: história e peculiaridades do rei do Natal

Trazido da Europa no período colonial, produto caiu no gosto dos pernambucanos, maiores consumidores do País

Publicado em 25/12/2015, às 15h02

O Nordeste conseguiu garantir que o produto, visto como um dos itens mais sofisticados e caros do período de festas, mantivesse a margem de vendas no ano em que a economia castigou quase todos / Foto: Ricardo B. Labastier/JC Imagem
O Nordeste conseguiu garantir que o produto, visto como um dos itens mais sofisticados e caros do período de festas, mantivesse a margem de vendas no ano em que a economia castigou quase todos
Foto: Ricardo B. Labastier/JC Imagem
Luiza Freitas

Há mais de 200 ou até 300 anos, uma iguaria cruzou despretensiosamente o Oceano Atlântico para compor a mesa de nobres que viviam no Brasil. O queijo do reino é tradição natalina dos pernambucanos até hoje, mas ficou quase desconhecido em algumas partes do País. Mesmo sozinho, o Nordeste conseguiu garantir que o produto, visto como um dos itens mais sofisticados – e caros – do período de festas, mantivesse a margem de vendas no ano em que a economia castigou quase todos.

Produtora de queijo do reino há cem anos, a marca Regina, por exemplo, afirma que a região é responsável por 90% do consumo do produto. Desse número, 45% vai para a mesa de pernambucanos. “Quase metade do nosso faturamento dessa época é com as vendas em Pernambuco. Há uma cultura muito forte, que fica evidente no Natal, diferente das outras regiões. E este ano, por incrível que pareça, foi melhor do que esperávamos”, garante o gerente comercial de vendas no Nordeste, Antônio Alves.

O melhor, em um ano difícil, é ao menos repetir o resultado do mesmo período de 2014. A empresa conseguiu fazer isso oferecendo o produto em uma nova embalagem, uma “meia lata”. “Fizemos um teste no fim do ano passado. A ideia era oferecer uma quantidade menor e, consequentemente, um preço também menor, mas mantendo o charme da lata”, explica Alves. No lugar do 1,2 quilo da esfera tradicional, muitos consumidores preferiram levar a metade em uma “cuia” de 600 gramas.

Queijo do reino no Natal

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Posted by Jornal do Commercio on Sexta, 25 de dezembro de 2015

A indústria é de Minas Gerais, onde ficam quase todas as fábricas de queijo do reino – apesar de o Estado ter um consumo irrisório do produto. Também vem de lá a marca Borboleta, lembrada com saudosismo pelos mais antigos. Sua produção pertence hoje aos Queijos Millano, que embala o mesmo produto com embalagens de marcas distintas. “A empresa comprou a licença da marca Borboleta e pagamos os royalties, mas os queijos vêm da mesma fábrica”, explica a representante comercial da Millano em Pernambuco, Solange Pereira. 

As duas marcas produziram para o último trimestre deste ano 600 toneladas de queijo do reino, sendo 200 para Pernambuco. A Bahia é outro grande consumidor, mas lá a tradição do consumo é mais forte durante as festas juninas. “Temos combatido essa desigualdade de vendas ao longo do ano com ações para incentivar o consumo todos os meses”, revela Solange. Segundo ela, a estratégia nos demais meses é vender o produto fatiado, formato que é responsável por 75% do consumo entre janeiro e setembro.

Mesmo sem divulgar números, a mais antiga fabricante desse tipo de queijo, a Jong (fundada em 1908), confirma que o movimento de vendas do fim de 2015 foi de crescimento em relação ao mesmo período de 2014. A marca que hoje pertence à Vigor também tem Pernambuco e Bahia como principais mercados e afirma que a venda do produto “cresce em duplo dígito” no fim do ano em comparação com os demais meses.

Fabricação complexa justifica preço

É comum que o valor simbólico influencie o preço da etiqueta de produtos sazonais. Independentemente desse fator, o queijo do reino é, sim, um produto caro. Para a fabricação de um quilo dele são necessários, em média, 14 litros de leite. Além disso, a produção, ainda muito artesanal, e a distância das fábricas – a maioria localizada no Sudeste – ajudam a encarecer a iguaria.



O processo de fabricação leva, no mínimo, dois meses. É o tempo de maturação (período em que há importantes reações físicas, químicas e biológicas) que vai determinar a coloração, consistência e sabor do queijo. No caso do queijo do reino, quanto mais tempo nesse processo – em que o produto ainda precisa ser virado diariamente – mais escuro, de sabor forte e consistência seca ele vai ser.

“É um queijo caro. É preciso virar todos os dias, ter mão de obra para isso, gastar energia para manter a temperatura ideal durante esse tempo. Depois, eles ainda são pintados um por um. É um processo artesanal”, detalha a proprietária da Campo da Serra, laticínio fundado em Pombos, Agreste de Pernambuco. A empresa produz queijos do reino de três tipos: bronze (com três a seis meses de maturação), prata (seis a nove meses), ouro (nove meses a um ano) e diamante (de um a dois anos).

Para uma melhor preservação, a casca tem 10% de sal a mais que o miolo amarelo, em média. Isso porque o produto fica em salmoura enquanto está na cura durante 2 a 3 semanas. E para protegê-lo e evitar a formação de bolor por fungos, ele é banhado em uma fina camada de parafina, semelhante à que se usava para dar firmeza aos chocolates. Mas recentemente, a parafina passou a ser substituída por uma película de resina plástica e o queijo também vem agora empacotado a vácuo, para durar mais um pouco. Para dar a cor característica da casca, são usados corantes artificiais ou naturais, feitos a base de urucum ou beterraba.

Queijo do reino deriva do holandês edam

Cabe a Portugal o que há de “reino” no queijo. Foram os portugueses que introduziram aqui o consumo do produto, que na Europa tinha nome e sabor diferente. Produzido na Holanda com o nome de queijo edam – mais claro e suave –, ele acabou sofrendo mudanças durante a viagem através do Atlântico devido ao tempo, umidade e temperatura. O resultado é que o queijo (vindo) do reino acabou sendo produzido em terras brasileiras já com essas adequações.

Apesar de a origem do nome parecer bem clara, a razão para o produto ter sido incorporado à cultura pernambucana não segue a mesma linha. Segundo a pesquisadora gastronômica Maria Lecticia Cavalcanti, o queijo só chegou ao Brasil em 1808, com a vinda da corte portuguesa. “Como é um queijo que remetia ao que era produzido pelos holandeses (queijo edam), é possível que os descendentes que permaneceram aqui após a ocupação holandesa tenham contribuído para essa incorporação. Mas não há uma comprovação”, pondera Maria Lecticia, autora de livros como Gilberto Freyre e as aventuras do paladar.

Durante décadas, o queijo foi apenas importado da Holanda através dos portugueses. Na tentativa de conservar o produto – bastante perecível para uma viagem de navio –, o queijo passou a ser embalado em latas, como é conhecido atualmente. 

Apenas no fim do século 19 foi criada a primeira fábrica de queijo do reino no País, na região da Serra da Mantiqueira, Minas Gerais. O local reunia as condições geográficas mais parecidas com as da Europa. Segundo José Osvaldo Albano do Amarante, em seu livro Queijos do Brasil e do mundo, foi o pecuarista Carlos Pereira Sá Fortes quem importou vacas holandesas, comprou maquinário alemão e holandês e contratou os técnicos Alberto Boeke e Gaspar Jong para montar a produção industrial, que permanece concentrada até hoje em Minas Gerais.


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Comentários

Por Faraday W Tavares,26/12/2017

A anos que eu não comprava queijo do Reino (Cuia) JONG...Nesse Natal eu comprei um....Abri a embalagem metálica...para o Natal, porém nao abrimos a embalagem plástica que envolve o Queijo..... PERGUNTA > : Por quanto tempo podemos deixar o Queijo fora da embalagem metálica, porém com o envólucro plástico...??? Fineza responder.

Por MARCELO MEDEIROS,26/12/2016

Sempre fui um entusiasta do sabor e qualidade dessa marca Jong quando se trata d queijo do reino. Tal minha frustação e decpção ao depois de um longo tempo sem consumi-lo, me dispus a comprar um lata (grande) dessa que já foi um icone em tradição em nossa mesa. Além da tradicional dificuldade para abrir a lata tipo cuia, me deparei para minha surpresa, com uma pequena bola disforme embalada num saco plástico de alta densidade. ao abrir o saco cortei um pequeno pedaço, já estranhando a consistencia da mesma, que parecia mais a de um queijo prato de má qualidade! Sabor nota ZERO (COM LOUVOR) consistencia inadequada, uma fina camada de tinta vermelha para tentar enganar os incautos. Puta que Pariu, como se tem coragem de fazer isso com um produto de tanta tradição e respeito de seus consumidores. Vou postar nas redes sociais minha indignação e alertar outras pessoas para não cair na esparrela de comprar essa marca.



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