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CRÉDITO

Entenda por que os juros continuam altos, mesmo com queda da Selic

Inadimplência, insegurança jurídica e concentração bancária são fatores que influenciam no custo do crédito

Publicado em 15/04/2018, às 05h25

Sinara viu conta de R$ 400 se transformar em dívida de R$ 2 mil em dois anos sem pagamento / Foto: Alexandre Gondim/JC Imagem
Sinara viu conta de R$ 400 se transformar em dívida de R$ 2 mil em dois anos sem pagamento
Foto: Alexandre Gondim/JC Imagem
BIANCA BION E LUIZA FREITAS
economia@jc.com.br

Ao ficar desempregada, Sinara Moura viu uma conta de R$ 400 no cartão de crédito se transformar em uma dívida de mais de R$ 2 mil em um período de dois anos, por falta de pagamento. Assim como Sinara, muitas pessoas têm dificuldade para fugir do efeito bola de neve devido à incidência de altas taxas de juros sobre operações bancárias. Os juros do cartão de crédito, por exemplo, ficaram em torno de 321,63% ao ano em 2017. Mesmo com o cenário de queda da taxa Selic, os valores continuam altos. Uma taxa menos onerosa precisa de mudanças conjunturais para ocorrer, afirmam especialistas.

Entre os motivos para a alta taxa de juros, está o spread bancário, que é a diferença entre a taxa de captação de recursos e os juros cobrados na concessão de empréstimos. Por exemplo, o spread é de 40%, se o banco paga 60% aos clientes que deixam dinheiro rendendo em produtos como poupança e CDB e cobra 100% a quem toma crédito. O Brasil possui uma das mais altas taxas de spread no mundo, em torno de 34,1% na média de operações de crédito livre em fevereiro.

Um dos componentes do spread é o custo dos bancos com inadimplência e a insegurança jurídica das instituições financeiras. Relatório da consultoria Accenture para a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) mostra que o sistema financeiro só consegue recuperar 16% do valor da garantia em uma média de quatro anos, enquanto outros 11 países conseguem 69% em dois anos. “A inadimplência gera esses dois fenômenos: as pessoas não pagam e a lei das falências não garante ao credor prioridade no ressarcimento”, explica o professor de economia da Universidade de Brasília (UNB), José Carlos de Oliveira. Para ele, a redução do spread não pode ocorrer de forma “atabalhoada” e nem forçada pelo governo, como ocorreu com Dilma.

Outro componente de peso é o lucro, que correspondia, em média, a 23,3% do spread entre 2011 e 2016, atrás apenas da inadimplência (55,7%). Além disso, há impostos, depósito compulsório e custos administrativos.

De acordo com o professor do Departamento de Economia da PUC-SP, Claudemir Galvani, é preciso aumentar a concorrência para tornar o crédito mais barato, já que há concentração bancária. Atualmente, os cinco maiores bancos do País detêm cerca de 80% do mercado.



A Febraban afirma que as taxas de juros médias cobradas em empréstimos para pessoas físicas com recursos livres (em que os bancos não são obrigados a dar destinação específica) caíram, em média, 10,55 pontos percentuais a mais que a taxa Selic nos 12 meses entre janeiro e dezembro de 2017.

Nos empréstimos a pessoas jurídicas, o corte ficou próximo ao da Selic: 6,6 pontos percentuais. O spread também caiu nas operações de crédito livre para pessoa física: passou de 60,2% em dezembro de 2016 para 46,2% em um ano.

MEDIDAS

Para trazer resultados mais relevantes, o Banco Central trabalha com agenda de medidas. A principal são mudanças no Cadastro Positivo para tornar obrigatória a inclusão de todos os consumidores. O objetivo é criar um banco de bons pagadores, mas há críticas. “Os bancos vão ampliar o acesso a dados de pessoas que não usam serviços bancários. A avaliação da concessão de crédito não é transparente. A inclusão compulsória é abusiva, muitos consumidores não saberão que estão incluídos no cadastro, vai aumentar o assédio ao consumidor com oferta de crédito”, afirma a economista do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor, Idec, Ione Amorim.

Outras medidas já foram tomadas, como as mudanças no crédito rotativo e no cheque especial. Agora, o consumidor deve passar apenas 30 dias nestas modalidades, tendo acesso a produtos mais baratos após esse período.


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Comentários

Por Gil Vasco,15/04/2018

1. Numa economia de mercado, como a brasileira, o governo não deve interferir para tabelar preços como, por exemplo, o custo do dinheiro. É inegável, todavia, que o governo dispõe de mecanismos poderosos que, de forma indireta, contribuem para induzir redução das taxas de juros praticadas no Sistema Financeiro, a exemplo da liberação de parcela dos depósitos compulsórios mantidos pelos bancos no Banco Central e do controle da inflação, que se reflete na taxa Selic; 2. Como sabemos, esperar que os próprios bancos reduzam espontaneamente suas taxas contradiz a lógica capitalista, de lucratividade sempre crescente. Ademais, devemos considerar que a própria redução da Selic impacta a receita obtida com as aplicações em títulos federais, o que leva o Sistema a buscar "compensação" para essa queda de receita, dificultando a diminuição das taxas das operações de crédito. 3. Portanto, somente em determinado cenário econômico é que as taxas tendem a cair. E, na verdade, elas vêm caindo. De acordo com dados do Banco Central, em dezembro de 2017: - O saldo das operações de crédito do sistema financeiro alcançou R$3.086 bilhões: pessoas físicas R$1.649 bilhões e pessoas jurídicas R$ 1.437 bilhões; -No crédito às famílias, a taxa de juros situou-se em 31,9% a.a. (-10,1 p.p. em doze meses). Na carteira de pessoas jurídicas, o custo médio alcançou 16,8% a.a. (-3,3 p.p. em doze meses). 4. É claro que essas taxas são muito altas, mas nem de longe se comparam às taxas extorsiva do chamado "cheque especial" e dos cartões de crédito, alvos de grande destaque na imprensa. Quanto a essas últimas, creio que somente cairão após (1) longo aprendizado do que representa a armadilha formada pela combinação do acelerado ritmo das mudanças de modelos e versões dos bens de consumo e (2) da eficiência da propaganda, aliada às facilidades do crédito.

Por Sávio,15/04/2018

80% da s informações acima são desculpe que quer fazer todos calarem e aceitarem, isto tem lobby que políticos estão dentro. Só uma explicação pra o meu acerto - os bancos brasileiros são o de maior lucratividade do mundo, isto mesmo do mundo. Sei muito bem o que estou comentando, mas num país que votam no pior corruptos com sanduíche de mortadela, fica fácil de digerir



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