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EMPREGO

Mercado de trabalho ainda é mais difícil para as mulheres em todas as etapas

Dos 12,8 milhões de desempregados no País, 52,8% eram mulheres até o fim do 2º trimestre de 2019

Publicado em 25/08/2019, às 07h10

Hoje, além de engenheira, Patrícia Godoy comanda a construtora de pequeno porte e supervisiona equipe de pelo menos 10 homens / Foto: Brenda Alcântara/JC Imagem
Hoje, além de engenheira, Patrícia Godoy comanda a construtora de pequeno porte e supervisiona equipe de pelo menos 10 homens
Foto: Brenda Alcântara/JC Imagem
Lucas Moraes

Ainda é mais difícil para elas. Nunca foi fácil. Mesmo com o maior empenho na busca pela igualdade, as mulheres ainda têm condições mais adversas em relação aos homens no que diz respeito ao mercado de trabalho. A dificuldade está presente em todas as etapas - desde a escolha profissional, passando pela conquista de uma vaga, até a manutenção da vida laboral. E criar mecanismos eficazes para a capacitação e contratação dessa mão de obra continua a ser um desafio para a maioria das empresas.

Desde os 15 anos, Patrícia Godoy (atualmente com 33 anos) sabia bem o que queria para a vida.“Eu sou do interior, então quando decidi fazer engenharia meu pai disse ‘tá certo’, mas era um aceitação de quem não acreditava muito. Eu tive muito incentivo da minha mãe, ela sempre disse que a gente poderia ser tudo o que quisesse. Já a família do meu pai é altamente machista. O discurso era ‘para que você vai colocar suas filhas em escola particular se não vão passar de balconistas’. Tudo isso porque éramos mulheres”, relembra Patrícia, que desde a conclusão do 9º ano do ensino fundamental, em Garanhuns, estava decidida sobre a carreira profissional.

Hoje, além de engenheira, ela comanda a construtora de pequeno porte que leva seu sobrenome e é responsável pela supervisão e garantia de renda de pelo menos 10 homens que compõem a sua equipe. Antes de chegar ao próprio negócio, no entanto, a engenheira sentiu o peso do fato de ser mulher na busca por vagas de destaque nas empresas.

“Eu sinto que tenho que saber quatro vezes mais que o homem para passar confiança. Eu trabalhava numa empresa e indiquei um amigo meu para trabalhar lá, ele entrou e já chegou ganhando quase o dobro do que eu - supervisionando mais obras que ele”, observa a engenheira. Atualmente, ela é responsável, simultaneamente, por cinco obras da Godoy e Azevedo Engenharia em Pernambuco, fora o segundo expediente que dá em casa cuidando de duas filhas de oito meses e quatro anos.

De acordo com os números do IBGE, mesmo que o Brasil tenha avançado na busca por igualdade entre os gêneros, o abismo entre homens e mulheres no campo profissional ainda é enorme. Mesmo com uma leve queda na desigualdade salarial entre os anos de 2012 e 2018, elas ainda ganham, em média, 20,5% menos que os homens. De um total de 93 milhões de ocupados, apenas 43,8% (40,8 milhões) são mulheres, enquanto 56,2% (52,1 milhões) são homens.

“Embora as mulheres tenham aumentado a participação no mercado e passado a acumular atividades em áreas consideradas mais masculinas, ainda existe muito preconceito. Hoje as mulheres já estão em todos os cursos de graduação e vêm cada vez mais superando os homens. Elas estão qualificadas para ocupar várias posições, mas na maioria das vezes, devido à questão da maternidade, principalmente, as empresas não querem”, avalia a diretora-executiva da Partner Consultoria, Renata Moura.



Mesmo para quem está fora do mercado, o gênero (além da questão econômica) continua a ser uma espécie de empecilho nas seleções das empresas Brasil afora. Dos 12,8 milhões de desempregados no País, 52,8% eram mulheres até o fim do 2º trimestre deste ano. Apenas entre elas, a taxa de desocupação foi 36,9% maior que a dos homens no período, embora as mulheres tenham maior nível de escolarização. Quando dentro do mercado, ainda conforme o IBGE, a presença a presença de mulheres só é maior do que a dos homens em áreas como as Ocupações elementares (55,3%), trabalhadores dos serviços, vendedores dos comércios e mercados (59,0%), Profissionais das ciências e intelectuais (63,0%) e Trabalhadoras de apoio administrativo (64,5%).

Para equilibrar essa balança, mulheres, empresas e entidades que atuam com foco na capacitação de novos profissionais estão buscando alternativas para ampliar o percentual feminino nas mais diversas ocupações, sobretudo nas áreas onde a presença delas ainda é restrita.

Thaisa Sá, 28 anos, é a única aluna no curso de piloto da escola de aviação Nave Treinamentos, no Paissandu, área central do Recife e, além de querer se tornar um exemplo para as meninas que desejam ser pilotos, espera ver bem mais presença feminina no comando de uma aeronave. “Eu trabalho numa livraria no aeroporto (do Recife), é muito difícil eu ver uma comandante. Quando vejo, ela é muito mais velha que a média dos comandantes homens”, ressalta Thaisa.

 

Da média de 40 alunos que se formam por ano com o instrutor de voo da Nave, Silva Filho, 64 anos, apenas 5 a 6 são mulheres. “Eu posso até nominar as mulheres que se tornaram pilotos tendo aulas comigo. É importante que haja esse alarde, eu dou aula desde 1976 e, por mais que elas não sejam maioria, as mulheres têm senso de responsabilidade e tato muito mais apurados para pilotar”, garante Silva.

Companhias

Do lado das empresas, o grupo Neoenergia, que controla a Celpe (em Pernambuco) e as distribuidoras da Bahia, Rio Grande do Norte e São Paulo, iniciou na última segunda-feira, em Salvador, a inauguração de uma série de escolas de eletricistas exclusiva para mulheres. Hoje, embora muitas tenham o interesse pela profissão, a “masculinização” do setor por muitas vezes tem se tornado um inibidor para a formação dessas mulheres, que segundo especialistas na área, em alguns serviços desempenham a função com muito mais êxito que os homens.

 

“Eu sempre tive vontade e precisei ter muita determinação para me tornar eletricista. Sempre fui cadastradora da Coelba (Companhia de Eletricidade do Estado da Bahia) e pensei porque não subir de cargo e fazer o que os homens faziam. Concluí o curso ainda numa turma que deveria ser mista, mas se formaram 11 homens e só eu de mulher”, diz Jamile nascimento, 36, que mantém a única renda da casa onde mora com a filha. O curso de eletricista é voltado às mulheres a partir dos 18 anos e tem carga de 596 horas. Em Pernambuco, a iniciativa da Neoenergia deve ser inaugurada até o ano que vem.




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