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Entrevista
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'A economia vai pautar a política', diz consultor americano

Em 2014, o cientista político americano Christopher Garman antecipou a 'tempestade perfeita' no governo Dilma e em maio de 2018 previu o fenômeno Bolsonaro

Publicado em 10/09/2019, às 08h45

O cientista político americano Christopher Garman, da consultoria Eurasia, tem um retrospecto notável em suas previsões sobre o Brasil / Foto: Carlos Moura/Ag. CNI Notícias
O cientista político americano Christopher Garman, da consultoria Eurasia, tem um retrospecto notável em suas previsões sobre o Brasil
Foto: Carlos Moura/Ag. CNI Notícias
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O cientista político americano Christopher Garman, da consultoria Eurasia, tem um retrospecto notável em suas previsões sobre o Brasil. Em 2014 ele antecipou a “tempestade perfeita” no governo Dilma e em maio de 2018 previu o fenômeno Bolsonaro. Agora diz que a economia pautará a política.

Confira a entrevista:

O sr. mantém contato frequente com investidores, bancos e grandes empresas internacionais. Qual é a percepção deles em relação ao Brasil?

Eu diria que tanto as empresas multinacionais como o mercado financeiro reconhecem que, diante da grave crise macroeconômica do País, com forte desequilíbrio fiscal, a reforma da Previdência era necessária para haver qualquer recuperação da economia. Passada essa etapa, que deve ser concluída até meados de outubro, com a aprovação da reforma pelo Senado, é claro que você tira um risco do horizonte. Mas a pergunta é: isso vai ser suficiente para voltar a atrair investimentos externos? A resposta provavelmente é não.

Por quê?

O que atrapalha mais é que a economia não está se recuperando. A recuperação ainda é bem modesta. O investidor de fora vê com bons olhos a ampla agenda de reformas que a equipe econômica e o próprio Congresso estão articulando. Mas os detalhes dessas reformas ainda não foram apresentados e não se sabe a sua profundidade. Então, há um reconhecimento de que o Brasil está tendo alguns avanços, mas com pouca clareza se essa agenda de reformas vai levar a um crescimento mais robusto nos próximos anos.



Várias declarações do presidente Jair Bolsonaro tiveram grande repercussão no exterior. Que efeito isso tem nesse quadro?

Algumas coisas atrapalham, sim. Há uma visão desse governo muito ruim fora do Brasil, embora o maior impacto em termos de reputação tenha sido com a crise na Amazônia. Acredito que essa retórica não é o principal motivo de os gringos não estarem vindo para o Brasil. O Brasil está menos atraente porque a recuperação está muito mais lenta.

Apesar das reformas, há uma certa frustração em relação ao Brasil?

Essas reformas podem aumentar a produtividade, mas não são coisas de curto prazo. São reformas mais estruturantes, com efeitos de médio e longo prazos. Isso dificulta. Também não ajuda o fato de o Brasil estar entrando numa fase mais construtiva em termos de aprovação de reformas, num momento externo ruim, com a aversão ao risco aumentando por causa da guerra comercial entre os Estados Unidos e a China. Além disso, há uma preocupação com o desaquecimento em vários lugares – na Alemanha, na China e possivelmente nos Estados Unidos – e uma saída do mercado de ações.

Como o sr. vê as perspectivas do País, deve mudar para melhor ou para pior?

Vai depender muito da economia. Se a gente olhar o que aconteceu no Brasil nos últimos cinco anos, a política é que pautou a economia. Grandes eventos políticos pautaram a economia. Agora, acredito que isso se inverteu. Então, para mim, o resultado da economia nos próximos 12 meses vai ter repercussões políticas bem importantes.

Que tipo de repercussão política o desempenho da economia pode ter?

Se a economia não se recuperar no ano que vem e o crescimento do PIB ficar abaixo de 1,5%, com o índice de desemprego em dois dígitos, a relação com o Congresso vai começar a piorar. Vai “bater” o pânico no Congresso e ele pode começar a tomar medidas ruins. Se a economia ficar patinando, o Congresso pode começar a pensar em aumentar o salário mínimo um pouquinho, flexibilizar o teto, esse tipo de coisa. Agora, se a economia crescer 2,2% no ano que vem e aumentar para 2,5% no ano seguinte, as lideranças no Congresso começam a ver que o retorno do ajuste e das reformas está vindo. Se isso acontecer, a percepção externa melhora, a agenda reformista continua e você consegue ter um ciclozinho virtuoso. 




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