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Saiba como volta das taxas sobre importação de metais pode interferir na economia do Brasil

O presidente Donald Trump anunciou, nesta segunda-feira (2), que retomará o imposto sobre aço e alumínio brasileiros e argentinos

Publicado em 02/12/2019, às 14h30

O presidente estadunidense Donald Trump e Jair Bolsonaro, chefe de estado do Brasil / Fotos: AFP
O presidente estadunidense Donald Trump e Jair Bolsonaro, chefe de estado do Brasil
Fotos: AFP
Katarina Moraes
kgonzaga@jc.com.br

O Brasil foi pego de surpresa na manhã desta segunda-feira (2) após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmar que iria retomar, imediatamente, as tarifas sobre a importação do aço e do alumínio brasileiro e argentino, pela desvalorização de ambas as moedas ante o dólar. Os países sul-americanos, além da Austrália, Coreia do Sul e a União Europeia, eram isentos da taxa até então. Mas, como a economia do país pode ser, efetivamente, afetada? E as relações diplomáticas entre os dois países e presidentes? Para responder essas questões, o Jornal do Commercio conversou com especialistas no assunto.

Motivação de Trump

Em publicação no Twitter, o presidente explicou a taxação é uma medida de proteção aos agricultores locais. “Brasil e Argentina têm sofrido uma massiva desvalorização das suas moedas, o que não é bom para nossos produtores agrícolas”, disse.

Donald Trump está tomando uma decisão protecionista do ponto de vista econômico. Com o real desvalorizado, os produtores brasileiros exportam os produtos a preço baixo, prejudicando os agrícolas americanos. Por isso, o chefe de estado contra-atacou: encareceu as taxas sobre a importação do aço e do alumínio, duas grandes commodities de consumo americano exportados do Brasil e da Argentina, para que os estadunidenses comprem o produto do seu próprio país.

“Os dois países (Brasil e Argentina) vem adotando iniciativas no mercado interno para valorizar sua economia. Enquanto isso, as moedas desvalorizam, porque cada país quer proteger sua matriz industrial”, explicou o especialista Abraão Rodrigues.

Como o trabalhador pode ser afetado?

Caso a medida seja, de fato, aprovada, o produtor brasileiro terá que pagar mais impostos para exportar, ganhando mais um custo operacional, e é assim que o trabalhador poderá ser, posteriormente, afetado. “Esse custo não está previsto para agora, então as empresas terão que equilibrá-lo. Em algum momento poderá haver uma redução de quadro ou uma diminuição do ritmo de crescimento dessas empresas”, disse o especialista.

Indústria Automobilística e Construção Civil

Além disso, os produtores e consumidores da indústria automobilística e da construção civil também sentirão o impacto. “O processo produtivo é impactado porque se trata de duas matérias primas. A indústria automobilística usa muito aço e alumínio, então a empresa brasileira terá que vender ainda mais caro para compensar a taxa de juros. O mesmo acontece na cadeira produtiva da construção civil”, esclareceu Abraão.

No entanto, Abraão Rodrigues defende que ainda é cedo para prever quais serão exatamente os impactos na economia brasileira, já que a taxa sobre as importações não foi dita. “Talvez fique mais interessante para o Brasil vender para o mercado interno, mas ainda é muito prematuro dizer o percentual que a indústria brasileira será impactada, porque o valor sobre a importação não foi anunciado”.

Relação entre Brasil e EUA

O Brasil tem adotado uma postura de alinhamento automático com os Estados Unidos desde a posse do presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Essa bilateralidade foi quebrada nessa segunda, com a retaliação direta de Trump à economia brasileira. É o que confirma Thales Castro, coordenador do curso Ciências Políticas e Relações Internacionais na Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP). 



“A decisão pode afetar substancialmente a relação bilateral entre os dois países, no termo político e diplomático. O Planalto e o Itamaraty (Ministério das Relações Exteriores) vão absorver o impacto e farão uma avaliação econômica e financeira dos impactos a médio prazo na indústria siderúrgica brasileira”, explica Thales.

O professor chama a atenção para a necessidade do Brasil em se pronunciar e repensar a concordância automática com os Estados Unidos. “O país não pode deixar isso passar em branco e precisa repensar esse alinhamento automático, essa postura desenvolvida pelo Itamaraty de que o que é bom para os EUA é bom para o Brasil. Agora, precisaremos ter uma postura mais incisiva”, alerta.

Processo de impeachment

O especialista acredita, também, que Donald Trump tomou a decisão com base na fase conturbada que passa em seu governo, que sofre com um processo de impeachment. “Trump costuma tomar decisões de maneira muito enérgica, então é provável que ele repense e melhore a medida mais para frente. Acho que Trump e Bolsonaro vão precisar negociar e ver se essa não foi uma decisão afobada”.

Brasil e China?

Na segunda semana de novembro, houve uma reunião do BRICS, bloco econômico em que participam os países emergentes Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. Na ocasião, a China, atualmente em guerra comercial contra os Estados Unidos, pôs à disposição do Brasil um fundo de 100 bilhões de dólares. Thales Castro considera que o flerte pode, eventualmente, se tornar um interesse do governo brasileiro.

“O país pode olhar por outro lado e determinar que a China está mostrando mais parceria e mais interesse financeiro, porque está disponibilizando fundos, enquanto os EUA retalia. Mas acredito que esse jogo duplo de usar a China como poder de barganha não irá acontecer. Pelo o menos não agora, porque seria muito danoso e prejudicial para todas as partes”

Resposta de Bolsonaro

O presidente Jair Bolsonaro disse nesta segunda-feira, 2, que, "se for o caso", conversará com o presidente dos EUA, Donald Trump, sobre o anúncio feito pelo norte-americano, de aumentar tarifas sobre aço e alumínio de Brasil e Argentina como forma de compensar a desvalorização da moeda destes países.

"Vou conversar com Paulo Guedes. Se for o caso ligo para o Trump Tenho um canal aberto com ele", disse Bolsonaro. "Converso com Paulo Guedes e depois dou a resposta. Para não ter de recuar, tá ok?", completou Bolsonaro.

A proximidade com Trump é frequentemente apontada pelo governo brasileiro como uma conquista da gestão Bolsonaro.




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