Jornal do Commercio
Porto Digital - 15 anos

Tecnologia que recuperou o Bairro do Recife

Decisão de instalar o parque tecnológico na área mais antiga da cidade transformou a ilha - e expandiu-se para outras regiões da capital

Publicado em 23/11/2015, às 06h39

Consultor Cláudio Marinho foi o maior defensor pela instalação do Porto Digital no centro histórico do Recife / Foto: Bobby Fabisak/JC Imagem
Consultor Cláudio Marinho foi o maior defensor pela instalação do Porto Digital no centro histórico do Recife
Foto: Bobby Fabisak/JC Imagem
Renato Mota

“O ITBC, na metade roubada ao mar do poeta, será um novo porto da economia digital de Pernambuco”. Esse é o trecho de uma apresentação que propunha, ainda em 1998, a criação do empresarial Information Technology Business Center (ITBC), que desde 2011 abriga mais de 50 empresas no Bairro do Recife. Apesar de se referir a um prédio que só iria se tornar realidade anos depois, o documento pode ser considerado uma das certidões de nascimento do Porto Digital e, mais importante, uma mostra de que o destino do parque tecnológico estava ligado à ilha que deu origem ao Recife.

O mentor da ideia de levar o empreendimento ao Bairro do Recife, o consultor e ex-secretário de Ciência e Tecnologia de Pernambuco Cláudio Marinho, conta que a ideia é muito mais antiga:  vem de 1985. “Jarbas [Vasconcelos] era prefeito e eu era diretor de planejamento urbano. Ele decidiu fazer uma revitalização do Centro, com prioridade para a Rua do Bom Jesus, e eu coordenei isso. Em 1993 eu coordenava o apoio da prefeitura ao polo de informática, o que me levou a me envolver com a Softex Recife. Cinco anos depois, já como coordenador da Softex, pedi à prefeitura o prédio onde hoje é o ITBC, que seria um prédio inteligente para hospedar as empresas de tecnologia, com maior cooperação e  interação entre eles, e ao mesmo tempo revitalizar a área”, lembra Marinho.

Quando o futuro Porto Digital estava sendo gestado, Marinho defendia que ele deveria ser no Bairro do Recife, enquanto outro cabeça da criação do parque tecnológico, Silvio Meira, era contra. “Eu defendia que ele deveria ficar próximo à universidade, como acontece em boa parte do mundo. E defendia isso na minha mais completa ignorância”, brinca Meira. O argumento fazia sentido ao comparar com outros projetos ao redor do mundo, mas no Recife era diferente. “Aqui a universidade federal está fora da cidade e nunca teve a capacidade de se reorganizar como um núcleo importante. No Brasil as universidades são periféricas à economia, o que é uma pena”, conta. 

O que fez o cientista mudar de ideia foi, acredite, a falta de restaurantes próximos à UFPE. “Essa história já virou lenda, mas é pura verdade. Perguntei à Silvio: ‘me aponte um restaurante ou café onde se possa levar um empresário para conversar por aqui’, e realmente não tinha. O Bairro do Recife já era melhor servido nesse sentido”, lembra Marinho. Ainda tentou-se levar o Centro de Informática da UFPE também para o centro. “Não se chegou a um acordo e então o CIn acabou precisando de uma expansão lá mesmo na Cidade Universitária, ficou grande demais para ser trazido para o Bairro do Recife”, completa Meira.



Para o presidente do Porto Digital, Francisco Saboya, adotar o bairro mais antigo da capital foi uma decisão acertada desde o começo. “Era como se pudesse, com o mesmo esforço - político, institucional, técnico, gerencial e sobretudo financeiro – atacar a dois problemas: a requalificação do tecido urbano e do patrimônio arquitetônico qualificado”, afirma. Essa característica faz do Porto Digital único entre parques tecnológicos no Brasil e no mundo. “Só agora outros projetos semelhantes perceberam o quanto a questão urbana é importante para a melhoria da qualidade de vida das pessoas, o trânsito e da poluição. Enfrentamos isso muito antes dos outros e percebemos que a tecnologia pode ser aliada”, avalia Saboya.

 A partir do Bairro do Recife, o Porto Digital ainda se expandiu para Santo Amaro, em 2011, e este ano ainda incluiu áreas dos bairros de Santo Antônio, Boa Vista e São José, a partir da cessão de uso, através do governo do Estado, dos antigos prédios do Diário de Pernambuco e do Instituto de Administração Financeira da Previdência e Assistência Social (Iapas). “Foi percebido que tanto o parque precisava de mais espaço para comportar novas empresas quanto que ele poderia ser um indutor de ocupação de outras áreas importantes do centro da cidade”, afirma o diretor executivo do Porto Digital, Leonardo Guimarães, que é responsável pelos projetos de restauração dos imóveis históricos. 

“Além de servimos como um colaborador que justifique a ocupação dessas áreas, também temos a percepção que o ambiente – especialmente a ilha do Bairro do Recife – é muito propício para gerar experimentações que envolvem a tecnologia desenvolvida aqui”, conta Guimarães. Um exemplo é o uso de bicicletas compartilhadas no projeto Porto Leve, que começou no centro e depois expandiu-se, através de um patrocinador, para outras regiões da cidade. “Queremos colaborar com inteligência para produzir soluções que entreguem valor para a cidade e para o morador”, afirma o diretor executivo. 





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