Jornal do Commercio
AGRICULTURA

Cerveja de mandioca beneficia agricultores do Sertão

Ambev compra diretamente dos produtores de Araripina a matéria prima utilizada na bebida vendida apenas em Pernambuco

Publicado em 09/11/2018, às 07h49

A família de Vilmar Carvalho (ao centro) comemora os ganhos com a venda direta / Foto: Rafael Martins/Divulgação Ambev
A família de Vilmar Carvalho (ao centro) comemora os ganhos com a venda direta
Foto: Rafael Martins/Divulgação Ambev
Edilson Vieira
Repórter de Economia

ARARIPINA (PE) – Vilmar da Silva Carvalho, 58 anos, anda com firmeza pela plantação de mandioca de 80 hectares que mantém na Serra da Torre, no município de Araripina, a 680 km do Recife. Com agilidade, o agricultor arranca da terra a raiz que é motivo de alegria. “Costumo dizer que eu tenho três mães. A do Céu, que é Nossa Senhora; a da terra, que me trouxe ao mundo e esta daqui, que deu minha riqueza, é a mãedioca”, sorri.

A satisfação com o trocadilho tem explicação. Seu Vilmar comemora a boa safra possibilitada pelo inverno, que aumentou a produção em torno de 30%. Celebra também o novo mercado que se abriu a partir deste ano. A família de seu Vilmar, junto com outras cinco da região do Araripe, foi escolhida pela cervejaria Ambev para fornecer a mandioca que compõe a receita de sua nova bebida: a cerveja Nossa. Lançada há dois meses, ela é produzida em Itapissuma, Região Metropolitana do Recife, com receita exclusiva que leva amido em sua composição. O amido vem das mandiocas plantadas por pequenos agricultores do Araripe.

“Antes, toda nossa produção de mandioca era para fazer farinha ou goma de tapioca. Mas produzir farinha é caro porque gasta muita energia elétrica e água”, diz Gilmar Carvalho, filho de seu Vilmar. Ele diz que a família acabava na mão do atravessador, que pagava “o quanto queria” pela raiz. “Abaixo de R$ 150 a tonelada não compensa nem produzir”, diz ele, explicando que o preço do produto varia muito ao longo do ano, podendo cair muito ou passar dos R$ 350 a tonelada, dependendo da oferta e da procura. Com a entrada de um comprador de grande porte, como a Ambev, os produtores têm o preço garantido para aquela safra, o que acaba gerando lucros maiores.



MANDIOCA

Quem também fez as contas foi Silvano Moraes Coelho. Filho e neto de agricultores, ele havia escolhido outro destino. Lecionou geografia por dez anos em escolas públicas de Araripina. Mas há dois anos, largou a sala de aula e decidiu mapear as possibilidades da Serra do Inácio, já quase na divisa com o Piauí. A altitude de 860 metros acima do nível do mar é boa para a mandioca, ensina Silvano, mostrando que não esqueceu as lições de geografia. “Comecei a cuidar da roça de 50 hectares de mandioca junto com meus irmãos e primos. Em junho, vendi 150 toneladas para a Ambev. Agregou valor e deu moral ao nosso produto”, diz Silvano, que já planeja ampliar a área plantada para 100 ou 120 hectares no próximo ano, caso o inverno seja tão bom quanto foi em 2018.

O engenheiro agrônomo da Ambev, Vitor Pistoia, explica que desde o início, a ideia era ter um novo produto que tivesse a ver com a cultura local. “Há dois anos, pensamos em produzir uma cerveja que fosse feita em Pernambuco, para ser vendida apenas no Estado e com um viés social.” Vitor, que é gaúcho, visitou várias vezes a região do Araripe em busca dessas famílias. “Usamos como critério para a seleção dos agricultores os que mantêm boas práticas de manejo do solo, preservação do meio ambiente e sintonia com o compliance da Ambev”, diz. Apesar de não revelar números de produção ou mesmo de investimentos, Vitor Pistoia garante que o projeto ainda está em fase inicial e tem bastante espaço para crescer. Até o fim do ano, a expectativa é de que a cerveja pernambucana esteja disponível em 10 mil pontos de venda no Estado.

A chegada da Ambev em Araripina fez a roda da economia girar. Uma fábrica de fécula de mandioca foi contratada pela Ambev para produzir o amido usado na cerveja. A empresa estava praticamente parada desde a sua inauguração, há seis anos. Uma seca que durou todo esse período fez a produção cair, inviabilizando o investimento de R$ 30 milhões. “Hoje estamos processando 200 toneladas de mandioca por dia, mas temos capacidade para processar até 600 toneladas”, afirma Cristiano Coelho, gerente da Amido Maxx, que emprega 25 pessoas e compra a raiz por R$ 250 a tonelada.

O repórter viajou a convite da Ambev


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Comentários

Por Fabrício,09/11/2018

Araripina se destaca como importante município em Pernambuco, para a infelicidade de muitos que queriam isolar a cidade. beijos de luz para vcs. Araripina foi escolhida pela população de 50 municípios da fronteira PI CE como centro de compras. E agora com esse incentivo da Ambev se valoriza ainda mais.

Por saiver,09/11/2018

Meio brasileiro e meio suiço, mas mora na Suiça para onde o dinheiro é devidamente enviado todo o mês (Paulo Lemann o nome da figura, da e não das figuras). De qualquer modo acho que a crítica foi ao fato de dar incentivo a alguém que já é muito rico para se tornar ainda mais rico, e que nem no Brasil mora. Talvez fosse o caso de incentivar os empreendedores daqui. Estive no Chile e lá eles tem muito orgulho da carta de cervejas locais.

Por Eduardo,09/11/2018

Quem Falou essa bobagem??? "... pra Europa, onde o maior acionista da Ambev mora".... Os 3 maiores acionistas da Ambev são Brasileiros e moram no Brasil. A Ambev é sim uma multinacional, a maior fabricante de cervejas do mundo, mas é uma multinacional BRASILEIRA. Em verdade, eles podem até ter suas "casinhas" em Paris, Londres ou Mônaco.... MAS SÃO BRASILEIROS!!!!!!

Por Tony,09/11/2018

Vale ressaltar que embora a chegada da indústria tenha de fato movimentado a economia no estado, ela vem também de uma série de incentivos fiscais que barateiam o custo de produção e valor de vendo do produto, e o estado abre mão de uma receita fiscal importantíssima, do outro lado, fica evidente que pequenas cervejarias locais como a DeBron, GRUNS, Ekaut e outras tantas não tem os mesmos incentivos e vão acabar sendo engolidas por uma multinacional que leva os lucros lá pra Europa, onde o maior acionista da Ambev mora. Acho que o Governo PSB tem errado nesse sentido, pois acaba fomentando o oligopólio, gostaria que as cervejarias de Recife tivessem mais visibilidade.



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