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Proibição de bebidas em estádios não reduziu violência, diz pesquisa

Pesquisa foi feita por um grupo de pós-graduação da Universidade Federal de Pernambuco

Publicado em 20/05/2018, às 09h33

Clássico entre Santa Cruz e Sport é o que mais tem ocorrências registradas / Alexandre Gondim/JC Imagem
Clássico entre Santa Cruz e Sport é o que mais tem ocorrências registradas
Alexandre Gondim/JC Imagem
Matheus Cunha
Twitter: @matheuscunha08

Durante seis anos (entre 2009 e 2015), a lei estadual 13.748 proibiu os clubes de Pernambuco de venderem bebidas alcoólicas em seus estádios, como uma forma de tentar reduzir a violência em dias de jogos. Mas, passados quase três anos do fim da proibição (foi derrubada em janeiro de 2016), os números do Juizado Especial do Torcedor comprovam que não houve qualquer redução. Pior: o número de ocorrências no período aumentaram com relação aos anos em que as bebidas foram liberadas.

Os dados vieram à tona em uma pesquisa desenvolvida pelo Grupo de Pesquisa em Sistemas de Informação e Decisão (GPSID), do programa de pós-graduação em Engenharia de Produção, na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e desenvolvida por quatro pessoas: Jadielson Moura, Thyago Nepomuceno, Lúcio Câmara e Ana Paula Cabral. O material foi publicado no fim do ano passado na revista científica inglesa International Journal of Law, Crime and Justice.

Foram 619 ocorrências registradas pelo Juizado do Torcedor no período entre 2005 até abril de 2009 (ver arte ao lado), quando era permitida a entrada de bebidas alcoólicas nos estádios de Pernambuco. Média de 2,99 casos por partida (207 jogos no total). No tempo em que ficou proibida a comercialização (entre 2009 e 2015), as ocorrências chegaram a 744, resultando numa média de 4,42 a cada confronto (168 duelos ao todo). O GPSID recolheu apenas os números das partidas envolvendo Náutico, Santa Cruz e Sport, válidas pelo Campeonato Brasileiro, Pernambucano e Copa do Nordeste, por exemplo.

Vale lembrar que esses dados são das torcidas em geral e não apenas das torcidas organizadas, apontadas várias vezes como principais culpadas pelas ocorrências. Mesmo sendo em períodos diferentes, as amostras, segundo os pesquisadores, são praticamente semelhantes uma da outra.

O sociólogo carioca Maurício Murad é autor do livro “A Violência no Futebol” e defensor da proibição de bebidas alcoólicas nos estádios. Para ele, não houve redução porque, provavelmente, a venda continuou nos arredores dos estádios.

“Às vezes não tinha cerveja dentro do estádio, mas tinha fora. Os caras bebem muito fora do estádio e depois entram embriagados. Isso é um fenômeno muito comum aqui no Brasil. É hipocrisia liberar bebida fora e proibir dentro, porque o ambiente do jogo fica envolvido com a embriaguez”, analisa.

Outro ponto apontado como prejudicial aos efeitos da proibição por Maurício, é o fato de sempre haver bares em regiões próximas às praças esportivas. Além disso, a maioria das bebidas são lícitas, o que facilita a sua comercialização.



“Quando você pega uma área muito grande para além do estádio, a bebida nunca está proibida. É preciso ter um protocolo europeu, que é de proibição em torno de 5 a 6 km de raio em torno da praça. Quando você analisa esse raio, pode considerar se tem ou não bebida alcoólica no jogo”, completa.

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A pesquisa do GPSID também traz outros dados da violência nos estádios pernambucanos. A proibição da entrada das principais torcidas organizadas dos três clubes da capital também entrou em pauta. E, assim como aconteceu com relação às bebidas, não houve redução nos crimes.

A primeira proibição às organizadas foi entre fevereiro e junho de 2013. A segunda durou 1 ano e foi entre março de 2014 até março de 2015. O número médio de ocorrências nos jogos foi de 6,26 neste período (34 partidas ao todo). Resultado 50% maior de quando os grupos tiveram livre acesso aos estádios (4,14 ocorrências por jogo). O total de duelos, entretanto, foi maior: 113.

“A maioria dos conflitos acontecem fora dos estádios. Então proibir a entrada da torcida não resolve o problema. Você ainda dificulta a identificação dos possíveis vândalos. Eles ficam dispersos na multidão”, analisa o sociólogo Maurício Murad.

Outro ponto levantado é a relação entre o grau de importância dos jogos na quantidade de ocorrência geradas. Por exemplo: Uma partida decisiva tende a ter mais ocorrências do que uma de fase preliminar. “Percebemos que o horário das partidas também influenciam na tensão do jogo. Quanto mais tarde, maior o número de ocorrências”, completa Jadielson Moura, um dos autores da pesquisa.

O clássico entre Santa Cruz e Sport, disputado no Arruda, foi o que mais teve ocorrências nesse período. São 240 casos em dez partidas.




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