Jornal do Commercio
Pernambuco

Reeleição, defesa de Del Nero e Marín e futuro da FPF: Evandro Carvalho abre o jogo

O presidente da FPF, Evandro Carvalho, não exitou responder nenhuma pergunta em entrevista ao SJCC

Publicado em 23/09/2018, às 08h07

Jornalistas do Sistema Jornal do Commercio e Comunicação (SJCC) entrevistaram o presidente da FPF Evandro Carvalho / Foto: Felipe Ribeiro/JC Imagem
Jornalistas do Sistema Jornal do Commercio e Comunicação (SJCC) entrevistaram o presidente da FPF Evandro Carvalho
Foto: Felipe Ribeiro/JC Imagem
JC Online
Com colaboração de Diego Borges

Na próxima terça-feira, Evandro Carvalho será reeleito para mais quatro anos no comando da Federação Pernambucana de Futebol. Em entrevista aos profissionais do Sistema Jornal de Comunicação (SJCC) - Marcos Leandro, Thiago Wagner e Tiago Morais -, o mandatário da FPF falou sobre a crise no futebol pernambucano e diversos outros assuntos, principalmente a relação com a CBF e os ex-presidentes Ricardo Teixeira, José Maria Marin e Marco Polo del Nero. Violência nos estádios, Estadual e Nordestão também fizeram parte da conversa. 

CONFIRA

JORNAL DO COMMERCIO – O senhor assumiu a presidência da FPF em 2011, após o falecimento do então presidente Carlos Alberto Oliveira. A princípio, o senhor declarava que não iria ficar muito tempo no cargo. No entanto, vai para uma reeleição e mais quatro anos de mandato. O que mudou?

EVANDRO CARVALHO – Nada. O que eu defendia é igual à legislatura comum, acredito nesse modelo de eleição e reeleição. Muito longe das continuidades dos presidentes que me antecederam, Rubem Moreira (presidiu a entidade por quase 30 anos) e Carlos Alberto Oliveira (16 anos). Estava nos Estados Unidos, comandando a delegação da seleção brasileira e fiquei feliz com a indicação dos clubes e não poderia me furtar ante a aclamação de 100% dos filiados.

JC – Vai haver um terceiro mandato?
EC – Acredito que ninguém é dono ou se arvora ao se candidatar a alguma coisa. Por princípio, defendo esse como o modelo ideal (reeleição). Equilibra, propicia novas experiências. A busca por desafios sempre é interessante. Se tiver a oportunidade de buscar uma alternativa nacional ou internacional, isso sem dúvida me motivaria.

JC – A que o senhor deve a boa relação da FPF com a CBF?
EC – É a primeira vez que falo isso. Eu era vice-presidente de Carlos (Alberto Oliveira), inclusive praticamente vivia em São Paulo, quando ele me chamou pela primeira vez. Eu disse que não poderia por conta das minhas atividades. Muito tempo fora do Recife e ele disse: “por isso mesmo, você é o meu vice ideal”. Carlos tinha um desacerto muito grande com Ricardo Teixeira. Tanto que as obrigações e os compromissos institucionais da Federação com a CBF, era eu que reportava a Ricardo e à CBF. Quando eu assumi, Ricardo (Teixeira) ainda tinha dois a três meses de mandato. Tivemos a crise no Santa Cruz que ficou sem série para jogar. As pessoas sabiam da minha relação, antes mesmo do futebol, de outras atividades, com (José Maria) Marin, então vice-presidente. Pouco tempo depois, Ricardo saiu e Marin assumiu. Antônio Luiz Neto (presidente do Santa Cruz à época) me pediu desesperadamente que, de qualquer maneira conseguisse criar alguma atividade, alguma série, alguma faixa onde pudesse jogar. Ao lado de Antônio Luiz Neto e Albertino dos Anjos (ex-diretor de futebol do Santa), conseguimos criar a Série D para o Santa Cruz não ficar oito meses sem jogar. Conseguimos com Marin que todas as despesas fossem pagas, porque a CBF, até então não pagava nada de Série C e Série D. Foi a 'megasena' dos clubes menores ou grandes clubes que estavam em dificuldade, como o Santa Cruz.

CONFIRA O VÍDEO COMPLETO DA ENTREVISTA

JC – O senhor fala muito bem do ex-presidente Marin, condenado pela justiça norte-americana por corrupção...
EC – Depois que Marin assumiu, houve um movimento muito sério, que eu não admito. Sou legalista ao extremo e não transijo quanto à legalidade. Queriam subtrair de Marin o direito de ser o presidente da CBF. Me rebelei e tive problemas com outras federações. Inclusive, na minha última viagem, tive contato com o advogado dele. Estive também anteriormente na América, antes da prisão. Tenho uma relação de amizade fundamental e eu acho que é obrigação de todo homem ter gratidão e reconhecimento. Todas as demandas que Pernambuco teve, Marin atendeu com integralidade. Independentemente de qualquer conduta que ele tenha feito de errada no aspecto penal, quem age erroneamente tem que responder dentro do arcabouço jurídico brasileiro ou estrangeiro, como no caso dele. Paciência.

JC – A Série D foi o preço do apoio a ele (Marin)?
EC – Não. O reconhecimento já havia se dado na minha conduta de não abrir mão da legalidade dele para assumir a CBF. Isso foi o fator principal. Você não pode transigir com a legalidade. Falo isso direto aos clubes daqui. Fazemos tudo o que pedem, desde que esteja dentro da legalidade.

CONFIRA A ENTREVISTA EM ÁUDIO

JC – Em 2017, após a Fifa suspender Marco Polo Del Nero (também ex-presidente da CBF), o senhor disse que era uma suspensão injustificável. O senhor mantém essa posição, após Del Nero ter sido banido do futebol?
EC – Não só injustificável, como absurda pelo aspecto legal. Marco Polo Del Nero foi investigado pelo birô americano, pela procuradoria americana, por todos os veículos de imprensa do mundo e não foi localizado um único Dólar ou centavo de Real, Ien, ouro. Um único ítem, seja monetário ou de qualquer outro ativo imobiliário, em nome de Marco Polo. Mais! Se estendeu a investigação para ex-esposa, nora, os filhos… até eu abri mão do meu sigilo, da minha mulher e dos meus filhos. Uma pessoa que supostamente é partícipe de um grupo formação de quadrilha que movimentou milhões de dólares e não tem um único centavo, um único bem e ninguém da sua família, ou ação direta, eu tenho que acreditar na afirmação desse homem de que é inocente. Até que tenha uma prova efetiva.

JC – Sobre Ricardo Teixeira...
EC – Bandido (sequer aguardou o fim da pergunta para disparar).

JC – Os três últimos presidentes da CBF (Ricardo Teixeira, José Maria Marin e Marco Polo del Nero) tiveram problema com a justiça e o senhor teve relação com os três. O senhor não entende que essa relação respinga na Federação?
EC – Não. Abri mão do meu sigilo bancário, de telefone, fiscal, quem quiser me investigar, que investigue. Um homem tem que ter posição, compromisso, reconhecer e ser grato por quem trabalhou com ele, quem sempre foi justo e correto com ele. Independentemente do arranhão, do desgaste da minha imagem, não abro mão de manter os meus princípios de formação de caráter por conta de uma conveniência política.

JC – Falando em futebol pernambucano, são quatro rebaixamentos (juntando todas as divisões do Brasileiro) nos últimos três anos e nenhum acesso...
EC – Nós perdemos R$ 24 milhões do Todos com a Nota. Eu assumi a Federação, nós tivemos um ano do programa. Eu reuni o dinheiro que tinha, consegui viabilizar ainda um levantamento e todo esse dinheiro investi nos clubes. Pernambuco ainda conseguiu fora isso R$ 7 milhões. Por que nós temos essa crise hoje? Nós perdemos receita e capacidade de investimento perante a Paraíba, Pará, Maranhão, Bahia, Ceará, Sergipe. Eles estão conseguindo recursos que nós não temos, por uma questão econômica e financeira da capacidade do estado. Futebol não se faz sem dinheiro. É um milagre nós sobrevivermos sem essa receita. Mesmo assim, o Sport continua na Série A. Quando assumi a Federação, não tínhamos um clube na Série A.



JC – O senhor se acha responsável (crise do futebol local)?
EC – Quando os clubes ganham, a Federação é co-partícipe. Quando os clubes perdem, a Federação é responsável também. E eu me sinto responsável, porque não tive a capacidade de arregimentar mais recursos com o dobro ou o triplo do que eu arrumei. Por mais que eu tenha levantado, por mais que eu tenha alocado, fui incompetente. Se eu consegui alocar R$ 7 milhões, eu deveria ter conseguido R$ 70 milhões para ter os meus três clubes na primeira divisão.

JC – Como sair da crise?
EC – Nós não temos que começar do zero. Nós temos que usar a nossa experiência, pegar o que fizemos de bom e fazer a reengenharia dos clubes. E eles estão fazendo. Quero parabenizar Tininho (Constantino Júnior, presidente do Santa), e Edno Melo (mandatário do Náutico). O que Edno e Diógenes fizeram é uma demonstração de alta capacidade gerencial. Executivos que, com a experiência de mercado, conseguiram reestruturar o clube, conseguiram reorganizar e as contas estão em dia. O Santa Cruz, por mais que a torcida critique, Tininho é um herói. O que ele conseguiu levantar de patrocínio, seja de R$ 10 mil a R$ 50 mil, é uma odisseia. Tininho pegou o clube com um passivo de R$ 80 milhões. Não é fácil.

JC – E a violência no futebol?
EC – Me penalizo por não ter conseguido acabar com o problema da violência. Mas se recapitularmos, Pernambuco foi o único estado que, mesmo com poucos recursos, conseguiu investir junto com uma empresa americana e desenvolver o primeiro site que foi doado ao estado em 2014, o de monitoramento de redes sociais, que permitiu monitorar os encontros de torcidas organizadas e conseguimos reduzir a violência. Agora, qual o grande problema da violência no Brasil? Todo mundo fala ‘a Inglaterra resolveu’. Claro! Se você tiver tecnologia, como nós temos, se fizer investimentos, como nós fizemos, e uma legislação dura, mas dura mesmo, você acaba. Agora, com essa legislação frouxa que nós temos, paternal e puramente fantasiosa, o sujeito que briga, quebra tudo e não acontece nada. Com essa legislação, é ‘enxugar gelo’.

JC – O senhor foi eleito em 2014 com todo aquele contexto de valorização da Arena, e hoje será reeleito com a Arena sem jogos, sem shows de grandes bandas, como foi prometido. Não é culpa da Federação, mas o que ela pode fazer?
EC – A Arena hoje é superavitária. Tem um contrato que paga além do custo dela de manutenção. A Arena hoje é um equipamento de primeira linha, de melhor manutenção do Brasil entre todas as Arenas, reconhecido pela Conmebol e pela CBF, dando esses méritos ao Governo do Estado de Pernambuco. Não gera prejuízo para o estado. Permite-nos realizar grandes eventos. Tivemos shows fantásticos. Temos a oportunidade e fizemos grandes jogos lá, como Sport x Palmeiras, Sport x Flamengo.

JC – Vai haver um diálogo maior entre a Federação e a Liga do Nordeste?
EC – A Federação apoia Náutico, Santa Cruz e Salgueiro, que querem jogar. O Sport não quer jogar, a Federação apoia também. A Federação não pode é ficar contra o filiado. O Sport tem um ponto de vista que eu entendo. A Copa do Nordeste foi o maior upgrade que nós demos no futebol do Nordeste, quando fizemos no primeiro ano. Porque eu só assinei na condição de que a Copa do Nordeste seria jogada após o Campeonato Estadual, porque se acontecesse como aconteceu de entrelaçar com o Estadual e virar um campeonato, ela mata o Estadual.

JC – Como fica o Campeonato Pernambucano?
EC – Agora que já terminou, eu posso falar. A Rede Globo só paga a três estados no Nordeste: R$ 1 milhão ao Ceará, R$ 2,5 mi à Bahia e paga R$ 4 mi a Pernambuco. Tirando São Paulo, Rio, Minas, Rio Grande do Sul e Paraná. É o sexto maior contrato de televisionamento. Nos outros estados ela não paga nada. Arrecadamos R$ 4 milhões que vão para os clubes. É pouco? É. Mas é a realidade do nosso mercado.

JC – Voltando a falar da relação com a CBF. Sobre a ajuda às federações... (pergunta interrompida)
EC – Ajuda, não. De jeito nenhum. As federações trabalham para a CBF. Exercem uma atividade vinculada e representativa com função delegada. Por exemplo, eu realizo aqui, tenho um convênio com a CUFA (Central Única da Favelas), que é a TARECO (Taça Recife de comunidades), sub-13, sub-15, sub-17, Campeonato Feminino, sub-20, sub-23, competição dos bairros, Competição da Prefeitura do Recife que vão 2.700 meninos, Copa do Interior,... tudo isso para fazer, tem que ter dinheiro. O dinheiro que a gente tem é a participação dos clubes, que é pequena, aí a CBF manda R$ 70 mil. Que no meu caso não dá. E manda os mesmos R$ 70 mil as outras federações. Tá errado. Ela não tem que mandar R$ 70 mil. Tem que mandar o que eu gasto, que é R$ 186 mil. E não mandar R$ 70 mil para lá, porque não gasta nem R$ 30 mil. Nem R$ 10 mil. Tá errado. Eu digo lá todos os dias. Os outros presidentes não fazem isso porque é uma questão de política.

JC – E como anda a saúde financeira da Federação?
EC – Está bem. No momento não temos tanta liquidez porque o que tínhamos, nós investimos nos clubes, com um aporte de R$ 7 milhões e a nossa liquidez é zero. Nós temos hoje apenas a folha de pagamento, as obrigações e a receita para pagar, incluindo os R$ 70 mil da CBF. Eu tenho que repensar as competições que vou realizar no ano que vem, porque a expectativa nossa é que o investimento que temos feito nos clubes retornasse com a manutenção na Série B, etc. Isso, realmente, vai dificultar muito a realização dos nossos eventos sociais e dessa áreas menores no próximo anos.

JC – O senhor é rubro-negro. Já passou pela cabeça em presidir o Sport algum dia?
EC – Já, sim.

JC – O senhor dá que nota para a sua gestão até agora?
EC – Eu dou nada. Era 10, com os nossos clubes na elite, mas como caiu agora é zero. Os clubes caíram. A minha função é fazer os clubes irem bem. Não tem sentido Náutico e Santa Cruz estarem na Série C. Se pegar a conta corrente de Náutico e Santa Cruz, o Náutico foi R$ 3 milhões e o Santa Cruz foi R$ 4 milhões. Fora o que eu arrumei de patrocínio e os clubes caem? Não existe isso. Quando é que vai pagar isso? Não vai pagar.





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