Jornal do Commercio
ENTREVISTA

Pesquisador Fábio Quio fala do TV Ringue Torre

Para ele, a noite de lutas que acontecia no Recife na década de 1960 é o embrião do que hoje é conhecido por MMA

Publicado em 17/10/2012, às 07h30

Marcelo Sá Barreto e Wagner Sarmento

O paulista Fábio Quio Takao é um desses pesquisadores que mantêm a história da luta do Brasil viva. Estava num trabalho que visava a introdução do jiu-jítsu, judô e vale-tudo no Brasil quando se deparou com a história do TV Ringue Torre e se viu totalmente envolvido pela história pernambucana. Foi atrás e descobriu um mundo rico de personagens, que com sangue  e coragem escreveram o início da história do que hoje é conhecido por MMA. "Era o embrião do que ficou conhecido mais tarde como "cross training", no qual o lutador se dedica a treinar várias modalidades", contou o pesquisador. Abaixo, os principais trechos da entrevista com Fábio Quio.

JORNAL DO COMMERCIO - É possível afirmar que o TV Ring Torre é um dos precursores do vale-tudo no Brasil?
FÁBIO QUIO
­- Com certeza. Outros programas já haviam sido transmitidos antes em canais do RJ e SP, mas acredito o TV Ringue Torre teve duas contribuições importantíssimas para evolução do esporte. A primeira foi dar oportunidade para vários talentos do Norte/Nordeste e fomentar a criação de novas academias fora do eixo Rio-São Paulo. A outra contribuição que pouquíssimas pessoas sabem é que o programa incentivou a formação de atletas especialistas em várias artes marciais. Além do jiu-jítsu Gracie, alguns lutadores praticavam judô, Boxe, Luta Livre e Capoeira. Era o embrião do que ficou conhecido mais tarde como "cross training", no qual o lutador se dedica a treinar várias modalidades. O que me fascinou nesse programa foi a determinação dos lutadores, que mesmo sendo oriundos de uma região historicamente menos favorecida economicamente, protagonizaram um evento que marcou época na base da improvisação e da raça.

JC - Foi através do programa que o esporte teve seus primeiros ídolos?
FÁBIO
- Foram os primeiros ídolos do Vale Tudo do Norte/Nordeste sim. Até a década de 50, a família Gracie mantinha um "monopólio" na prática do Vale Tudo e buscavam promover somente membros da família. O TV Ring Torre deu oportunidade para diversos lutadores que não tinham condições de viajar até o Rio de Janeiro provarem seu valor. O público nordestino se identificou com os lutadores que vinham de cidades pequenas e vilarejos e que passaram pelas mesmas dificuldades que eles. Esses primeiros ídolos do Vale Tudo criaram uma legião de fãs e os nomes de vários lutadores ainda são conhecidos na região, mesmo após 50 anos depois do evento. Além de Ivan Gomes e Euclides Pereira, outros lutadores merecem ser citados como Valdemar Santana, Takeo Yano, Jurandir e Jairo Moura, Aderbal Bezerra, Pinheirão, Fidelão, José Gomes, Irmãos Tairovich, Hilário Silva, Diderot Ribeiro, Sales, Índio, Bernardão, Pantera do Ring, Touro Novo, entre outros.

JC - O que você pode falar sobre o nível dos atletas? Em que degrau da história do esporte estão os grandes ídolos do Ring Torre, como Euclides Pereira e Ivan Gomes?
FÁBIO
- Os atletas não possuíam dietas balanceadas, suplementos e muito menos equipes com especialistas em várias disciplinas. As bolsas “magras” não permitiam que os lutadores vivessem exclusivamente do esporte e a maioria dos lutadores tinham outra atividade, além de dar aulas de artes marciais. Alguns lutadores já haviam treinado com professores da Academia Gracie e participado de eventos no Rio de Janeiro e já tinham boa técnica. Mas através de depoimentos de testemunhas da época, é possível afirmar que o nível técnico evoluiu rapidamente e o programa TV Ringue foi responsável por fomentar essa evolução. Quanto aos ídolos da época, não seria exagero dizer que Euclides Pereira e Ivan Gomes foram os maiores lutadores de vale-tudo do Brasil produziu. Afirmo isso, mesmo comparando os dois com talentos como Carlson Gracie e mais recentemente Anderson Silva. Basta levar em consideração a falta de estrutura adequada, a quase ausência de regras para garantir a integridade do lutador e principalmente o número de lutas, que em muitos casos era quase semanal. A obstinação desses heróis era admirável e apesar de eles serem ídolos na época, acredito que a nova geração não os valorizou de forma que merecem.

JC - Quais as semelhanças e diferenças em relação ao UFC?
FÁBIO
- As diferenças mais marcantes eram a proporção das bolsas, estrutura do evento e alcance de público que estava longe da grandiosidade dos shows atuais. Já existia uma pequena preocupação com regras para conter a violência. A principal delas proibia o uso de socos de mão fechada. Porém, em pouco tempo os lutadores encontraram um modo de  compensar essa limitação e começaram a usar a “escala” que era um golpe de mão aberta. O golpe era praticado em sacos de areia e a base da palma da mão acabava por ter quase a mesma violência dos socos. Pode-se dizer que o TV Ring Torre tinha os mesmos princípios que o UFC, mas em escala muito menor.



JC - O que te levou a estudar o Ringue Torre?
FÁBIO
- Há algum tempo venho fazendo um trabalho de pesquisa sobre a introdução do jiu-jítsu, judô e vale-tudo no Brasil, além de resgatar a memória dos primeiros mestres responsáveis por essa introdução. Inexplicavelmente a internet não possuía nenhum site que abordasse a história desses pioneiros da forma que eles merecem. Como colaborador e colunista de vários sites, comecei então a contar a história de cada um desses lutadores e professores até chegar a alguns nomes importantes do Norte/Nordeste. Invariavelmente todos os mestres pioneiros dessa região participaram como lutadores ou treinadores desse evento. Foi então que percebi que, apesar de ser um evento pouco conhecido pela nova geração, o TV Ringue foi uma prévia do fenômeno que hoje conhecemos como MMA.

JC - A memória do programa é escassa. Que fontes você buscou? Como foi essa apuração? Você seria um dos maiores estudiosos do assunto no Brasil?
FÁBIO
- As primeiras fontes de pesquisa foram os depoimentos dos lutadores da época. Apesar do programa ter sido transmitido durante aproximadamente dois anos, não sabemos se existem vídeos gravados. Passei a estimular os alunos desses lutadores a resgatar jornais e cartazes mostrando que esse acervo valorizava os mestres e os lutadores de sua região. É um quebra-cabeça que aos poucos vai sendo montado. Não posso dizer que sou o maior estudioso, mas com certeza tenho me dedicado bastante, em alguns casos mais que familiares e alunos de atletas da época que demonstram pouco interesse em ajudar. Recebo ajuda de outros pesquisadores e trocamos informações e acervos. Acredito que minha maior satisfação tenha sido trazer à tona na internet e revistas especializadas nomes que estavam quase esquecidos.

JC - Acredita que isso reforça que somos um país sem memória?
FÁBIO
- Não há dúvida. Infelizmente o povo brasileiro sempre demonstrou a falta de memória não só no universo das lutas, mas também em outras áreas como na escolha de políticos, na idolatria de "artistas" que possuem um passado no mínimo vergonhoso e em muitas outras áreas. É realmente uma pena, mas estou fazendo minha parte para tentar reverter isso, pelo menos nas artes marciais.

JC - Além do TV Ring Torre, que outros eventos e competições podem ser colocados como pioneiros do vale-tudo no Brasil?
FÁBIO
- As primeiras transmissões de lutas aconteceram na Rede Tupi de São Paulo em 1950 e na TV Tupi do Rio de Janeiro em 1951. Foram desafios organizados pro Carlos e Hélio Gracie, nos quais lutadores da Academia Gracie enfrentavam estivadores e homens fortes. Algum tempo depois, veio o programa Heróis do Ring, também organizado por Carlos e Hélio Gracie e transmitido pela TV Continental no Rio de Janeiro. No início dos anos 60, veio o TV Ringue Torre e isso alavancou eventos semelhantes em outras cidades do Norte e Nordeste, que apesar da importância, não foram transmitidos pela TV. No máximo, eram citados nos telejornais locais. No início da década de 70, o mestre Jurandir Moura gravou alguns programas ensinando jiu-jítsu e defesa pessoal na TV Brasília, mas não permaneceu muito tempo no ar. Nos anos 80 e 90, alguns eventos de vale-tudo chegaram a ser transmitidos, mas por alguns incidentes violentos sofreram duras críticas, inviabilizando uma frequência maior na programação. Atualmente o MMA alcançou um lugar ao sol e esperamos que consiga manter uma evolução saudável e contínua.





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