Jornal do Commercio
COTAS, UM PAÍS DIVIDIDO

Cai por terra o mito do mau desempenho

No segundo dia da série de reportagens sobre o novo sistema de cotas, o Jornal do Commercio apresenta estudos, em Pernambuco e no Brasil, que ? ao contrário do que dizem os críticos da política afirmativa ? revelam que os alunos cotistas apresentam desempenho positivo na universidade

Publicado em 27/08/2012, às 06h30

A professora Ana Fontes (E) com Bruna Santos, aluna cotista que cursa ciências contábeis na UFPE: desempenho positivo comprovado / Rodrigo Lobo/JC Imagem
A professora Ana Fontes (E) com Bruna Santos, aluna cotista que cursa ciências contábeis na UFPE: desempenho positivo comprovado
Rodrigo Lobo/JC Imagem
Wagner Sarmento

Pesquisa realizada pelo Centro de Ciências Sociais Aplicadas (CCSA) da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) derruba um dos principais argumentos de quem se posiciona contra o sistema que reserva vagas a alunos das escolas públicas: o mito do baixo desempenho dos cotistas na jornada acadêmica. O estudo, desenvolvido pela professora de ciências contábeis Ana Fontes e feito com 90 universitários que ingressaram pelo sistema de bônus instituído pela UFPE em 2005, revela que os cotistas têm média de 8,8 ao longo do curso, considerada alta. O levantamento, pioneiro no Estado, vai ao encontro de outras pesquisas pulverizadas Brasil afora que mostram que o jovem beneficiado pelo sistema de cotas tem condições de desenvolver um aprendizado satisfatório, apesar das deficiências do ensino básico na rede pública.

Ana Fontes atua desde 2005 como coordenadora de tutoria do Programa de Educação Tutorial (PET) Conexões de Saberes, desenvolvido em 32 universidades federais brasileiras e voltado para estudantes de origem popular. O estudo envolveu cinco grupos de 12 bolsistas e seis voluntários, que entraram na UFPE com a ajuda do bônus de 10% conferido a egressos da rede pública no vestibular. A pesquisadora avaliou as notas tiradas por eles ao longo da graduação e chegou aos 8,8, coeficiente bem acima da média de aprovação, que é 7.

Bruna da Silva Santos, 18 anos, aprovada no vestibular de ciências contábeis graças ao bônus de 10% para egressos da rede pública, tem média de 8,5, uma das melhores da turma do terceiro período. “Senti alguma dificuldade no começo, sobretudo em cálculo, mas a gente procura reforçar o estudo para superar essa carência inicial”, conta.

A professora pernambucana explica que os alunos recebem uma bolsa federal mensal no valor de R$ 360 e dependem do currículo satisfatório para manutenção do benefício – eles são submetidos a avaliações semestrais. “Temos por exemplo dois alunos de medicina, que é um curso que exige mais, e também gente de exatas e humanas. A média verificada foi muito alta, o que mostra que a questão do baixo desempenho não existe”, observa.

A professora afirma que o interesse demonstrado pelos alunos provenientes da rede pública é, via de regra, superior ao apresentado pelos não cotistas. “Noto um comprometimento maior dos estudantes de origem popular. Eles sabem que lutaram muito para chegar até a universidade e por isso se dedicam mais, valorizam mais o curso”, acredita.

O levantamento do CCSA também traçou um perfil socioeconômico dos cotistas: eles normalmente entram na universidade no terceiro vestibular, são os primeiros filhos a cursar o ensino superior e seus pais só completaram o ensino fundamental. “Nasceu uma nova geração que rompeu paradigmas numa questão fundamental que é o acesso à educação superior”, frisa. “Trabalhamos com a formação integral do estudante. Nosso objetivo é que ele realize atividades de extensão e tenha um currículo diferenciado. Tive alunos que já fizeram pós-graduação, mestrado e estão cursando doutorado”, pontua.

EXEMPLO

É o caso de Edilson Carneiro da Silva, 39 anos. Ele sempre foi aluno de escola pública, se formou em geografia na UFPE e há seis meses cursa mestrado na Universidade Federal de Sergipe (UFS). “A gente da rede pública até entra na universidade num nível inferior em relação aos alunos de colégios particulares, mas compensa isso com mais esforço e conclui o curso com um desempenho até melhor”, diz.

Carneiro confirma o perfil socioeconômico traçado na pesquisa de Ana Fontes. É filho de mãe analfabeta e pai só com ensino fundamental completo, passou no vestibular na terceira vez que tentou e, mesmo sendo o caçula da família, foi o primeiro dos quatro irmãos a entrar na UFPE.
O pernambucano foi morar no começo do ano em Aracaju, onde cursa mestrado, defendendo a tese
Territorialidade da pesca artesanal de mar de dentro e mar de fora em Brejo Grande (SE). Recebe bolsa de R$ 1.350 para se manter, mora sozinho e afirma que sua história vencedora serve de exemplo para os novos alunos que sairão da rede pública para realizar o sonho de cursar uma universidade federal. “Minha trajetória é um estímulo a mais para eles. Cada um tem que vencer a barreira do preconceito e construir a sua história”, frisa.

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