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ARQUITETURA

Niemeyer e Joaquim Cardozo: harmonia entre os opostos

O engenheiro e poeta pernambuco foi parceiro de Niemeyer em alguns dos seus principais projetos, como a Pampulha e Brasília, e foi fundamental para que suas obras fizessem justiça ao projeto original

Publicado em 06/12/2012, às 11h56

O poeta e engenheiro pernambucano Joaquim Cardozo / Fundação Oscar Niemeyer
O poeta e engenheiro pernambucano Joaquim Cardozo
Fundação Oscar Niemeyer
Diogo Guedes

Foi preciso um raro caso de engenheiro poeta para corresponder, ao mesmo tempo, às certezas e às dúvidas das formas de Oscar Niemeyer. O pernambucano Joaquim Maria Moreira Cardozo (1897-1978) era preciso e poético, exato e curvilíneo, calculista e intuitivo, exatamente o parceiro que o arquiteto carioca precisava para algumas de suas maiores empreitadas como projetista. Na verdade, talvez o que Cardozo tivesse mais em comum com Niemeyer era justamente a certeza de que todas essas oposições eram falsas: engenharia, arquitetura e poética sempre estiveram ali, esperando para ser conciliadas.

Os dois ficaram amigos na década de 1940, quando tanto Niemeyer já se estabelecia como expoente da arquitetura moderna brasileira como Cardozo já acumulava experiência como engenheiro, atuando no Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Sphan), no Rio.

Já nesse período, o pernambucano participou do cálculo de um dos principais projetos de Niemeyer, o Conjunto Arquitetônico da Pampulha (1944). Para o arquiteto e acadêmico Frederico de Holanda, autor de Oscar Niemeyer: de vidro e concreto, esse trabalho funcionou como uma espécie de revolução na arquitetura brasileira. “Niemeyer insere na arquitetura moderna uma dimensão poética que até então ela não tinha. Antes, as formas usadas eram as formas puras, mais icônicas. A partir da Pampulha, Niemeyer passa a criar formas memoráveis, impactantes”, aponta o pesquisador.

Cardozo e Niemeyer se tornaram parceiros porque, antes de tudo, compartilhavam da noção de que o trabalho arquitetônico era planamente artístico – algo quase impossível para os outros engenheiros da época. O poeta pernambucano – para o amigo carioca, o brasileiro mais culto que conheceu – não olhava para um projeto a fim de condicioná-lo ao utilitarismo ou para usar as soluções mais convencionais e baratas: não eram os traços de Niemeyer que se adaptavam ao estabelecido para as construções, mas sim os materiais e a matemática que estavam a serviço dos projetos.



Isso pôde ser visto na construção de Brasília. A engenharia da época usava apenas 6% de barras de ferros nas estruturas de concreto. Para as colunas do Palácio da Alvorada, ele incluiu 20% do material envolto em concreto, forma de conseguir sustentar as colunas da edificação. Terminou gerando uma das maiores ousadias e avanços da engenharia brasileira.

“Existe uma lenda de que, um dia, Cardozo bateu na porta de Niemeyer às 2h da manhã e acordou o colega só para lhe dizer: ‘Eu achei a tangente!’”, conta o poeta cearense radicado em Pernambuco Everardo Norões, organizador das obras completas de Joaquim Cardozo. “É impressionante notar que os cálculos mirabolantes para erguer Brasília foram feitos à mão – não existiam computadores ainda”, completa o pesquisador.

Para Norões, Cardozo nunca recebeu o merecido destaque por seus esforços matemáticos (e poéticos) na construção da capital federal. Em 1971, ainda sofreu um baque de que nunca se recuperaria completamente: durante a construção, o Pavilhão da Gameleira, em Belo Horizonte, desabou, matando 69 operários. Cardozo foi condenado em 1974, em primeira instância, por erro de cálculo, sendo absolvido posteriormente por recurso. O problema é que nunca se recuperou do peso da acusação: amigos costumam contar que ele chorava todos os dias. “Ele nunca mais foi o mesmo até sua morte, em 1978”, lamenta Norões.


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