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ARQUITETURA

Parque Dona Lindu, legado de Niemeyer no Recife

Projeto que gerou muita polêmica é a única obra do arquiteto na cidade

Publicado em 06/12/2012, às 07h02

A falta de verde na área de lazer foi a principal crítica ao parque, que hoje conquistou a população / Ricardo B. Labastier/JC Imagem
A falta de verde na área de lazer foi a principal crítica ao parque, que hoje conquistou a população
Ricardo B. Labastier/JC Imagem
Wagner Sarmento

 

Um pedaço da história de Oscar Niemeyer está no Recife. O Parque Dona Lindu, encravado na beira-mar de Boa Viagem, na Zona Sul, foi uma de suas últimas obras – e também uma das mais polêmicas. Se Niemeyer é aclamado de forma unânime como maior arquiteto brasileiro de todos os tempos, o Dona Lindu passa longe da aceitação geral. Ainda morava num pedaço de papel e já recebia duras críticas do povo pernambucano, sobretudo de moradores de Boa Viagem, que reclamavam que o parque tinha muito concreto e pouco verde. Após o projeto original sofrer modificações pelo autor, o desagrado de uma parcela da população permaneceu incólume, enquanto outra parte se rendeu à obra, maior legado de Niemeyer no Estado.

O Dona Lindu, inaugurado em 26 de março do ano passado, tinha orçamento inicial de R$ 18 milhões, mas custou R$ 37 milhões. Erguido numa área de 33 mil metros quadrados, começou a ser construído em 2008, num terreno da Aeronáutica cedido ao município pelo governo federal, mas se arrastou em ações judiciais impetradas por associações de moradores e demorou quase mil dias para ser finalizado.

O nome do parque é uma homenagem à mãe do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, responsável pela cessão do terreno.

A escolha de Niemeyer como idealizador do projeto partiu do então prefeito João Paulo (PT). “Pensei em Niemeyer, por ser o maior arquiteto do Brasil e um dos maiores do mundo. Viajei a Brasília para conversar com ele e ele aceitou na hora. Mesmo muito atarefado e com a idade avançada, se prontificou a fazer o projeto. Niemeyer só me pediu uma coisa: que eu cuidasse do parque para que ele não ficasse abandonado”, lembra o petista, hoje deputado federal.

A maior crítica feita ao Parque Dona Lindu recai sobre a falta de área verde, que seria ofuscada pelas construções, sobretudo o Teatro Luiz Mendonça. “Niemeyer é um arquiteto de edificações, e não um paisagista. Não considero o Dona Lindu um parque, pois não atende a um projeto de parque, com solo natural, com mais árvores, como as pessoas queriam. É, na verdade, um centro cultural. Há um choque de conceitos”, afirma a coordenadora do Laboratório da Paisagem do Departamento de Arquitetura e Urbanismo (DAU) da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Ana Rita Sá Carneiro.



De acordo com as informações oficiais da Prefeitura do Recife, o parque tem 60% de área verde. O monumento arquitetônico abriga ainda playground, ciclovia, pista para prática de cooper e skate, quadra poliesportiva, área para descanso e ginástica, pavilhão para exposições, restaurante, sanitários, fraldário e central técnica.

O arquiteto e urbanista José Luiz Mota Menezes, vice-presidente do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano (IAHGP), ressalta a importância para o Recife de contar com uma obra assinada por Oscar Niemeyer, que já tinha monumentos em outros capitais nordestinas como Natal (Parque da Cidade Dom Nivaldo Monte, inaugurado em 2008, mas ainda hoje inacabado) e João Pessoa (Estação Cabo Branco).

Mota Menezes pondera que o problema do Dona Lindu não está no projeto de Niemeyer, mas na adequação do monumento ao local onde foi erigido. “O desastre foi a escolha do lugar. É natural que, pela idade, Niemeyer não tivesse mais condição de viajar e ver de perto a área onde o parque ficaria. Se tivesse observado de perto, acho que ele não projetaria do jeito que fez para um espaço tão exíguo”, acredita. “As obras de Niemeyer têm de ser vistas a distância. É o caso da Praça dos Três Poderes, em Brasília, e os prédios em sua volta. No Dona Lindu, os objetos caem na sua cabeça, fica tudo em cima”, compara. A melhor visão do parque, ele salienta, é de dentro do mar. Só de lá é possível entender e admirar o Dona Lindu em sua completude.

Quase dois anos após sua inauguração, no entanto, o Parque Dona Lindu riscou a página das polêmicas e traçou sua presença no cotidiano do Recife. Recebe todos os dias famílias, turistas, banhistas e esportistas, sepultando o passado recente que colocava em dúvida seu papel como espaço de lazer e entretenimento. “Quando você entra naquele universo arquitetônico, você se surpreende. As obras de Niemeyer criam uma atmosfera única, que contamina as pessoas. O interior do parque traz toda a genialidade e os traços típicos dele. E desperta sentimentos de conforto, respeito e efusão. Isso, para uma pessoa de mais de 100 anos, é para lá de louvável”, pontua o vice-presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo de Pernambuco (CAU-PE), Marcos Germano. “Queriam ali uma grande árvore que dá uma grande sombra, mas o que Niemeyer viu foi um espaço de congraçamento do povo, que não deixa de contemplar uma área verde. O tempo dará a devida dosagem de reconhecimento. É um orgulho para qualquer cidade ter uma obra de Niemeyer”, arremata.

João Paulo acredita que tudo não passou de jogo político. “Foi um sofrimento terrível. A oposição jogou muito duro. Foi um dos maiores absurdos e uma das maiores injustiças contra Niemeyer. Ainda bem que agora isso está superado e o Dona Lindu é um sucesso”, afirma. O ex-prefeito salienta que o parque é a obra de Niemeyer com maior área verde.

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