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'Situação é gravíssima', diz especialista sobre ataque ao Irã provocado por Trump; confira análise

Nessa quinta-feira (2), o presidente Donald Trump ordenou um bombardeio que causou a morte do general iraniano Qasem Soleimani; Líder do Irã prometeu 'retaliação severa'

Publicado em 03/01/2020, às 10h36

Na manhã desta sexta-feira, 3, milhares de iranianos seguram cartazes contra os Estados Unidos durante manifestação no Teerã, capital do Irã / Foto: ATTA KENARE / AFP
Na manhã desta sexta-feira, 3, milhares de iranianos seguram cartazes contra os Estados Unidos durante manifestação no Teerã, capital do Irã
Foto: ATTA KENARE / AFP
Katarina Moraes

Um bombardeio com mísseis provocado pelos Estados Unidos à mando do presidente Donald Trump causou a morte de ao menos oito pessoas, incluindo o poderoso general iraniano Qasem Soleimani, no Aeroporto de Bagdá, na noite dessa quinta-feira, 2. Após a ação, o líder supremo do país oriental, o aiatolá Ali Khamenei, prometeu "retaliação severa" como resposta.

Desde então, o assunto domina as redes sociais e jornais de todo o globo, a partir de especulações acerca da eclosão de uma Terceira Guerra Mundial e do temor sobre eventual participação do Brasil no conflito entre os países. Para responder tais questionamentos, o cientista político e internacionalista Thales Castro compôs a mesa do Passando a Limpo, na Rádio Jornal, na manhã desta sexta-feira, 3.


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Análise

Gravidade

Para o especialista, 'a situação é gravíssima'. "A resposta [do Irã] será inflamada e podemos esperar uma precarização das relações intra e extra oriente médio, pela forma de atos de terrorismo contra os Estados Unidos e contra alvos americanos", disse. Thales acredita, ainda, que o Irã também procurará o "reaquecimento do seu programa nuclear de maneira desenfreada".

No Twitter, Ali Khamenei citou que o país americano terá como resposta uma 'Jihad', conceito da religião islâmica que significa um empenho, esforço ou luta. "Para qualquer ataque, afronta, ridicularização, há um mandato direto no alcorão que autoriza um tipo de empenho individual e coletivo contra as forças que praticaram tal ato", explicou Thales Castro.

Negociação?

Acerca de possível abertura de diálogo entre o Irã e os Estados Unidos, Thales acentua: "não vejo qualquer possibilidade de negociação". "As regras do jogo são ostensivamente agressivas, não são de diálogo mas sim da força. Acho que as embaixadas americanas no Oriente Médio estarão com o nível de segurança [reforçado] e se elas não forem alvo, cidadãos ou empresas serão", alertou.

Para ele, não dá para ignorar a força do Irã. "Estamos falando de um país com 87 milhões de habitantes, fortemente armado e que tem o fundamentalismo islâmico xiita como doutrina de fé e de relações políticas e sociais. Então acho que, agora, o jogo diplomático acabou", enfatizou o cientista.

» EUA, Irã e Iraque: entenda os eventos recentes que culminaram em ataque ordenado por Trump

Brasil

Desde o início do mandato do presidente Jair Bolsonaro, o governo brasileiro já acenou diversas vezes ao líder americano Donald Trump. Porém, o internacionalista explica que o Brasil "dará certo apoio aos Estados Unidos nos bastidores", porque há um "alinhamento com o país", mas é uma situação delicada, pois o "Irã tem um vínculo de comércio" com o Brasil.

"É uma situação delicada. O Brasil sabe que não pode expressar esse apoio de maneira aberta [aos Estados Unidos] porque pode sofrer retaliações, não só no campo do petróleo mas principalmente no agronegócio e em outros temas sensíveis para a balança comercial brasileira", expõe Thales.

Nas redes sociais, os internautas pedem que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) não se pronuncie acerca do bombardeio. As hashtags #BolsonaroFicaCalado e #BolsonaroFicaQuieto estão em segundo e em quinto lugar nos assuntos mais comentados pelos brasileiros no microblog, até a publicação dessa reportagem. Em primeiro lugar, está 'Trump', o presidente dos Estados Unidos.



ONU

Quando perguntado acerca da possibilidade de interferência das Nações Unidas no conflito, o cientista político afirma que uma reunião de emergência do conselho de segurança da ONU deve ser convocada, mas que vê "uma neutralização do conselho, porque entre os cinco países permanentes, três exercem um veto pró-ocidente (França, Reino Unido e Estados Unidos) e outros dois pró-oriente, China e Rússia, que devem tender para o lado iraniano".

Entenda

O enviado do Irã para assuntos iraquianos, o poderoso general Qasem Soleimani, e um comandante pró-Irã morreram nessa quinta-feira, 3, em um bombardeio americano em Bagdá, o que provocou pedidos de vingança da República Islâmica e aumentou os temores de um conflito aberto entre Washington e Teerã.

O general Soleimani era responsável pelas questões iraquianas no exército ideológico do Irã, enquanto Abu Mehdi al Muhandis, que tinha dupla cidadania iraquiana e iraniana, era o número dois das Forças de Mobilização Popular, ou Hashd al Shaabi, uma coalizão de paramilitares majoritariamente pró-Teerã integrados ao Estado iraquiano.

Pouco depois de suas mortes, o Pentágono anunciou que o presidente americano, Donald Trump, deu a ordem para "matar" Soleimani. Logo após, Trump publicou uma ilustração com a bandeira dos Estados Unidos em suas redes sociais.

"Esta é a maior operação de decapitação já realizada pelos Estados Unidos, maior que as que mataram Abu Bakr al Bagdadi ou Osama bin Laden", líderes do Estado Islâmico (EI) e da Al-Qaeda respectivamente, afirmou Phillip Smyth, analista americano especializado em grupos armados xiitas.

"Não há nenhuma dúvida de que a grande nação do Irã e outras nações livres da região se vingarão por este crime horrível dos criminosos Estados Unidos", afirmou o presidente iraniano, Hassan Rohani.

Para o ministro das Relações Exteriores do Irã, Mohamad Javad Zarif, esta é uma "escalada extremamente perigosa e imprudente". A diplomacia iraniana convocou o embaixador da Suíça, que representa os interesses dos Estados Unidos em Teerã.

Washington X Teerã

A morte de Soleimani marca uma forte escalada no impasse entre Washington e Teerã, que passou por diversas crises desde que o presidente americano, Donald Trump, se retirou do acordo nuclear de 2015 e impôs sanções ao país persa.

O assassinato, e uma eventual retaliação do Irã, podem acender um conflito que envolve toda a região, colocando em risco as tropas americanas no Iraque, na Síria e em demais territórios.




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