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SANTO PADRE

Sobrevivente de abuso sexual nos EUA pede ação do papa Francisco

O papa Francisco reconheceu neste sábado na Irlanda sua "vergonha" diante do fracasso da Igreja por não ter enfrentado adequadamente os "crimes ignóbeis" do clero

Publicado em 25/08/2018, às 13h46

O papa Francisco reconheceu neste sábado na Irlanda sua
O papa Francisco reconheceu neste sábado na Irlanda sua "vergonha" diante do fracasso da Igreja por não ter enfrentado adequadamente os "crimes ignóbeis" do clero
Foto: AFP
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Shaun Dougherty está "doente e cansado de ser enganado". Em plena visita do papa Francisco à Irlanda, o americano que sobreviveu aos abusos sexuais por parte de um padre, quer que o chefe da Igreja Católica ajude as vítimas a obter justiça.

Com raízes irlandesas, Dougherty, de 48 anos e proprietário de um restaurante em Nova York, diz que foi abusado e agredido sexualmente dos 10 aos 13 anos em uma escola católica em Johnstown, Pensilvânia.

Como muitos sobreviventes, está farto das declarações dos líderes da Igreja sem que se transformem em medidas concretas para responsabilizar os criminosos.

"O Vaticano e o papa, e o papa anterior, e o papa antes desse, emitiram declarações sobre isso", disse Dougherty à AFP. "O homem sentado aqui hoje está cansado de declarações. Eu estou cansado de ser enganado... quero ver ações".

O papa Francisco reconheceu neste sábado na Irlanda sua "vergonha" diante do fracasso da Igreja por não ter enfrentado adequadamente os "crimes ignóbeis" do clero.

"O fracasso das autoridades eclesiásticas - bispos, religiosos superiores, sacerdotes e outros - para tratar adequadamente estes crimes repugnantes provoca indignação e continua a causar sofrimento e constrangimento à comunidade católica. Eu mesmo compartilho esses sentimentos", declarou numa intervenção sobre esta questão.

"Espero que se exponha na Irlanda e fale de coração. Quero que diga o que, na condição de papa, fará!", declarou Dougherty, de barba grisalha e óculos.

Em campanha para mudar as leis americanas sobre crimes sexuais contra menores, ele quer que o Vaticano pare de pressionar para que não se estenda a lei de prescrição e que a lei seja aplicada retroativamente, e que as vítimas "tenham o que precisam para sobreviver".

"A ironia nessa situação é que, se um padre desperdiça dinheiro da igreja é processado de maneira firme", reclamou à AFP.

Dougherty se opõe a qualquer noção de impunidade para os padres pedófilos. Seu agressor era seu padre, professor de religião e treinador e ainda está vivo, com agora em torno de 60 anos. 



Agora aposentado, vive "a sete minutos de carro" da casa que Dougherty possui na Pensilvânia.

Ele foi transferido para outra paróquia após as primeiras denúncias públicas em 2012, e retirou-se quando novas acusações vieram à tona. Mas está em liberdade.

"Ele não está registrado como agressor sexual. Não passou nem um dia na cadeia. Recebe aposentadoria", denuncia Dougherty.

O oitavo de nove filhos de uma família católica praticante, Dougherty esperou ter 21 em 1991 para contar para a sua família sobre os abusos que ele e alguns de seus colegas sofreram nas mãos do padre.

Seus pais levaram anos para acreditar em suas palavras. Em 2012, ele falou pela primeira vez à polícia, depois de um apelo para que testemunhas se apresentassem quando o sacerdote foi acusado publicamente.

 "Pular do penhasco"

Dougherty trabalhou duro desde o ensino médio, passando de lavador de pratos a chef de cozinha, a dono de um café e finalmente construindo um restaurante com seu irmão. Mas avançar seis anos atrás foi uma decisão difícil.

"Perguntei a mim mesmo o que eu deveria fazer. Estava construindo um restaurante, valeria a pena voltar para a Pensilvânia e encarar a Igreja Católica? Seria como pular do penhasco".

Agora casado, ele diz que não se arrepende. Liderar uma campanha contra a Igreja enquanto administra um negócio pode ser difícil, mas sente "um senso de dever".

Todo mês ele organiza uma reunião em seu restaurante para sobreviventes de abusos sexuais por membros do clero para a rede de sobreviventes SNAP. Suas declarações públicas lhe renderam mensagens diárias de apoio de vítimas em todo o mundo.

Recentemente, um australiano o parabenizou, dizendo que, enquanto estava velho e morrendo, estava "muito feliz em ver pessoas novas" lutando por justiça.

Mas mesmo que o papa finalmente aja de forma decisiva, Dougherty diz que nunca mais voltará à Igreja. A última vez foi em 2014 para o funeral de seu pai em Saint Clement, Johnstown.

"Esse foi o dia mais difícil da minha vida. Quando acenderam o incenso, o cheiro... minha pele se arrepiou, as paredes pareceram se fechar... Eu queria literalmente arrancar a carne dos ossos e pular pela janela de vidro", disse ele.




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