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CHILE

Piñera descarta renúncia, enquanto protestos persistem

A avaliação negativa do governo de Piñera subiu para 78%

Publicado em 05/11/2019, às 22h04

O presidente do Chile, Sebastián Piñera / Foto: José Cruz/ABr
O presidente do Chile, Sebastián Piñera
Foto: José Cruz/ABr
AFP

O presidente do Chile, Sebastián Piñera, descartou renunciar ao cargo e admitiu, pela primeira vez, estar disposto a fazer uma reforma da Constituição herdada da ditadura de Augusto Pinochet, na tentativa de silenciar os protestos nas ruas do país, passados 20 dias.

Depois de ficar em silêncio por dias, Piñera deu uma entrevista à BBC de Londres, transmitida nesta terça, na qual disse que não renunciará, apesar dos multitudinários protestos antigovernamentais, marcados pela violência, com enfrentamentos que deixaram dois policiais feridos por bombas incendiárias na noite de segunda-feira.

"Não sou o único"

Ao ser perguntado pela jornalista Katy Watson sobre os pedidos de renúncia e se tomaria tal atitude, o presidente conservador respondeu de maneira simples: "Não". "Estes problemas se acumularam nos últimos 30 anos. Sou responsável por parte deles, e assumo minha responsabilidade, mas não sou o único", afirmou.

Em outra parte da entrevista, disse: "É claro que chegarei ao fim do meu governo. Fui democraticamente eleito pela grande maioria dos chilenos".

Os gritos de "Renuncie Piñera!" se repetem nas manifestações de rua.

O incidente violento desta terça-feira ocorreu em um colégio público de Santiago, onde duas estudantes ficaram feridas - sem gravidade - por disparos de escopeta (a distância) dos Carabineiros.

As estudantes tentaram ocupar o Liceu Feminino Número 7 para apoiar os protestos, e a diretora do colégio chamou a polícia, que ao que parece "utilizou indevidamente uma escopeta e feriu as jovens", informou um funcionário.

As estudantes foram levadas a um hospital e já receberam alta. 

Ainda nesta terça, cerca de 2 mil pessoas - segundo a intendência de Santiago - se concentraram na Praça Itália, epicentro das manifestações, e ocorreram incidentes isolados.

A Constituição prevê que se ocorre uma renúncia antes de faltarem dois anos para terminar o mandato, de quatro - Piñera fará 24 meses no poder em março próximo -, o presidente é substituído pelo ministro do Interior, que deve convocar novas eleições. Quem vencer essas eleições, assume o cargo até o final do mandato original. Em caso de uma renúncia faltando menos de dois anos, é o Congresso que deve decidir o nome do substituto.

Como opção para neutralizar a crise, Piñera também se mostrou aberto, pela primeira vez, a reformar a Constituição que data da ditadura de Pinochet (1973-1990).

"Estamos dispostos a discutir tudo, incluindo uma reforma da Constituição", disse o presidente.

Aprovada em 1980 em um plebiscito questionado, a Constituição foi um instrumento sob medida para que o regime de Pinochet e os setores conservadores pudessem manter seu poder, mesmo depois do fim da ditadura, em 1990. Hoje, este texto é apontado como a origem das desigualdades e da distância do mundo político em relação à sociedade chilena.

Seu ideólogo, Jaime Guzmán, assassinado por um comando de esquerda em 1991, estabeleceu um quórum muito alto para qualquer modificação substantiva da Carta Magna. 



Também estabeleceu uma série de detalhes considerados autoritários, entre eles, a impossibilidade de afastar os chefes das Forças Armadas. Este dispositivo foi retirado da Constituição apenas em 2005, após um acórdão político.

Em um aceno ao setor empresarial, Piñera anunciou um pacote de ajuda a 6.800 pequenas e microempresas, afetadas pela crise social e que foram cadastradas pelo governo. 

Um dos homens mais ricos do Chile, pertencente à elite que é alvo de reclamações de manifestantes que não abandonam as ruas, Sebastián Piñera, no poder desde março de 2018, viu sua imagem desmoronar devido a uma crise social sem precedentes

Piñera tentou enfrentar a crise nas ruas com um pacote de reformas sociais, que inclui um aumento de 20% nas aposentadorias básicas e uma redução nas contas de luz. 

Ele trocou oito de seus 24 ministros, incluindo seu chefe de gabinete e primo Andrés Chadwick, e seu ministro das Finanças, Felipe Larraín.

Mas suas medidas falharam em silenciar os protestos, e a violência tomou conta das ruas nos últimos dias. Na segunda-feira, após um feriado prolongado, várias manifestações foram realizadas no centro de Santiago e em outras cidades.

Na capital, milhares de pessoas se reuniram em frente ao palácio presidencial de La Moneda e na Praça Itália, no centro. O local é epicentro dos maiores protestos, incluindo o de sexta-feira, 25 de outubro, que reuniu mais de 1,2 milhão de pessoas.

Com tentativas pela manhã de retomar as atividades cotidianas da cidade, de tarde e de noite as cenas de violência entre manifestantes e a Polícia se tornam cada vez mais violentas, com fogueiras em vários pontos da cidade de sete milhões de habitantes.

Em meio à violência que tomou as ruas, a federação de futebol do Chile anunciou a suspensão de um amistoso com a seleção boliviana, que se soma ao cancelamento do campeonato local que dura semanas.

A crise derrubou a moeda chilena a seu menor valor desde março de 2003 nesta terça-feira, sendo cotada a 749 pesos o dólar, uma desvalorização de 1,8% em relação ao dia anterior.

Uma pesquisa do instituto Criteria revela que após três semanas de protestos, 79% dos chilenos acreditam que as mobilizações "terão consequências positivas e as coisas serão melhores no país".

Já a avaliação negativa do governo Piñera atingiu 78%, contra 55% do mês anterior. 




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