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SÍNDROME DE DOWN

Síndrome de Down: 'Não estava preparada para aquele preconceito escancarado'

A jornalista Juliana Preto é tia de Nandinho, 11 meses, que 'brinca e ri como qualquer criança' e é portador da síndrome de Down. No dia 21 deste mês, uma foto postada com a criança recebeu comentários que estão sendo investigados por injúria, feitos por uma blogueira recifense. Confira o texto de Juliana abaixo

Publicado em 30/03/2017, às 19h54

Ju e o sobrinho Nandinho, na foto postada em homenagem ao Dia Internacional da Síndrome de Down, celebrado em 21 de março / Foto: Reprodução/Facebook
Ju e o sobrinho Nandinho, na foto postada em homenagem ao Dia Internacional da Síndrome de Down, celebrado em 21 de março
Foto: Reprodução/Facebook
Juliana Preto

Quando soube que Cláudia estava grávida, fiquei super feliz. Mesmo com a família sendo enorme – meus avós tiveram nove filhos – por lá, sempre cabe mais um. Em nossas reuniões, sempre tem crianças correndo, brincando, rindo, sendo paparicadas. É assim que somos. É como fomos criados.

Cláudia teve uma gravidez tranquila e Nandinho se desenvolveu normalmente e saudável. Acompanhei de perto, como pude. Nandinho nasceu de parto normal no dia 28 de abril de 2016. Só aí soubemos que ele tinha Síndrome de Down.

Nenhum exame pré-natal detectou a síndrome. Quando soube, pensei “Cláudia vai tirar de letra”. Porque Cláudia tira de letra. Me lembro que ela disse “ele é meu filho”.

Pra que mais explicação?  Nandinho é filho de Cláudia e eles sempre estarão juntos. Essa força e esse amor se espalhou para todos nós.

Nandinho tem Síndrome de Down. E é isso. Ele brinca, ele ri, ele interage como toda criança. Síndrome de Down não é doença, é condição. A condição de Nandinho não define quem ele é hoje e quem ele vai ser no futuro.

Mas a gente sabe que nem todo mundo tá preparado para o diferente. E eu não estava preparada para enfrentar o preconceito assim, tão cedo.

Eu imaginava que poderia acontecer, uma coisa muito no campo das ideias. Postei a foto com Nandinho nas minhas redes sociais em homenagem ao Dia Internacional da Síndrome de Down. Pela inclusão. Pelo fim do preconceito. Foi um dia maravilhoso. Fizemos picnic, levamos outras crianças da família, brincamos. A foto foi feita por Cláudia. Eu e Nandinho brincando, sorrindo um para o outro. Achei tão linda que resolvi postar.



Dois dias depois da foto postada, Júlia resolveu fazer comentários.

Não tive ação. Não soube o que fazer. Reli inúmeras vezes a comparação que ela fez. Percebi ali que eu não estava pronta para aquele preconceito escancarado na minha frente. Na minha rede social. Gratuito. Tentei argumentar, mas o que escrevi não é, nem de longe, o que eu gostaria de ter tido a Júlia.

Ali, naquela hora, Júlia poderia ter aberto sua mente e seu coração para as diferenças que nos tornam pessoas únicas. Ali, eu acredito, ela poderia ter se tornado uma pessoa melhor. Escolher o melhor caminho. Mas ela escolheu o caminho do ódio, da infelicidade, do preconceito. Que triste caminho.

RESPOSTA MERECIDA CONTRA O PRECONCEITO

Cláudia deu a resposta que Júlia merecia. Eu mal dormi naquela noite. Júlia, de longe, me deu um tapa na cara. E eu fiquei sem ação. Cláudia, desde que virou mãe, estava pronta. Tirou de letra. Eu não conseguia entender o porquê de tanto ódio.

Nós – eu, Cláudia, tios, primos, amigos de Nandinho – estávamos mais preocupados em cultivar o amor, o respeito pelas diferenças. Eu achei que estava segura nessa bolha. O tapa de Júlia me acordou.

Toda essa história me abalou. Mas também me ensinou. Agora, além da mãe pronta pra brigar por ele, Nandinho tem uma tia que também vai tirar de letra. O meu desejo pra ele é amor e respeito.

Com isso, tenho certeza que Nandinho vai ser um homem de caráter. Se tivermos que brigar para que ele tenha seus direitos respeitados, estarei pronta. Para Júlia, eu desejo que ela entenda isso. Que o respeito é simples. Que o amor é simples. Simples como tudo o que importa no mundo.

 




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