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Editorial: O trabalho de renovação das fachadas de Olinda

O que poderia parecer apenas coisas de fachadas, sem maiores contribuições à memória da cidade, não é bem assim

Publicado em 06/06/2018, às 07h48

Resgate da história pelas cores é um desafio para a prefeitura de Olinda
 / Foto: Hélia Scheppa/ Arquivo JC
Resgate da história pelas cores é um desafio para a prefeitura de Olinda
Foto: Hélia Scheppa/ Arquivo JC
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A polêmica entre Prefeitura e moradores da Rua do Bonfim, Olinda, em torno de dois postes no caminho dos trabalhos de restauração da Igreja do Bonfim, é uma indicação possível para se começar a entender o sentimento diferenciado de quem vive ou passa por uma das mais antigas cidades do Brasil e compartilha sua formação urbana, sua história. Outra rota para se entender essa afeição é a parceria que fazem moradores e poder público municipal para reavivar as cores do tempo desta cidade cuja beleza tem o aval de muitos poetas.

Esse modo diferenciado de ver faz de Olinda, em seu Sítio Histórico, uma das cidades brasileiras que se bastam como atração para os olhos e emoção de viajantes, em suas ladeiras emolduradas pelo casario que preserva lembranças mais antigas de Pernambuco. É um pouco desse sentimento que está fazendo a Secretaria de Patrimônio e Cultura se meter na privacidade dos moradores para, em mútuo acordo, resgatar as cores do tempo através do projeto Pinte seu Patrimônio, um trabalho de renovação das paredes externas das casas. Pintar a casa costuma ser em qualquer parte uma atividade privativa do dono dela ou de quem a habita, mas em Olinda é, também, uma possibilidade que os moradores têm de compartilhar a responsabilidade de preservar a história.



Trabalho

Nesse trabalho a Prefeitura como que presta contas ao título de Patrimônio da Humanidade mas, também, rende tributo a um dos maiores poetas que Pernambuco já teve, Carlos Pena Filho, que deixou versos definitivos para dizer o que a cidade é: “Olinda é só para os olhos, não se apalpa, é só desejo. Ninguém diz: é lá que eu moro, diz somente: é lá que eu vejo”. O mais importante da cidade é que essa perspectiva não é privativa dos poetas, mas de todos que por ela passam. O que levou Gilberto Freyre a recomendar, lá pelos anos 30 do século passado, que o visitante, o turista, não deixasse de ver as casas velhas, os sobrados “cheios de reminiscências da antiga vida patriarcal do Brasil, tão penetrada de influências mouras ou mouriscas”.

O que poderia parecer apenas coisas de fachadas, sem maiores contribuições à memória da cidade, não é bem assim. Já foram constatados depoimentos que associam essa atividade aparentemente fortuita a algo bem mais profundo, como seu deu com uma moradora atendida pelo projeto. Como o trabalho não consiste apenas em jogar tinta nova sobre as paredes, mas fazer uma prospecção, buscar as cores do passado, a moradora ficou sabendo que seu avô lusitano, antigo proprietário do imóvel, pintava a fachada com as cores da bandeira de Portugal. Dessa forma é que o poder público municipal persegue o propósito de preservar o patrimônio investindo para que o passado torne Olinda no presente e no futuro ainda mais bonita para visitantes e moradores. Para os de hoje, cabe esperar o avanço do projeto Pinte seu Patrimônio, porque fica difícil imaginar a parte histórica da cidade mais bonita do que é.


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