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Editorial: A falta de representatividade das instituições no Brasil

A falta de confiança coletiva nas instituições emerge como dado inegável, a partir do desabastecimento que se seguiu ao bloqueio das estradas

Publicado em 07/06/2018, às 07h24

A falta de representatividade das instituições no Brasil aflorou com inequívoca evidência durante a recente paralisação dos caminhoneiros / Foto: Arnaldo Carvalho/JC Imagem
A falta de representatividade das instituições no Brasil aflorou com inequívoca evidência durante a recente paralisação dos caminhoneiros
Foto: Arnaldo Carvalho/JC Imagem
JC Online

A falta de representatividade das instituições no Brasil aflorou com inequívoca evidência durante a recente paralisação dos caminhoneiros. Mobilizados entre si, com o auxílio determinante da tecnologia de comunicação condensada em aplicativos de conversa de grupos pelo celular, os caminhoneiros conseguiram realizar o mais eficiente movimento paredista das últimas décadas. Sem apoio de estruturas partidárias, sem depender de sindicatos nem de lideranças políticas com renome nacional, os motoristas de transporte de cargas que conduzem a economia brasileira na caçamba resolveram parar... e pararam o País. E ainda contaram com o apoio de parcela considerável da população, identificada tanto pela reivindicação de redução do preço dos combustíveis, quanto pela forma de expressar sua indignação: sem ser refém, aparentemente, de ninguém.

Na reportagem assinada por Angela Fernanda Belfort e Paulo Veras, que o JC publicou no domingo, a falta de confiança coletiva nas instituições emerge como dado inegável, a partir do desabastecimento que se seguiu ao bloqueio das estradas. Veio primeiro o desabastecimento institucional. “O brasileiro está se cansando de buscar representatividade dos seus interesses nas instâncias tradicionais”, afirmou a cientista política Priscila Lapa. A semelhança do blecaute no transporte rodoviário com os movimentos de rua de 2013 reforça a trajetória de inquietação geral diante de incertezas que não são mais delegadas a partidos, sindicatos e políticos. A pluralidade de queixas e demandas de cinco anos atrás continua, revelada a convergência da impaciência diante da alta dos combustíveis. Mas, como não é apenas pela gasolina, ou pelo diesel, pode-se cogitar outros levantes, ameaçando a incipiente recuperação da economia nacional, a poucos meses das eleições.  



Mobilização

A agilidade na mobilização dos caminhoneiros contrastou com a vagareza burocrática que esbarra em dificuldades para lidar com movimentos pulverizados, organizados via redes sociais. A estrutura de negociação dos governos no Brasil não chegou à era da disrupção digital. Os sistemas governamentais ainda acreditam na influência de lideranças tradicionais, enquanto os novos manifestantes compartilham ações e reações que descredenciam ou simplesmente ignoram tais lideranças. A vulnerabilidade conjunta da sociedade e do setor público, gerada pela nova era das manifestações, lança pressão sobre as bases da governabilidade. E da própria democracia, embora a revolta disruptiva seja um efeito da democratização dos meios de comunicação, no seio da evolução do modelo democrático.  

O risco é que o baixo nível de representatividade política enfatizado pelos caminhoneiros encontre um papel a cumprir no confuso quadro eleitoral deste ano. Com os principais partidos em segundo plano, e sem personagens dominantes na corrida presidencial, abre-se a perspectiva de aproveitadores da ocasião, com discursos radicais e promessas de apelo populista.


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