Jornal do Commercio
Centenário: Jornal do Commercio

A formação de leitores

Um jornal tem papel fundamental na formação de leitores. A leitura não só leva ao conhecimento dos fatos como aprimora a escrita

Publicado em 03/04/2019, às 01h10

Jornais são fontes permanente de memória, destaca Margarida Cantarelli / Foto: JC Imagem
Jornais são fontes permanente de memória, destaca Margarida Cantarelli
Foto: JC Imagem
Margarida Cantarelli

O centenário de um Jornal exige uma reflexão sobre o papel que exerceu por tão largo tempo, numa sociedade. Qual a contribuição que deu na transmissão das informações, na formação de opiniões, na interpretação dos fatos políticos, econômicos ou sociais? Como incentivou a cultura através dos artigos, crônicas e cadernos especializados? Acompanho a trajetória do Jornal do Commercio há muitas décadas, desde o tempo do jornalista e amigo Esmaragdo Marroquim. Num século tão efervescente como foi o século 20 e não menos intenso como essas décadas iniciais do século 21, o Jornal do Commercio conseguiu ultrapassar as contingências da sua história e alcançou um patamar de respeitabilidade e qualidade que o coloca dentre os melhores jornais brasileiros.

Mas há outros papéis que um jornal desempenha embora menos perceptíveis e que são da maior relevância para a cidadania. Destaco a formação de leitores. Não podemos perder de vista uma característica fundamental dos jornais que é conter principalmente textos escritos e que, por óbvio, atraem os leitores. Pode-se dizer fidelizam os leitores. A leitura leva não só ao conhecimento dos fatos, que até poderia ocorrer por outros meios, mas também aprimora a escrita. Tudo isto ocorre de maneira natural, espontânea, abrindo horizontes, despertando vocações.

O mundo vem se transformando numa velocidade nunca antes vista graças à tecnologia, às vezes até desconcertante e que atingiu fortemente as comunicações. A instantaneidade da divulgação de fatos ocorridos até do outro lado do mundo torna difícil acompanhá-los pelos meios tradicionais. Esse novo tempo leva a um repensar de como adequar os jornais sem lhes retirar a sua forma escrita de comunicação.

O hábito da leitura adquirido por tantas pessoas desde a juventude através dos jornais garantirá a sua permanência, mesmo que a forma de apresentação seja nova


A história da humanidade mostra que a escrita foi o modo mais eficaz de perpetuar o registro dos fatos, quer tenham sido gravados na pedra, em lâminas de prata ou de bronze, em papiros, em pergaminhos até chegarmos ao papel de hoje. Uma longa caminhada! Agora, estamos frente ao desafio de encontrar uma nova forma sem esquecer o antigo, pois será sempre válido o brocardo: verba volant, scripta manet.

A necessidade de permanência da escrita nos conduz a outro patamar de observação, pois haverá sempre quem leia, formando-se uma forte relação de reciprocidade: está escrito para que permaneça e é lido para ser conhecido. A busca da permanência inerente ao ser humano levará sempre os leitores à procura dos registros fatos tanto históricos como do cotidiano, e os jornais servem também como fontes permanentes para a pesquisa nas mais diversas áreas.

Com relação aos jornais, convém ainda mencionar que há várias histórias de um passado não muito distante e outras que ainda acontecem em algumas comunidades nos dias de hoje. Muitos são os relatos de pessoas que confessam com certa emoção que aprenderam a ler soletrando as colunas de um jornal. Alguns meninos do interior, hoje intelectuais conhecidos, relembram que diariamente iam esperar o trem na estação para pegar os jornais para o pai e em casa, com as mães, usavam os periódicos para aprender a ler, pois não dispunham de outra forma para alfabetização.

Quando visitei na Amazônia a pequena cidade de São Joaquim, no extremo norte do Brasil, fronteira com a Colômbia, vi na
escolinha que a professora usava recortes de jornais para elaborar o material didático.

O hábito da leitura adquirido por tantas pessoas desde a juventude através dos jornais garantirá a sua permanência, mesmo que a forma de apresentação seja nova. A curiosidade do leitor que não se satisfaz com as imagens ou notícias aligeiradas, mas procura uma interpretação ou mais detalhes, aprofundando o que chegou ao seu conhecimento como um flash, encontrará as respostas no texto de um jornal. Embora mude o continente, um novo invólucro, mas o conteúdo do jornal, hoje como ontem, guardará a sua finalidade de comunicar mantendo a atração dos leitores. Que continuem servindo como fonte permanente da memória!



* Margarida Cantarelli é presidente da Academia Pernambucana de Letras

Confira o especial sobre o centenário do Jornal do Commercio no link abaixo

jc.com.br/100anos




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