Jornal do Commercio
Centenário: Jornal do Commercio

Antecipações pernambucanas

É quase certo que a preservação, exploração, manutenção e sustentabilidade da natureza estará no centro do futuro de todos

Publicado em 03/04/2019, às 00h58

"Futuro é uma cultura que assume sempre novas qualidades", defende Joaquim Falcão
Foto: Filipe Jordão/JC Imagem
JC Online

A primeira diz respeito à famosa visita do escritor norte-americano Aldous Huxley a Gilberto Freyre em Apipucos. Ficaram a sós, conversando. Talvez na varanda. Gênio a gênio. Cara a cara.

No final, os repórteres perguntaram a Huxley o que tinha achado da conversa. Apenas disse: “O Brasil é um país improvável!”.
Talvez fosse. Talvez ainda seja. De futuros improváveis. Foi o que ele deve ter concluído das antecipações, das ideias que Gilberto tinha sobre o futuro.

Se ainda por cima concordarmos com o Prêmio Nobel mexicano Octavio Paz, para quem a regra que comanda a história, além da mera cadeia de causalidades, é a incerteza labiríntica, prever fica mais difícil ainda.

Uma das antecipações de Gilberto foi entender a importância da ecologia. Do que hoje se chama de “desenvolvimento sustentável”. Problema que une e desune o mundo, por exemplo, diante do acordo climático de Paris.

São diversas as suas referências a esta antecipação. Defendia, por exemplo, que as cidades crescessem não no modelo de hoje, cercadas de indústrias poluentes. Mas no modelo inspirado por Jaime Lerner: o “rurbano”. Cidades cercadas não apenas de cal e pedra, cimento e aço. Mas de zonas agrícolas, campos, paisagens, de natureza rural. O que seria mais adequado ao nosso País de grande extensão territorial e de alta densidade demográfica urbana.

Evidentemente que esta não foi uma antecipação inédita. Foi, diria Gilberto, uma ressurgência. Filia-se à mesma linha de propostas de José Bonifácio de Andrada e Silva no início de século 19.

Reconhecendo a natureza como patrimônio maior do Brasil, José Bonifácio propôs que nossas primeiras escolas de formação superior fossem justamente escolas agrícolas. E não jurídicas. Se a decisão tivesse sido esta, nosso futuro teria sido outro. Ou seja, o futuro é fruto de nossas decisões. E também de não decisões.



Uma das antecipações de Gilberto Freyre foi entender a importância da ecologia. Do que hoje se chama de “desenvolvimento sustentável”. Problema que une e desune o mundo, por exemplo, diante do acordo climático de Paris


Mas será possível prever o futuro feito de improbabilidades, casualidades e decisões simplesmente humanas? Não sei... Mas é quase certo que a preservação, exploração, manutenção e sustentabilidade da natureza estará no centro do futuro de todos. Não é antecipação, mas lugar comum, dizer que nossa independência, como nação política e jurídica, dependerá de nossas decisões sobre a Amazônia. Do ponto de vista ambiental, cultural, geopolítico e econômico, como antecipou Clóvis Cavalcanti com sua pioneira economia de fundo ecológico.

Não foi por menos que a Fundaj criou uma base na Amazônia. Hoje não estamos agindo a tempo. Nosso futuro está atrasado.
Uma segunda antecipação também de inspiração pernambucana diz respeito à imagem de Aloísio Magalhães, do bodoque, da atiradeira: “Quanto mais esticamos o elástico para trás, com mais força e determinação, mais a pedra seguirá em frente”. Ou seja, quanto mais conhecermos nosso passado, história e cultura, mais poderemos moldar nosso futuro.

Como disse, certa feita, Fernando Montenegro na televisão, por inspiração de Armando Strozenberg: “Um país que não tem passado não sabe o país que é”.

Não sou dos que acreditam que a tecnologia e a globalização – China e Estados Unidos – uniformizarão e diluirão as identidades culturais locais. Ameaçam, mas não são o destino. Sobretudo se conseguirmos escapar destas dicotomias simplificadoras que inundam o Brasil de hoje.

A marca do futuro é o reconhecimento das complexidades, muito além apenas, embora pressuposto, das diversidades. Estas dicotomias, como diz Elio Gaspari, não revelam o debate conservador. Mas o debate do atraso. Será na arte combinatória de encontros e desencontros entre as culturas que se forjará o futuro.

A preservação e mesmo o estímulo, por exemplo, de uma cultura de miscigenação de igualdades inter e intrarracial é mais próximo de nós do que da maioria dos países desenvolvidos. Futuro é uma cultura que assume sempre novas qualidades. Inclusive tecnológicas.

Como dizia Camões.
Mudam-se os tempos,
mudam-se as vontades,
Muda-se o ser,
muda-se a confiança;
Todo o mundo
é composto de mudança,
Tomando sempre
novas qualidades.

Antecipar as novas qualidades, mas enraizando-se em nossa cultura é tarefa maior. Quando se comemora o passado, o presente e o futuro do Jornal do Commercio.

Joaquim Falcão é advogado e ex-diretor do Faculdade de Direito da FGV-Rio

Confira os especial sobre o centenário do Jornal do Commercio no link abaixo:

jc.com.br/100anos




Os comentários abaixo são de responsabilidade dos respectivos perfis do facebook.

OFERTAS

Especiais JC

Especial Nova Rotação Especial Nova Rotação
As cidades estão entrando em colapso. Refletem o resultado da mobilidade urbana convencional, um mal incorporado à sociedade e de difícil enfrentamento.Mas o momento de inverter essa lógica é agora. Criar uma nova rotação para as cidades, para as pessoas
JC Recall de Marcas 2019 JC Recall de Marcas 2019
Pitú e Vitarella são as marcas mais lembradas pelo consumidor pernambucano, de acordo com a edição 2019 do Prêmio JC Recall de Marcas. O ranking foi feito a partir de levantamento do Harrop Pesquisa para o Jornal do Commercio.
Especial Tempo de Férias Especial Tempo de Férias
O tempo das férias finalmente chegou e com ele os vários planos sobre o que fazer no período livre. O JC traz algumas dicas de como otimizar o período para voltar renovado do merecido descanso.

    SIGA-NOS

    LICENCIAMENTO

  • Para solicitação de licenciamento, contactar editores@ne10.com.br

Jornal do Commercio 2019 © Todos os direitos reservados

EXPEDIENTE |

PRIVACIDADE

Sistema Jornal do Commercio Grupo JCPM