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NOVO GOVERNO

MST e pequenos agricultores preocupados com o governo Bolsonaro

O MST teme que com o novo governo seja mais difícil ouvir as reivindicações do movimento

Publicado em 14/12/2018, às 14h06

Pequenos produtores participaram da décima
Pequenos produtores participaram da décima "Feira da Reforma Agrária" no centro do Rio de Janeiro
Foto: Mauro Pimentel / AFP
AFP

Alzeni da Silva arruma seus alfaces. Ela está preocupada, como muitos outros pequenos produtores que vieram participar da décima "Feira da Reforma Agrária" no centro do Rio de Janeiro, a última antes da posse em janeiro do presidente eleito Jair Bolsonaro.

Entre mudas de coentro e cebolinha, cujos aromas impregnam o mercado, Alzeni teme que "com o novo governo vai ser ainda mais difícil fazer ouvir nossas reivindicações e ter acesso a políticas públicas".

Isso porque Bolsonaro prepara um governo de militares e ultraliberais, onde os gigantes do agronegócio estarão bem representados.

A organização à qual pertence, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que organiza a feira, nasceu em 1984 e se tornou um dos mais importantes movimentos sociais da América Latina, exigindo a redistribuição de terras cultiváveis entre pequenos produtores e defendendo uma agricultura sustentável.

Um modelo agrícola diametralmente oposto ao atual, que favorece a monocultura de soja, milho e cana de açúcar, assim como a criação extensiva de gado para a exportação, e que reforça a concentração de terras. 

Este ano, a feira não recebeu ajuda pública. Mas Alzeni elogia a recepção dos cariocas.

"Tivemos uma recepção muito boa". "Para a gente, é importante mostrar que conseguimos produzir, em quantidade, alimentos saudáveis".

Divisão desigual das terras agrícolas

"Nossa agricultura vai na contra-mão da política agrícola atual", diz ela. A chegada, em janeiro, ao ministério da Agricultura da ex-líder da bancada do agronegócio Tereza Cristina da Costa "vai ser ainda mais difícil fazer ouvir nossas reivindicações", acredita.

Na mesma feira, Silvano Leites vende quatro variedades de banana orgânica, produzidas em um acampamento do MST a 200 km do Rio de Janeiro.

"Se fosse do agronegócio, a feira só teria boi e soja", critica o militante.

"Produzimos aipim, feijão, maracujá, abacaxi, com um projeto de agro-ecologia: deixamos a floresta se misturar com as nossas culturas", explica.



As famílias de seu acampamento ocupam as antigas terras de um grande proprietário, que não respeitavam os critérios impostos pelo Estado e que era acusado de desmatamento ilegal.

Após três anos instaladas de forma precária em barracas à beira da estrada, as famílias conseguiram a expropriação da fazenda e autorização para cultivar seus produtos.

"As ocupações do MST são uma forma de pressionar o governo. Sem isso, não teria reforma agrária", assegura Silvano Leites.

No Brasil, a divisão de terras agrícolas é muito desigual: em 2009, 84% praticavam a agricultura familiar e empregavam 12,3 milhões de pessoas em 24% de terras aráveis, contra 4,2 milhões de assalariados nas grandes fazendas.

De acordo com um relatório da Oxfam, 1% dos latifundiários brasileiros possuíam 45% das terras agrícolas em 2016.

Conflitos agrários: 24 mortos desde janeiro 

Mas o MST, que reúne 500.000 famílias de produtores rurais, está na mira do presidente eleito. Ele quer classificar a organização como grupo terrorista e declarou, durante sua campanha, querer "dar fuzis" aos grandes proprietários, como "cartão de visita para os invasores" sem-terra.

"Antes da expropriação, as famílias foram expulsas várias vezes pela polícia. Mas a pressão vai aumentar. Jair Bolsonaro vê a gente como inimigo e chama a sociedade para nos atacar com violência", acrescenta o militante.

No sábado 8 de dezembro, dois coordenadores do MST foram assassinados no Nordeste. Desde o início do ano, a Comissão Pastoral da Terra (CPT), organização católica de defesa dos direitos dos agricultores, registrou 24 assassinatos ligados a conflitos agrários. Metade das vítimas eram líderes de movimentos sociais.

Em 2017, a violência no campo atingiu o maior nível em 14 anos, com 71 assassinatos.

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