Jornal do Commercio
31 DE MARÇO DE 1964

Bolsonaro estimula celebração do golpe militar de 64

Generais da reserva que integram o primeiro escalão do Executivo, porém, pedem cautela no para evitar ruídos desnecessários em meio aos debates da reforma da Previdência

Publicado em 25/03/2019, às 11h59

Em um governo que reúne o maior número de militares desde a ditadura (1964-1985), a comemoração da data deixou de ser
Em um governo que reúne o maior número de militares desde a ditadura (1964-1985), a comemoração da data deixou de ser "proibida"
Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil
Estadão Conteúdo

O presidente Jair Bolsonaro orientou os quartéis a comemorarem a "data histórica" do aniversário do dia 31 de março de 1964, quando um golpe militar derrubou o governo João Goulart e iniciou um regime ditatorial que durou 21 anos. Generais da reserva que integram o primeiro escalão do Executivo, porém, pedem cautela no tom para evitar ruídos desnecessários diante do clima político acirrado e dos riscos de polêmicas em meio aos debates da reforma da Previdência.

Em um governo que reúne o maior número de militares na Esplanada dos Ministérios desde o período da ditadura (1964-1985) - o que já gerou insatisfação de parlamentares -, a comemoração da data deixou de ser uma agenda "proibida". Ainda que sem um decreto ou portaria para formalizá-la, a efeméride volta ao calendário de comemorações das Forças Armadas após oito anos.

Em 2011, a então presidente Dilma Rousseff, ex-militante torturada no regime ditatorial, orientou aos comandantes da Aeronáutica, do Exército e da Marinha a suspensão de qualquer atividade para lembrar a data nas unidades militares.

O Planalto pretende unificar as ordens do dia, textos preparados e lidos separadamente pelos comandantes militares. Pelos primeiros esboços que estão sendo feitos pelo ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, o texto único ressaltará as "lições aprendidas" no período, mas sem qualquer autocrítica aos militares. O período ficou marcado pela morte e tortura de dezenas de militantes políticos que se opuseram ao regime.

O texto também deve destacar o papel das Forças Armadas no contexto atual. De volta ao protagonismo no País, militares são os principais pilares de sustentação do governo Bolsonaro. Por isso, generais da reserva disseram à reportagem que no entendimento da cúpula das Forças Armadas e do próprio presidente, a mensagem precisa ser "suave". Eles afirmam que não querem nenhum gesto que gere tumulto porque não é hora de fazer alarde e/ou levantar a poeira. O momento, dizem, é de acalmar e focar em reverter os problemas econômicos, como reduzir o número de desempregados.

Investigações

A suspensão da festa em comemoração a 1964 por Dilma coincidiu com a criação da Comissão Nacional da Verdade. O grupo foi criado pela presidente em meio à pressão da Organização dos Estados Americanos (OEA), que condenou o Estado brasileiro pelo desaparecimento de guerrilheiros na região do Araguaia, e da Justiça Federal, que cobrava a entrega de restos mortais a familiares de vítimas da ditadura.

Embora não tenha avançado nos esclarecimentos dos episódios mais emblemáticos do período, a comissão desagradou aos militares. Na época, segundo relato de oficiais, ficou estabelecido uma espécie de acordo informal com o Exército - comandado à época pelo general Enzo Peri - de que não haveria "perseguição". Oficiais afirmam que Dilma, na ocasião, chegou a dizer: "Não farei perseguição, mas em compensação não quero exaltação".



Do outro lado, integrantes da comissão chegaram a demonstrar desconforto com a postura do então ministro da Defesa, Celso Amorim, e dos comandantes das Forças Armadas de, segundo eles, não se esforçarem na busca de informações. O relatório final do grupo foi entregue em dezembro de 2014 e considerado um fiasco por pesquisadores e parentes de desaparecidos políticos.

A partir daí, as comemorações nas unidades militares minguaram. A lembrança da passagem do 31 de março ficou limitada às atividades do Clube Militar, com sede no Rio, formado por oficiais da reserva.

Em janeiro de 2016, o então chefe do Comando Militar do Sul, o atual vice-presidente Hamilton Mourão, deixou o posto com um discurso em que citava a derrubada de Goulart. Ele lembrou que assumiu o cargo em 31 de março de 2014. "31 de março, grande data", disse. Ao lado dele estava o substituto, general Edson Pujol, hoje comandante do Exército.

Cabeceira

O próprio Bolsonaro já declarou ter como ídolo um dos símbolos do regime militar, o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, morto em 2015. Ustra foi comandante do DOI-Codi do II Exército, em São Paulo, onde teriam morrido 45 prisioneiros.

Durante a campanha, o presidente disse que seu livro de cabeceira é A verdade sufocada, uma versão de Ustra para os assassinatos de opositores do regime. Na época da campanha eleitoral, generais chegaram a sugerir que Bolsonaro não repetisse a afirmação.

Ao votar pelo impeachment de Dilma, Bolsonaro citou Ustra no discurso, causando polêmica. "Perderam em 64, perderam agora em 2016. Pela família, pela inocência das crianças em sala de aula, que o PT nunca teve, contra o comunismo, pela nossa liberdade, contra o Foro de São Paulo, pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff, pelo Exército de Caxias, pelas Forças Armadas, pelo Brasil acima de tudo e por Deus acima de tudo, o meu voto é sim", declarou na ocasião em plenário. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.



Comentários

Por Abdon Abel,26/03/2019

Até que enfim a verdadeira história começa a ser passada a limpo.

Por SILVA,25/03/2019

Meus Deus colocaram um sem noção no poder, e ainda tem imbecis em sua defesa!

Por Fábio,25/03/2019

nenhuma país civilizado existe esta esdrúxula homenagem. Quando o presidente foi ao Chile e saudou Pinochet, teve sua atitude reprovada. Ele Pensa que no Chile existem panacas

Por Sérgio Dias,25/03/2019

Essa imprensa continua rancorosa e inconsolável. Tenho certeza que só estão publicando o que interessa para desestabilizar o governo. Eu comparo esse pessoal com aquele cidadão que viaja de avião, mas mesmo assim quer que o mesmo caia porque não gosta do piloto. Falam em comissão da verdade, mas o correto e honesto seria comissão da MEIA VERDADE. Somente viram e divulgaram um lado, mas o que os terroristas, guerrilheiros e bandidos fizeram eles se calam.

Por É um louco! Acorda Brasil!,25/03/2019

Temos que dá o braço a torcer ao Sr. Bolsonaro, pois quando pensamos que o seu nível de estupidez chegou ao limite plausível de um ser humano, ele consegui se superar em suas declarações e intenções que se sobrepõem ao bom-senso ético e moral! É difícil de acreditar que esse "individuo" não seja um desequilibrado mental pois, nem o exército, o manteve em suas hostes por sua indisciplina e deslealdade externadas já na década de 1980. Mas pelo jeito tinha "qualidades" piores que o levaram a reserva.



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