Jornal do Commercio
repressão

Livro detalha chacina na ditadura

Obra do jornalista Luiz Felipe Campos esmiúça o massacre de militantes na chácara São Bento, ocorrido há 40 anos em Paulista

Publicado em 12/01/2013, às 18h43

Luiz Felipe Campos retratou como foi o massacre na granja / Foto: Clemilson Campos/JC Imagem
Luiz Felipe Campos retratou como foi o massacre na granja
Foto: Clemilson Campos/JC Imagem
Débora Duque

Há 40 anos, um casebre de taipa, erguido no meio da mata, em Paulista, serviu de palco para uma das mais brutais chacinas deflagradas durante a ditadura militar. Em 8 de janeiro de 1973, acontecia o conhecido “Massacre da Chácara São Bento”, em que foram mortos seis militantes da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR). Todos delatados pelo agente duplo mais famoso do regime, o Cabo Anselmo. Entre os delatados e mortos estava até sua própria companheira, a paraguaia Soledad Barrett Viedma. Pela escassez de fontes documentais e testemunhais, o fato ainda guarda versões controversas. Para reacender o debate sobre o assunto, o jornalista pernambucano Luiz Felipe Campos prepara um livro-reportagem, previsto para ser lançado ainda neste semestre.

Intitulado “A Chacina da Chácara São Bento”, o trabalho está em fase de finalização e será publicado em português e, possivelmente, em espanhol, pela editora Germinal, de origem uruguaia. Para reconstituir a história, e suas variantes, o autor colheu relatos de familiares e conhecidos das vítimas, prontuários do Dops, matérias e entrevistas sobre o tema.

O livro parte da viagem que Cabo Anselmo fez ao Chile, em novembro de 1971, para convencer um dos líderes da VPR, Onofre Pinto, da necessidade de reorganizar o movimento já em fase de desmobilização. Campos mostra como um dos cabeças da organização relutou em acreditar nos avisos que chegavam do Brasil, informando que o mesmo cabo que havia comandando uma sublevação de marinheiros do Rio, em 1964, estava, agora, sob o manto dos militares.



Anselmo indicou as seis figuras que teriam a incumbência de “reordenar” a VPR. Alguns haviam convivido com ele em Cuba, entre 1967 e 1970, e outros eram seus ex-companheiros de Marinha. Foi assim que José Manoel da Silva, Jarbas Marques, Eudaldo Gomes, Pauline Reichstul, Evaldo Luiz e Soledad entraram na rota da morte planejada por Anselmo junto com o delegado Sérgio Fleury. “Nenhum deles estava na lista dos mais procurados. Os militares não teriam corrido atrás da maioria se não fosse Anselmo. Alguns, como José Manuel, viviam legalmente até. Eram apenas nomes possíveis de trazer”, diz Campos.

Distante do foco da repressão no sul, Recife, onde Anselmo esteve pouco antes de ter sido preso, em São Paulo, parecia o local ideal para a operação. Com a verba liberada pela VPR, o ex-cabo instalou todos na cidade, a partir de fevereiro de 1972. O casal Eudaldo e Paulline (de origem tcheca) foi alocado em Paulista, na “chácara” onde, mais tarde, seriam mortos. Anselmo vivia com Soledad em Olinda, junto com o cunhado Jorge e a namorada.

Se na época Soledad estava grávida, como sustentam alguns, o autor diz não ter elementos para responder. “Essa polêmica está longe de ser o mais importante. É uma questão, inclusive, que joga um pouco de nuvem em cima da trajetória dela, que veio de uma família importante para a esquerda na América Latina (o pai fundou o partido comunista paraguaio). Hoje, quando a gente fala em Soledad, só vem na mente que ela foi a mulher de Cabo Anselmo e que morreu grávida. Mas é impossível provar alguma coisa. Existem indícios de que não estava”. Entre eles, o relato de que, pouco tempo antes de morrer, ela havia colocado um DIU.

No livro, ele destrincha o episódio em que Soledad recebe do irmão uma carta dias antes de ser assassinada. O texto era um alerta de Onofre Pinto, confirmando os rumores sobre a traição de Anselmo. Mas Soledad não deu vazão à mensagem. A partir dali, Anselmo decidiu iniciar a operação planejada havia mais de um ano com Fleury.

Em 7 de janeiro começaram as prisões, relatadas uma a uma no livro. As evidências, segundo Campos, indicam que todos, à exceção de Paulinne, abatida com uma coronhada na cabeça em Boa Viagem, foram mortos na chácara. Foram 26 tiros, 14 na cabeça e muitos à queima-roupa. Ao cenário brutal, foram adicionadas armas ao redor dos corpos para sugerir um confronto entre guerrilheiros e militares que nunca houve. As fotos, difundindo a versão oficial de que um “congresso de terroristas” havia sido desbaratado, foi estampada nos jornais três dias depois.

O propósito daquele banho de sangue era claro. “Foi uma forma de desmoralizar ainda mais a esquerda num momento em que a luta armada já estava fragilizada. A VPR, depois disso, deixou de existir. O objetivo era exterminar com algo simbólico, chocante”, analisa Campos. Foi, de fato, o último suspiro da guerrilha urbana no País. Restava apenas o combate no Araguaia, que durou até o ano seguinte, com um desfecho igualmente trágico.



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