Jornal do Commercio
Personagem

Em depoimento histórico ao JC, Fernando Lyra lembrou o processo de redemocratização

Ex-ministro da Justiça foi um dos personagens entrevistados pelo JC, em parceria com a Fundação Joaquim Nabuco, na série Na trilha do Golpe

Publicado em 15/02/2013, às 00h50

Do JC Online

Fernando Lyra nasceu no dia 08.10.1938, no Recife (PE), mas fez sua vida profissional e política em Caruaru, ao lado do pai, João Lyra Filho. É formado em Direito. Em 1966, ajudou a fundar o MDB. Em 1971, participou da criação do grupo dos "autênticos", tornando-se um de seus líderes. Durante o regime militar, foi deputado estadual e federal pelo MDB/PMDB. No início de 1983, aproximou-se do então governador Tancredo Neves (MG), um dos líderes dos “moderados” do PMDB, passando a defender sua candidatura à Presidência da República em 1985. Assim, tornou-se seu articulador político e foi nomeado ministro da Justiça, cargo que ocupou de 15/03/1985 a 15/02/1986 no governo Sarney. Ele concedeu a seguinte entrevista ao cientista político Túlio Velho Barreto e aos jornalistas Sérgio Montenegro Filho, Paulo Sérgio Scarpa e Inaldo Sampaio no dia 25 de novembro de 2004 para a série Na trilha do Golpe, do Jornal do Commercio, depois publicada no livro A Nova República – visões da redemocratização. Abaixo, a íntegra da entrevista-memória de Fernando Lyra.

Quando foi criado o grupo dos “Autênticos” do MDB, do qual o senhor fez parte?
Em 1971. O grupo foi formado, inicialmente, por mim, Chico Pinto (BA), Alencar Furtado (PR)... Depois, vieram Marcos Freire (PE) e mais uns oito ou nove companheiros. Fizemos o primeiro seminário, em Porto Alegre, ainda sem o grupo formado, mas já nos colocando à esquerda dentro do MDB. E convocamos uma reunião do MDB, como um todo, para o Recife, em junho daquele ano. Depois de todas as discussões, resoluções e muita luta interna, surgiu a tese da convocação da Assembléia Nacional Constituinte, que naquela oportunidade era algo maldito, absolutamente impossível de constar de algum documento. Mas, nós “autênticos”, propusemos sua convocação. Naquela época, Jarbas Vasconcelos ainda era deputado estadual. Coube a ele apresentar a tese. E, de certa forma, nós constituímos o grupo dos “autênticos”, aqui em Pernambuco.

Que cargo o senhor ocupava naquela ocasião?
Eu já era deputado federal, estava no primeiro mandato. Mas, não foi possível colocar no documento final a convocação da Assembléia Nacional constituinte, porque Tancredo Neves, Ulysses Guimarães e a cúpula partidária não deixaram que isso vazasse. Diziam que era uma posição radical perante o regime militar. E eles não queriam radicalizar o processo.

A cúpula do partido era mais moderada?
Era. Passaram-se os anos e, em 1985, eu, já ministro da Justiça, voltei a propor a sua convocação. Na verdade, era compromisso do doutor Tancredo a convocação de uma Constituinte. Então, foi criada uma Comissão da constituinte, do qual Afonso Arinos foi o presidente, com a participação de toda a sociedade, de membros do Congresso e outros segmentos. E tinham três propostas. A que apresentei, em junho de 1985, foi a de convocar uma Constituinte “pura”. Isto é, a convocação de uma Assembléia Nacional constituinte; não do Congresso Constituinte. Então, reproduzi a posição que eu tinha tido, que nós, os “autênticos”, tínhamos tido em 1971. Mas o que vigorou, o que prevaleceu na eleição de 1986, foi a convocação de um Congresso Constituinte, que, de qualquer forma, já estava maculado pela participação dos senadores biônicos, que eram um terço do Senado Federal. E outra coisa, pouquíssimos deputados, aqui, em Pernambuco, eu confesso não me lembro de ninguém, foi eleito como constituinte. Foram eleitos como deputados federais. A população não sabia, o eleitorado não sabia que estava elegendo uma Assembléia Nacional Constituinte. Daí, em que pese o trabalho fantástico feito pelo Congresso, não houve legitimidade de uma Assembléia Nacional Constituinte. Esses são fatos importantes porque revelam as idas e vindas do processo durante todo esse período.

O senhor já antecipou algo importante sobre os anos de 1980, em especial sobre a convocação e a natureza do Congresso Constituinte, que fez a nova Carta já no processo de transição democrática. Mas gostaríamos de voltar a tratar dos difíceis anos de 1970, quando a posição legal se restringia ao MDB e ainda não se falava em distensão política. Como era fazer política naqueles anos? O grupo dos “autênticos, por exemplo, às vésperas da sucessão do general Emílio Gastarrazú Medici, propôs a autodissolução do MDB...
Foram anos dificílimos. Nós chegamos na Câmara Federal e constatamos que, dos oitenta e poucos deputados que o MDB tinha, eram, no máximo, uns 10, praticamente 10% do partido, que queriam fazer uma oposição ao regime militar. Aí, começamos uma luta interna muito tensa e intensa, sempre vislumbrando o futuro. E, é claro, todos nós ainda jovens imaginávamos a coisa com mais pureza. Mas era muito difícil, porque, naquela oportunidade, não havia praticamente imprensa... Nenhum jornal publicava o que nós falávamos. Ninguém sabia de nada que acontecia na Câmara. Absolutamente nada. Para que nós aparecêssemos de alguma forma foi preciso que houvesse aqueles seminários do MDB, primeiro em Porto Alegre e depois no Recife. Foi quando o Evandro Carlos de Andrade do jornal O Globo nos batizou de “grupo autêntico do MDB”. Isso foi em junho de 1971.. Ora, na Câmara só tínhamos xerox, não tinha mais nada. Então, os nossos discursos eram mandados para os eleitores através de xerox. Não tinha faz, não tinha nada. A nossa luta era absolutamente interna. E o regime, absolutamente fechado.

Quem mais fazia parte desse grupo? O senhor já citou alguns nomes...
Tinha Freitas Diniz, do Maranhão, Paes de Andrade, do Ceará, Marcondes Gadelha, na Paraíba, eu e Marcos Freire, de Pernambuco, Chico Pinto, da Bahia, Lyzâneas Maciel e J. G. de Araújo Jorge, do Rio de Janeiro, Santilli Sobrinho e Freitas Nobre, de São Paulo Alencar Furtado, do Paraná, Alceu Colares, Nadir Rossetti e Getúlio Dias, do Rio Grande do Sul. Tinha mais gente, mas, como disse, não éramos muitos.

Como era a relação entre os “autênticos” e os “moderados”, àquela altura liderados por Tancredo Neves e Thales Ramalho?
O doutor Tancredo Neves não tinha pressa, não tinha nosso velocidade, nossa ansiedade. Ele tinha passado pelo Ministério da Justiça com Getúlio Vargas, perdeu a eleição para Magalhães Pinto em Minas, em 1960, foi primeiro-ministro no parlamentarismo, e passou pelo Golpe Militar de 1964. Era um homem coerente e foi o único do PSD que, naquela ocasião, recusou o pedido de Juscelino Kubistchek para votar no marechal Castello Branco. Eleito em 1970 para a Câmara, praticamente se isolou na Comissão de Economia até 1977. Ele fazia parte do grupo “moderado”, tinha liderança dentro do partido, mas não se chocava principalmente com os outros líderes do MDB. Como Ulysses Guimarães, Thales Ramalho, Nélson Carneiro e Pedroso Horta.

Como era a relação dos “autênticos” com os militares? Havia algum canal de comunicação?
O que havia se limitava mais ao deputado Chico Pinto com amigos da área militar.

Os “autênticos” já tinham voz no MDB?
Já. A partir de 1971, quando o grupo foi formado, era a nossa voz de oposição que se fazia ouvir na Câmara contra o regime militar. Por exemplo, foi Chico Pinto que teve a ideia de lançar um anticandidato militar no Colégio Eleitoral contra a candidatura do general Ernesto Geisel, em 1974. Tese inicialmente contestada pelo partido, mas posteriormente assumida por Ulysses, que a partir daí se tornou o anticandidato. E teve uma repercussão tamanha que em novembro de 1974 elegemos 16 dos 22 senadores. E esta manifestação popular através das urnas cresceu de tal ordem que o general Geisel criou o Pacote de Abril de 1977, depois de ter cassado o mandato do líder Alencar Furtado, em 1976. E, depois, Amaury Müller, Nadir Rossetti e, como decorrência, Lysâneas Maciel.

O Pacote de Abril de 1977 teve a participação do então presidente da Câmara, Marco Maciel?
Teve, teve. como presidente da Câmara, ligadíssimo ao secretário particular de Geisel, Heitor de Aquino, Marco Maciel participou. O presidente fechou o Congresso e não houve nenhum protesto dele e nem do presidente do Senado.

Quem falava pelos militares com o Congresso?
O general Golbery do Couto e Silva. No Congresso, Marco Maciel e Petrônio Portela, os mais influentes.

Os “autênticos” acreditavam na distensão política?
Ainda não. O fechamento do Congresso, em 1977, foi uma porrada que ninguém imaginava, um retrocesso extraordinário. Depois de a gente ir para as ruas, após participar do Colégio Eleitoral, com as candidaturas de Ulysses Guimarães e Barbosa Lima Sobrinho, em 1974, do avanço nas eleições de 1974, imaginávamos que havia um compromisso de Geisel com a distensão. Para nós e o povo brasileiro foi uma coisa absurda.

Como é que Tancredo começa a ser um nome relevante?
O doutor Tancredo sempre foi uma referência, mas ainda não tinha nenhuma estratégia. Ele estava quieto. Quando vislumbrou a perspectiva de abertura política, saiu do anonimato.

Quando?
Em 1978, ano da eleição do general João Baptista Figueiredo. Mas Tancredo queria primeiro se voltar para Minas Gerais, que até aquela altura só tinha Magalhães Pinto e Itamar Franco, eleito senador em 1974. Itamar era prefeito de Juiz de Fora e renunciou à prefeitura. Ninguém queria ser candidato a senador no país porque ninguém imaginava ganhar eleições majoritárias. O que Tancredo fez em 1978? Disputou a liderança do MDB.

Foi com o apoio dos “autênticos”?
Não. Ganhou por um voto a liderança. Por que foi líder? Queria ficar em evidência porque vislumbrava ser candidato a senador. Claro, foi líder, ganhou evidência, foi candidato a senador e venceu a eleição de 1978.

Como era a relação dos “autênticos” com o grupo de parlamentares que representava o regime militar?
Naquela época era muito difícil, a coisa era muito radicalizada. Os dois partidos não se entendiam. Muito menos nós, do grupos dos “autênticos”, nos entendíamos com os parlamentares da Arena.

Em 1978, o MDB lançou a candidatura do general Euler Bentes, um ponto de contato entre a oposição e os militares...
Começou, então, a fragmentação interna dos militares. Tanto é verdade que certa vez o jornalista Jorge Moreno, que escrevia sobre política no Jornal de Brasília, ligou para mim num domingo dizendo: “Não tem ninguém em Brasília, só você. O que é que você tem para me dizer?”. Eu disse: “Estou pensando que para a gente tentar sair desse processo vai ter que ter um diálogo com os militares”. Foi manchete do Jornal de Brasília na segunda-feira e todos os ministros e militares tiveram que dizer que não eram contra o diálogo. Foi ideia minha, passou pela minha cabeça num domingo à tarde porque nós pensávamos política 24 horas por dia. Claro que hoje se faz política 24h por dia, mas a nossa era ideia fixa, a de combater o regime militar.

Como foi a negociação de um candidato militar dentro do MDB para a sucessão de Geisel?
Confesso que a participação não foi só dos “autênticos”. Foi do partido como um todo. Eu imaginei que era importante no processo. Mas tive um infarto, a coisa aconteceu assim mesmo. E eu soube pelos jornais.

E o que a candidatura do general Euler Bentes representou para a abertura política?
Houve um desgaste interno no regime militar. A influência maior se deu em função da divisão das Forças Armadas. Não haveria possibilidade de uma candidatura militar contra outra do sistema se não houvesse divisão interna nas Forças Armadas. Já em 1985, houve um desgaste irreversível dentro do regime, o presidente Figueiredo não teve candidato à sucessão no Colégio Eleitoral: nem Paulo Maluf nem Mário Andreazza.

A Anistia foi um dos fatores para as divisões internas nas Forças Armadas?
Não. A Anistia foi uma tentativa dos militares de proclamarem a abertura, contato que nenhum anistiado participasse das eleições. Tanto que se adiou o pleito para governador de 1978 para 1982 e prorrogaram os mandatos de prefeitos também até 82.

E o governo ficou desestabilizado, sem apoio?
O Figueiredo imaginou que concedendo a Anistia podia ser acreditado, mas não. Ele nunca teve liderança no governo, nem apoio popular. Ele se resumia apenas na força do cargo de presidente

O processo de distensão era tido como irreversível?
Para o governo, não. Com o Pacote de Abril, a coincidência dos mandatos de vereador a governador, com voto vinculado, ele imaginava que teria a maioria no Colégio Eleitoral de 1985.

Em que momento o senhor se aproximou de Tancredo?
Eu constatei com a minha eleição para a primeira secretaria da Câmara, em fevereiro de 1983, que o doutor Tancredo tinha força dentro do PMDB e que ele era o nome na oposição capaz de passar pelos militares e ser presidente da República. Como o doutor Tancredo convocou cinco deputados federais para o seu secretariado, em março de 1983, usei esse fato para ir a Minas Gerais. Oficialmente fui prestigiar a posse. Mas, na verdade, não foi isso. Todo mundo ficou surpreso por um “autêntico”, que sempre foi contra Tancredo, chegar a Belo Horizonte. Tancredo ficou muito satisfeito com minha presença. No dia seguinte, no palácio, na posse dos secretários, me agradeceu a presença e disse: “Queria que você fosse almoçar comigo no Palácio das Mangabeiras”. Imagine a minha emoção e satisfação de ir almoçar com o governador de Minas, que eu imaginava ser o nosso homem mais tarde.

O que ocorreu no almoço?
No dia seguinte, no Palácio, estavam o pernambucano Sérgio Murilo, que era moderadíssimo, Walter Moreira Salle, que não tinha nada a ver com política, era banqueiro mineiro, e o brigadeiro Faria Lima, que tinha sido governador do Estado da Guanabara e era irmão do Faria Lima, prefeito de São Paulo. Na saída, disse ao doutor Tancredo: “Vim aqui para dizer que o senhor é o meu candidato”. E ele: “Fernando Lyra, desde 1960 eu luto para ser governador de Minas, faz 22 anos que eu luto para isso, perdi aquela eleição. E agora você vem me falar nisso?”. Então, completei: “O senhor pode dizer que é loucura minha, agora fique sabendo que é o meu candidato á Presidência da República”. e fui embora. No dia 27 de março de 1983, Tancredo me convidou para a primeira reunião da Sudene, no Recife. Ele era o primeiro governador de oposição desde 1964 na Sudene.

Em algum outro momento ele disse algo sobre sua ideia?
O doutor Tancredo em nenhuma ocasião falou sobre a ideia, mas senti que ele gostou da proposta. Não digo gostou, mas se sentiu atraído.

Com relação às reuniões da Sudene, em que medida elas serviram para aproximar os governadores nordestinos, todos, vamos dizer, neófito nos cargos, e todos do PDS, e Tancredo, já um nome político de peso?
Vou revelar uma coisa importante. Roberto Magalhães, foi o primeiro apoio que Tancredo teve aqui, em Pernambuco. Ele foi o primeiro dissidente do PDS. E isso não foi fruto só das reuniões do Conselho Deliberativo da Sudene. O próprio Marco Maciel só veio apoiar Tancredo muito depois.

E o que foi?
Isso foi ocorrendo na medida em que Tancredo foi se consolidando como uma liderança nacional, em termos de poder, ao lado dos governadores Brizola (RJ) e Montoro (SP). E, olha, quem falou a primeira vez com Roberto Magalhães sobre isso fomos Ulysses e eu. O problema é o seguinte: eu precisava criar, também aqui, uma dissidência no contexto do Colégio Eleitoral. Roberto Magalhães era o governador do Estado e tinha alguém do Palácio que torcia muito por Tancredo, já naquela hora, e vez por outra me chamava para conversar. Naquele tempo, em nunca ia ao Palácio. Mas, certo dia, não me lembro o mês...

Desculpe, mas quem era essa pessoa? Era o Syleno Ribeiro, então secretário de Estado?
Era o Syleno Ribeiro. Ele sempre insistia para eu falar com o governador... Então, certa vez, morreu um amigo meu em Brasília e eu fui ao enterro. Era muito amigo e a família dizia que só enterrava quando eu chegasse. Saí do Recife no vôo Transbrasil, do meio dia e meio, que chegava às quatro e meia em Brasília via o Ceará. Aí, quando entrei na sala vip encontrei o Syleno Ribeiro, o doutor Roberto e um major. Syleno foi logo dizendo: “Pronto, agora chegou a hora de vocês conversarem, chegou a hora de vocês”. E, realmente, nós conversamos, daqui até Brasília, sobre a eleição de Tancredo. Não sei se o doutor Roberto se lembra bem disso, mas senti que ele saiu absolutamente convencido e comuniquei ao doutor Tancredo sobre a conversa. E, a partir daí, não cessaram os convites de doutor Tancredo para Roberto Magalhães ir a Minas Gerais. E isso foi logo no começo das articulações. E ele, que não tinha grande visibilidade nacional, logo ganhou muita importância, porque foi o primeiro dissidente.

Desde quanto Tancredo admitiu a possibilidade de ser candidato no Colégio?
Em junho de 1984. Nós atravessávamos um momento muito difícil porque a partir de dezembro de 1983, com os comícios das Diretas Já, uma candidatura ao Colégio Eleitoral seria vista como uma forma de adesismo, mas eu, que nunca tive dúvidas de que a eleição seria indireta, me entusiasmei demais com as diretas. E como o fato era político, fiquei muito dividido entre a candidatura de Tancredo, indireta, e a candidatura certamente de Ulysses numa eleição direta. MAS EU Não queria votar em Ulysses. O novo era Tancredo. E tem um fato importante: O grupo de Tancredo era maioria no PMDB

Por que o senhor não queria votar em Ulysses Guimarães?
Para deixar clara a minha posição, e mostrar que não queria votar em Ulysses, eu preciso contar uma história. Em 1983, o doutor Ulysses não era o meu candidato nem a presidente do PMDB. Então, eu queria lançar outro candidato a presidente pelo PMDB e fui a Minas Gerais conversar com o doutor Tancredo Neves. Chegando lá, eu disse: “u vim aqui, porque eu não sei qual vai ser o nosso futuro, se eleição direta ou indireta. Mas qualquer que seja a decisão, o meu candidato para presidente da República é o senhor. Então, queria saber do senhor se posso lançar um candidato presidente do PMDB, que não seja Ulysses”. E ele respondeu: “Em quem você está pensando?”. Eu disse: “Fernando Henrique”. “Ele topa?”, ele perguntou. “Topa. Agora, eu preciso que o senhor fale com o governador Montoro, respondi “Eu falo”, ele garantiu. Aí voltei e ofereci à revista Veja o furo, que era o lançamento de uma candidatura para presidente do PMDB, que não era o doutor Ulysses. Dei a entrevista, que saiu nas páginas amarelas da revista, lançando o nome de Fernando Henrique Cardoso. Então, doutor Tancredo chega, na véspera da convenção do partido, em Brasília, nos chama no Hotel Nacional, e diz: “Eu reuni vocês aqui, era o grupo dele e eu, para dizer que o candidato à presidência do PMDB vai ser Ulysses Guimarães”.

E qual foi a reação dos presentes?
Todo mundo ficou espantado. Eu fui logo avisando: “Doutor Tancredo, quero dizer ao senhor que não voto em Ulysses Guimarães. “Mas, Fernando...”. “Não voto. Não voto porque eu não sei qual vai ser o destino das Diretas Já, se a emenda passa ou não passa. Nós temos que assumir também sua candidatura nas Diretas e o Ulysses vai criar problemas. Eu prefiro não votar em Ulysses...”. E Tancredo argumentou: “Mas, Ulysses nos deu 70% dos cargos do Diretório Nacional”. Aí, eu surgi: “Proponha o contrário: ele fica com 70% e nos dá a Presidência”. No final, para evitar discussão, Tancredo me chama no quarto da suíte: “Fernando, não pode ser assim”. “Eu disse ao senhor que ia lançar um candidato a presidência, o senhor concordou, eu lancei Fernando Henrique contra Ulysses, que pode ser candidato mas eu não voto nele”, expliquei. “Sim, e como é que fica?”, ele perguntou. “Eu já sou Secretário da Câmara. Então, não participo do Diretório Nacional, nem voto nele”. Ele concordou. Saí, não disse nada, não participei do Diretório, não votei no Ulysses. Isso foi no final de 1983. Quando chegou em maio de 84, depois da derrota da emenda Dante de Oliveira no Congresso, estou em casa à noite. Tancredo liga para mim: “Fernando!”. Eu identifiquei logo a voz dele: “Oh, governador, tudo bem?”. E ele respondeu: “Mais ou menos”. “Por quê?”, eu perguntei. “Olhe, não vamos chorar sobre o leite derramado, mas você tinha razão, o Ulysses está me causando os maiores problemas, um abraço”. Desligou o telefone.

Então, o senhor apoiava Tancredo qualquer que fosse a forma de escolha?
Sim, e para que eu ficasse tranquilo comigo mesmo, tinha que explicitar o meu apoio a Tancredo ainda na campanha pelas eleições diretas. E nem em Minas Gerais, no comício das diretas, Tancredo foi a principal estrela. as estrelas eram Ulysses, Osmar Santos, menos ele. Aí, eu fui a Belo Horizonte com José Queiroz, que era prefeito de Caruaru, convidar Tancredo para um comício em Caruaru, onde ele seria a estrela. No dia 18 de janeiro de 1984, trouxe Airton Soares, líder do PT, Bete Mendes e José Eudes, todos deputados federais do PT. E lançamos a candidatura de Tancredo à Presidência da República em eleições diretas. Em qualquer circunstância votaria em Tancredo.

Mas Tancredo sabia que só com o PMDB ele não venceria.
Teve um fato sério que para mim foi determinante no Colégio Eleitoral. Doutor Tancredo me disse: “O PMDB não tem maioria para aprovar a emenda das diretas. A gente só aprova com outros partidos. A esquerda não tem problema, mas a gente precisa criar uma dissidência dentro do PDS. Cuide disso, e urgente”. Em 1983-84, quando eu era primeiro-secretário e presidia as sessões na Câmara das 13h às 14h, incentivei o deputado Albérico Cordeiro (AL), que andava meio escanteado no PDS, a criar um grupo das diretas no partido, com outros quatro deputados, o que aconteceu, começou a ser notícia e o grupo começou a crescer. Logo depois, Figueiredo viajou para os EUA para ser operado e Albérico Cordeiro teve uma audiência com o vice-presidente Aureliano Chaves, que foi simpático à formação do grupo “pró-diretas” do PDS. E tudo isso resultou de uma das missões que Tancredo me confiava. E eu tenho a impressão, a impressão, não, a certeza, que para ser candidato, primeiro ele queria ver consolidada a maioria no Colégio Eleitoral, porque ninguém imagina o que foi para ele renunciar ao governo de Minas com um ano e meio de mandato, depois de 22 anos de luta para chegar lá.

Uma vez definida a candidatura, os senhores temiam algum retrocesso?
Não, mas houve uma tentativa. Me encontrei, através de uma amizade, com um capitão da Aeronáutica que disse que havia interesse de setores amplos da Aeronáutica na mudança do regime e que apoiavam Tancredo. Comuniquei ao doutor Tancredo que não queria ter nenhuma participação na área militar, porque não tinha nenhuma prática, nem intimidade, nem relacionamentos. Mas, certa vez, esse militar me ligou dizendo que tinha um assunto seriíssimo. No dia seguinte ele saiu do Rio para Brasília. Quando me contou que houve uma reunião em Foz do Iguaçu entre o general Walter Pires (ministro do exército), Moacyr Dallas (presidente do Senado) e Cordeiro Guerra (presidente do Supremo Tribunal Federal) com a seguinte estratégia: “A Mesa do Senado, que é é quem acolhe os votos do Colégio Eleitoral, decidirá que só aceitará os votos dos membros do partido do candidato”. Isto é, Tancredo só receberia apoio do PMDB, que era minoria. O Senado aprovaria e submeteria essa tese ao STF, que concordaria. E o Cordeiro Guerra ratificaria a posição do Senado. E Walter Pires garantiria a lei.

Por causa da fidelidade partidária?
Exatamente. E aí chega para me entrevistar um repórter de Veja e eu digo que tenho uma notícia, mas tem de ser destaque na revista. Ele aceitou, mas tive e visitar o doutor Tancredo, apressadamente, para contar que havia a tentativa de golpe contra ele e que seria dada pelo ministro do Exército. Ele me disse então: “Denuncie, agora não generalize, cite os nomes”. Escrevi um artigo assinado e me lembro, como se fosse hoje, indo para São Paulo porque a Veja chegava em Brasília no domingo de manhã, naquela época. Em São Paulo teria condições de ler a revista no sábado à tarde. Imaginem minha angústia.

E a repercussão?
Foi de tal ordem que ninguém falou mais no assunto. Favas contadas. O Congresso decidiu pelo acolhimento de todos os votos do Colégio Eleitoral.

Em que momento o senhor sentiu que Tancredo venceria Paulo Maluf, candidato do PDS?
No dia em que Marco Maciel foi ao meu apartamento em Brasília, dia 27 de junho de 1984. logo que ele saiu liguei para Tancredo: “O senhor tem um corte de tropical inglês escuro?” Ele me respondeu que que sim. “Seu alfaiate é de Minas?”. “É”, disse. “Então, mande preparar a roupa que eu lhe darei de presente a gravata”. “Que conversa louca é essa, Fernando”, perguntou. Eu respondi: “Marco Maciel acabou de sair da minha casa. Certamente jamais viria aqui se não tivesse certeza de que o senhor será o futuro presidente”.

Mas, finalmente, com Tancredo Neves eleito, Ulysses Guimarães teve que aceitar um papel secundário?



Vou dar uma opinião pessoal, que é dura de dizer: se o doutor Ulysses Guimarães tivesse certeza que Tancredo não se recuperaria, ele teria tentado assumir a Presidência da República.

Mesmo com toda a resistência dos militares ao nome dele?
Aí, não tinha mais. Se na noite do dia 14 de março Ulysses tivesse aquela certeza, eu não tenho dúvida que ele assumiria. Tanto é que ele foi uma espécie de co-presidente até o fim do mandato de Sarney. E olhe que Ulysses já era presidente da Câmara, era o substituto do presidente Sarney. Por isso, tenho a impressão que, se o doutor Ulysses tivesse certeza que o doutor Tancredo sairia vivo hospital, ele assumiria, não deixaria Sarney assumir. Só ficou queito porque estava certo que doutor Tancredo ia voltar do hospital e ele (Ulysses) ia ser presidente por pouco tempo.

Mas ele deu algum sinal nessa direção?
Na minha opinião, ele tentou. Está provado isso pelo comportamento dele a posteriori. Quem fez a reforma do ministério? Foi ele. Quem colocou Dilson Funaro no Ministério da Fazenda: Foi ele.

O senhor acha que, de alguma forma, o presidente José Sarney foi refém de Ulysses Guimarães?
Não digo refém, mas não tinha outra saída para Sarney, que tinha acabado de deixar o PDS, de onde saiu apenas para se eleger, e entrou num partido que não era o dele. Mas o presidente Sarney, justiça se faça...

Mas ele deu algum sinal nessa direção?
Na minha opinião, ele tentou. Está provado isso pelo comportamento dele a posteriori. Quem fez a reforma do ministério? Foi ele . Quem colocou Dilson Funaro no Ministério da Fazenda? Foi ele.

O senhor acha que, de alguma forma, o presidente José Sarney foi refém de Ulysses Guimarães?
Não digo refém, mas não tinha outra saída para Sarney, que tinha acabado de deixar o PDS, de onde saiu apenas para se eleger, justiça se faça... Por exemplo, eu sabia que doutor Tancredo tinha piorando ou melhorado quando ia conversar com Sarney. A preocupação dele era toda com a saúde de Tancredo. Ele nunca pensou em assumir o poder, de fato e de direito. Nunca.

Caso foi para Sarney assumir o cargo de presidente com Tancredo no Hospital?
O presidente Sarney estava muito nervoso e inseguro. No dia 15, de manhã cedo, fui ao programa "Bom Dia, Brasil", da Rede Globo de Televisão, disse que estava tudo bem. O Fernando Mesquita, que era muito ligado a ele, já estava me esperando e me disse para ir à casa do Sarney, para eu ir com o Sarney ao Congresso. Sarney estava nervoso e dizia que não queria desfilar no carro aberto no lugar de Tancredo. Terminei indo com ele no carro. Depois, com eu disse, toda vez que ia despachar com Sarney, isso durante 45 dias, eu logo sabia e o doutor Tancredo tinha melhorado ou piorado pelo semblante dele.

Quando o senhor soube da doença de Tancredo Neves?
Eu fui comunicado que o doutor Tancredo ia ter que se operar ainda na Embaixada de Portugal, à noite. Quem me comunicou foi Sarney. Ele me disse que Tancredo parecida sentir dores na missa. Aí eu avisei a Fernando Henrique Cardoso. Mas não participei das idas e vindas da posse durante a noite do dia 14 a madrugada do dia seguinte, em que houve entre Sarney, Ulysses, José Fragelli, presidente do Senado, Leônidas Pires, ministro do Exército de Tancredo... E depois foram conversar com o ministro da Justiça de Figueiredo, o Leitão de Abreu. E veja só a que ponto chegou: o presidente Figueiredo disse que dava posse a Ulysses Guimarães, que era o presidente da Câmara, mas não dava ao Sarney, que era o vice-presidente da Repúblico eleito.

Sendo um ministro ligado ao presidente Tancredo, qual foi o impacto da morte dele no Senhor?
Foi uma coisa indescritível. Imagine o seguinte: eu fui escolhido por Tancredo para se o coordenador político do governo dele, fui escolhido só por ele e mais ninguém, e de uma hora para outra sou coordenador de outro governo, que não tem uma afinidade comigo.

Como é que o senhor avalia o governo Sarney?
Eu só posso avaliar o governo Sarney da época em que fui ministro. Ele cumpriu todos os compromissos assumidos por doutor Tancredo.

Mas, pessoalmente, como o senhor se sentia. Sarney tinha sido do PDS até pouco antes...
Vou dizer aqui uma coisa com muita clareza: eu não tinha preocupação com as alianças do doutor Tancredo, eu tinha certeza que elas não iriam influir no seu governo. Basta presta a atenção ao discurso de posse do doutor Tancredo. O discurso é uma prova que ele tinha na cabeça tudo do que ia fazer. Foi muito estudo, muito. Muitas pessoas participaram, Cristovam Buarque, José Serra... E o discurso dele é bem claro: "Não vamos pagar a dívida externa com a fome do povo brasileiro", quer dizer... E a verdade, infelizmente, é que já se passaram 20 anos e muita pouca coisa mudou.





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