Jornal do Commercio
RETRATOS DA PERIFERIA

Desilusão política marca visão de mundo dos eleitores da periferia

Pesquisa do Instituto Uninassau ouviu eleitores das classes C e D sobre temas ligados à política e economia

Publicado em 03/06/2017, às 14h38

Jacira Januária mora no Vasco da Gama e foi uma das entrevistadas na pesquisa qualitativa. Ela revela profunda desilusão com a classe política e vai anular voto na próxima eleição / Foto: Léo Motta/Jc Imagem
Jacira Januária mora no Vasco da Gama e foi uma das entrevistadas na pesquisa qualitativa. Ela revela profunda desilusão com a classe política e vai anular voto na próxima eleição
Foto: Léo Motta/Jc Imagem
Marcela Balbino

Quando abre a porta de casa, a primeira imagem que a auxiliar de saúde bucal Jacira Januária de Andrade se depara é o Alto do Cruzeiro, no Córrego do Jenipapo (Zona Norte). Para ela, a paisagem já não impressiona e sua maior preocupação é consertar o balcão de lavar roupa, que os meninos da vizinhança quebraram quando tentavam pegar uma pipa. Aos 36 anos, Jacira não trabalha. Atualmente, ela está matriculada em dois cursos, um de agente de saúde e outro de cuidadora de idoso. A experiência, conta ela, adquiriu cuidando do pai, que é paraplégico e mora na casa em frente à dela. Na casinha apertada de paredes verdes no Vasco da Gama, construída “como deu” nos fundos do terreno do pai, Jacira é categórica: “Não acredito mais em político. Meu próximo voto será nulo”. Ela foi uma das entrevistadas na pesquisa qualitativa.

Para Jacira, não há distinção entre esquerda ou direita. Ela se recorda que votou “a vida toda no PT” por causa da aproximação com os programas sociais, mas não esconde a desilusão. “Não sei se (votei) por posição política, porque o PT abrangia mais a parte desfavorável da sociedade, mas eu achava que outros partidos só queriam ver o lado deles. Não sei se votava por conta dos projetos sociais”, questiona-se. “Agora eu não voto em partido nenhum, vai ser nulo, zerado”, afirmou, num tom firme.

Jacira criou a filha de 18 anos com a renda do Bolsa Família. Ela foi uma das primeiras a receber o benefício e conta que, em muitos meses, só conseguiu “fazer a feirinha” por causa da ajuda. A maior quantia que ela ganhou foi R$ 130 por mês. A menina hoje faz curso técnico em enfermagem e é menor aprendiz no Carrefour. “(O programa) me ajudou muito, porque teve mês que o único dinheiro que entrava na minha casa era do Bolsa Família”, afirmou. 



No entanto, a moradora do Vasco é crítica à falta de fiscalização da bolsa. Ela cita famílias que ganham sem precisar e lamenta por outras tantas que precisam e não conseguem. “Onde eu moro tem gente que recebe e tem carro, casa equipada e emprego. Enquanto isso, tem gente que mora num quartinho alugado, com vários filhos, e não tem”.

Já a autônoma Taís Maria da Silva, 28, que mora na Mustardinha, e também participou da pesquisa, o problema do Bolsa Família é a acomodação dos beneficiários. “O Bolsa Família ajuda quem precisa. Mas, ao mesmo tempo, quem está usando se acomoda. Vai usar do dinheiro porque tem certeza que ele será pago todo mês. Então a pessoa não quer se mexer. Não vai trabalhar, entendeu?Tem gente que está fazendo mais filhos para ganhar mais dinheiro. Eu acho que ajuda quem precisa. Mas tem muita gente que não precisa”, avaliou.

Quanto à permissividade dos políticos em relação à corrupção, Jacira abomina a figura do político que “rouba, mas faz”, Taís adota o ceticismo. Para ela, todos entram para roubar. “Então, roubar e não fazer nada...Eu preferia que não roubasse. Mas entre ter um que rouba e só suga, suga, suga sem fazer nada. É melhor ter um que tá roubando, mas pelo menos está maquiando e está fazendo alguma coisa, né? Eu gostaria que nenhum roubasse”, opinou.

VEJA ENTREVISTA COM PROFESSOR ADRIANO OLIVEIRA, COORDENADOR DA PESQUISA




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