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RETRATOS DA PERIFERIA

Nem 'coxinha', nem 'mortadela', pesquisa mostra pragmatismo e pouca ideologia entre eleitores das classes C e D

Instituto Uninassau fez pesquisa qualitativa sobre visão de mundo dos moradores da periferia do Recife, temas abordaram aspectos políticos, comunitários e econômicos

Publicado em 03/06/2017, às 14h06

Pesquisa ouviu moradores de 48 comunidades do Recife para traçar um perfil da visão de mundo dessa população / Foto: Léo Motta/JC Imagem
Pesquisa ouviu moradores de 48 comunidades do Recife para traçar um perfil da visão de mundo dessa população
Foto: Léo Motta/JC Imagem
Marcela Balbino

Enquanto o Brasil enfrenta uma grave crise política com uma forte polarização, uma massa de “invisíveis” nas comunidades do Recife pouco se importa em ser “coxinha” ou “mortadela”. A preocupação é “fazer a feirinha” do mês, “reformar a casa” ou conseguir emprego. São pessoas que se sentem ignoradas e esquecidas pelo poder público, que não as protege ou acolhe. Inspirada na pesquisa qualitativa realizada pelo Instituto Perseu Abramo, braço acadêmico do PT, entre ex-eleitores do partido na periferia de São Paulo, o Instituto Uninassau, em parceria com o JC e o portal Leia Já, produziu um levantamento qualitativo para analisar o pensamento dos eleitores das classes C e D da capital.

Com base nesses dados, o JC publica de hoje até a próxima terça-feira uma série de três reportagens especiais sobre as percepções do eleitor recifenses, moradores de bairros carentes da cidade, sobre aspectos políticos, comunitários e econômicos na vida cotidiana. Neste primeiro momento são abordadas questões políticas.

Inédita, essa é a primeira pesquisa qualitativa feita pelo Instituto Uninassau a ser divulgada na imprensa. O cientista político e professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Adriano Oliveira coordenou o trabalho e explica que objetivo foi captar e identificar a visão dos eleitores das classes C e D do Recife. 

Apesar de serem regiões distintas, a pesquisa na capital paulista coincide em muito com a percepção dos recifenses moradores da periferia. A conclusão do estudo aponta que, para grande parte do eleitorado, o Estado não ajuda na melhoria da qualidade de vida – é mais um “inimigo” responsável por se apropriar do dinheiro dos impostos e fornecer serviços ruins. Segundo o estudo, há uma ausência de ideologia política entre o grupo analisado. O pragmatismo fala mais alto e o político que possa melhorar a vida desses recifenses é o mais bem aceito, independentemente da filiação partidária.



Adriano Oliveira explica que parte majoritária dos entrevistados afirma que não existe esquerda e direita. “É tudo uma coisa só”, respondeu um dos entrevistados. “Eles, em sua maioria, mostram desinteresse pela temática ideológica e defendem que o importante é a existência de um governo eficiente. Muitos riem, consideram engraçado o debate sobre ideologia”, observou o cientista político. Segundo ele, a ideologia é substituída pelo desejo de que o governo faça algo por eles. “Os eleitores são pragmáticos e não ideológicos”, afirmou.

Os que arriscaram se posicionar defenderam a esquerda, porque é “quem faz pelo povo”. É o caso do estudante Lucas Rossini, 17 anos, morador do Cardoso, na Zona Oeste. “A esquerda está do lado do povo e das minorias”, argumentou. Ele foi o único, numa sala com 12 pessoas, a expressar posição. Já a autônoma Taís Maria da Silva, 28 anos, que mora na Mustardinha, é mais cética. Para ela, o tema pouco importa. “Não tenho definição. Independente se for de direita ou esquerda, quero que faça o melhor”, afirmou.

ASSISTA À ENTREVISTA COM O PROFESSOR ADRIANO OLIVEIRA 

DADOS

O levantamento foi realizado no dia 24 de maio de 2017. Foram ouvidas 48 pessoas de áreas diferentes do Recife, divididas em quatro grupos focais, com 12 cada. Participaram moradores do Recife com mais de 16 anos e que ganham de 1 a 5 salários mínimos.

A pesquisa qualitativa, explica Adriano, tem como princípio expor os entrevistados a um conjunto de temas pré-determinados e captar a compreensão, percepção e valores presentes na opinião pública a respeito dos assuntos. “É uma metodologia eficaz para indicar tendências a respeito do pensamento médio do público escolhido, mas não tem a finalidade de mensurar quantitativamente quais opiniões são mais frequentes”, explica.

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