Jornal do Commercio
RETRATOS DA PERIFERIA

Pesquisa mostra desejo pulsante de empreender nas periferias do Recife

Vontade de ter um negócio esbarra, porém, nas finanças e na burocracia. É o que mostra levantamento da Uninassau

Publicado em 06/06/2017, às 09h51

Na periferia, muitos têm desejo de abrir negócio, mas maioria fala do excesso de taxas e burocracia / Foto: Alexandre Gondim/JC Imagem
Na periferia, muitos têm desejo de abrir negócio, mas maioria fala do excesso de taxas e burocracia
Foto: Alexandre Gondim/JC Imagem
Marcela Balbino

É natural, em épocas de crise e com o desemprego em alta, o crescimento da vontade de empreender. Na periferia, a ambição não é diferente. Seja na loja de roupa, na barraquinha de lanches ou no salão de beleza no terraço de casa, o desejo de abrir o próprio negócio pulsa no pensamento de quem vive nas comunidades. Mas a queixa, em uníssono, é a falta de oportunidade e a alta carga tributária para tirar o sonho do papel. O retrato dessa população, eleitores das classes C e D do Recife, foi obtido na pesquisa qualitativa do Instituto Uninassau, feita em parceria com o JC e o Leia Já. O levantamento ouviu moradores de 48 comunidades de todas as regiões da capital. Essa é a última reportagem especial da série sobre as percepções do eleitor recifense.

Sem tanto planejamento ou organização, os pequenos negócios são feitos como dá e aproveitando as oportunidades que aparecem. Como a vendedora de cachorro-quente da Zona Norte, ouvida pela pesquisa, que quer diversificar os salgados, mas reclama do alto custo para mudar ou a sulanqueira Rosa Maria Barbosa, 56 anos, que mora em Afogados e pensa em ampliar a venda de roupas. Ela é atenta às preferências dos clientes e queria aumentar a diversidade de peças, mas reclama do excesso de impostos.
Segundo o cientista político Adriano Oliveira, professor da UFPE e coordenador da pesquisa, os eleitores maduros mostram desejo de abrir o próprio negócio, mas não o fazem por falta de dinheiro. “Durante as assertivas, os eleitores reclamam dos governos, afirmam que estes ‘roubam o povo e cobram muito imposto’. Por causa disso, eles dizem que é difícil manter o negócio ou abrir algo novo”, observa.

Na pesquisa, o concurso público ainda aparece como tábua de salvação para maioria dos ouvidos. Muitos falam que queriam passar em um certame para depois abrir um negócio. O professor explica que essa vontade de trabalhar para o Estado reflete a certeza da remuneração. Enquanto abrir o próprio comércio ainda é sinônimo de insegurança. “Eles desejam e elogiam a estabilidade do emprego público. Contudo, reconhecem que é muito difícil passar num concurso”, afirmou.

A vontade de empreender, no entanto, é reduzida entre os eleitores mais jovens. “Mas tal desejo não significa que eles são contrários. Eles têm medo, se sentem inseguros de abrir um negócio, pois o futuro é incerto”, pontuou.

A PERSISTÊNCIA DE LADJANE 

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Formada em administração e dona de um discurso eloquente, Ladjane Macedo Souto, 37 anos, conseguiu romper um ciclo educacional dentro da própria casa. Com o apoio dos amigos, que a ajudaram a pagar o curso superior, ela foi a primeira da família a conquistar o diploma. Mas nem por isso os caminhos se tornaram mais fáceis. Ela mora em Água Fria, Zona Norte, com dois irmãos que têm esquizofrenia. A luta atual é concluir o primeiro andar em cima da casa do pai e ter o espaço para criar.



A moça é persistente e não esconde que seu grande sonho é trabalhar no ramo da beleza. Há dez anos, ela abriu um salão no terraço do pai. As vizinhas enchiam o espaço para fazer algum serviço, lembra. Mesmo assim, o negócio não foi adiante. “Dava mais gasto do que lucro e não durou muito, conta.

Ladjane foi uma das entrevistadas na pesquisa qualitativa da Uninassau e reflete o perfil do eleitor da classe C e D do Recife. “Se tornar Pessoa Jurídica nesse País é muito difícil. A gente monta um pequeno negócio, mas até conseguir aumentar a receita e gerar lucro demora muito e os impostos são implacáveis”, lamentou.

Ela montou o salão antes do curso superior. Na época, não tinha os conhecimentos de mercado que tem hoje, tampouco acesso à internet e a cursos de capacitação. Abriu o negócio aliando o talento com a demanda da comunidade. “Fiz um curso comunitário de cabeleireiro e a professora percebeu que era especial, tinha talento”, disse.

Para ela, o excesso de taxas desestimula o pequeno negociante. “Vivemos num país em que o governo não administra os impostos de forma correta. Então, por essas razões, eu fico desestimulada a tirar o CNPJ. A vontade que dá é abrir o próprio negócio de forma clandestina”, desabafa.

PESQUISA

O levantamento foi realizado no dia 24 de maio de 2017. Foram ouvidas 48 pessoas de áreas diferentes do Recife, divididas em quatro grupos focais. Participaram moradores do Recife com mais de 16 anos e que ganham de 1 a 5 salários mínimos. A pesquisa qualitativa, explica Adriano, tem como princípio expor os entrevistados a um conjunto de temas pré-determinados e captar a compreensão, percepção e valores presentes na opinião pública a respeito dos assuntos.

 




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