Jornal do Commercio
ARTE

Trabalho dos cartazistas é pouco conhecido no Recife

Profissionais são responsáveis por elaborar os cartazes que ficam espalhados pelos corredores dos supermercados, ao alcance dos olhos de todos os clientes

Publicado em 24/08/2014, às 06h00

Jane trabalha na área há doze anos:
Jane trabalha na área há doze anos: "Tem gente que pergunta como faz e fica admirada"
Foto: Bobby Fabisak/JC Imagem
Rossini Gomes
rpgomes@jc.com.br

Impressora humana. Esse é um termo bastante apropriado para caracterizar o trabalho de André e de Jane, trabalhadores que exercem uma profissão pouco conhecida, mas nem por isso discreta: eles são cartazistas. Sabe aqueles preços exibidos em letras garrafais nos supermercados? Aquela oferta que não pode em hipótese alguma passar despercebida aos olhos dos clientes? Pois bem, esses cartazes são feitos a mão e ficam espalhados pelos corredores, afixados nas gôndolas ou pendurados por fios pouco tempo depois de produzidos. É isso que André e Jane fazem, e com tamanha rapidez, destreza e acabamento de tirar o chapéu – habilidade que permite a ambos ganharem a vida assim: dispensando a aparelhagem de qualquer impressora moderna.

É na sua própria casa, no bairro do Jordão (Jordão Alto), na Zona Sul do Recife, que André Andrade, 38 anos, recebe a equipe do JC Mais. Transforma uma porta apoiada em dois cavaletes em uma bancada para mostrar a simplicidade de um trabalho que é privilégio de poucos. De posse do kit de pincéis de cinco tamanhos diferentes, nas cores vermelha e azul escuro (que parece preto e engana quem vê rapidamente), e da cartolina de papel especial (tipo splash), que vem de São Paulo, ele escreve “picanha” com seu respectivo preço em cerca de um minuto e meio, tempo semelhante para “melancia”, “pimentão” e diversos outros produtos, que vão da “bisteca suína” a “calça jeans”.

André tem a arte como ofício há nove anos, quando começou a trabalhar em um grande supermercado do bairro de Boa Viagem, também na Zona Sul, que prefere não ser identificado. Trabalhava como promotor de vendas no departamento de hortifrúti, mas como funcionário de outra empresa. Curioso, treinava por contra própria um ou outro anúncio, tarefa que competia a outro funcionário. Até que, após quatro anos, a empresa para a qual trabalhava o demitiu. “Mas, quatro meses depois, fui contratado pelo supermercado. Acho que fui chamado porque o pessoal percebeu que eu já tinha pegado a prática e gostava da minha letra”, avalia André, hoje o único responsável pelo trabalho na loja.

A quantidade de cartazes feitos por ele diariamente é tanta que mal sabe estimar. Mas, para as segundas-feiras, André arrisca um número. “Chego a fazer uns 300, por causa da ‘feirinha’ da terça-feira”, conta. “Todo dia tem trabalho para mim, porque os preços dos produtos mudam diariamente. Sem contar que quando tem tabloide, aquele folheto que tem um monte de promoção, eu tenho de fazer todos os cartazes”, explica.

A demanda diária, feita durante oito horas por dia, de segunda a sábado, torna o trabalho cansativo, “mas como eu gosto do que faço, nem percebo tanto”, diz André.

É do outro lado da cidade, no supermercado Extra do bairro do Espinheiro, na Zona Norte, que Jane Melo faz da arte profissão. É em uma salinha de cerca de 12 metros quadrados, no subsolo da loja, que ela passa boa parte das sete horas e vinte minutos de trabalho, de segunda a sábado, dando conta da demanda de cartazes que precisam ser confeccionados. “Acho que faço uns 100 por dia, não tenho muita noção, são muitos”, estipula Jane, sem saber ao certo. “Os preços mudam muito.”

Aos 37 anos, doze como cartazista, ela entrou na loja há quase cinco também por acaso. “O cartazista que trabalhava aqui saiu sem avisar, de surpresa. Fui chamada para fazer o teste e fiquei. Precisei somente passar oito dias na unidade do bairro do Benfica para pegar o padrão da letra e do número”, lembra, admitindo que, no começo, “errava muito, principalmente o número nove”, diz, rindo de si mesma.

O tipo de papel e o kit de pincéis utilizados por ela são os mesmos do de André, a diferença fica nas cores das canetas: vermelha (para o preço) e preta (para os nomes). E há também o azul, num formato redondo e que permite ser apagado caso necessário. “O azul é para destacar as promoções dos clientes da marca”, explica Jane, que tenta buscar a perfeição. “Sou perfeccionista, fico preocupada com o acabamento. Até já rasguei cartazes por não gostar”, revela, rindo outra vez.



Além dos preços, o trabalho de Jane está presente em partes do supermercado onde apenas funcionários têm acesso. É com informações como “Alto risco”, “Ao sair dos setores, apague as luzes” e “Produtos próximos do vencimento” que as cartolinas de fundo amarelo também podem ser vistas. Sobre a profissão, ela diz: “Quando falo que sou cartazista, algumas pessoas têm noção do que se trata. Mas já tem outras que perguntam ‘Vixe, como é que faz?’ Ficam admirados”, conta Jane, que gosta da profissão.

“O trabalho dela é fundamental para a identificação dos preços dos produtos no salão de vendas”, diz o gerente da loja, Edvaldo Silva. Para ele, não é proveitoso confeccionar os cartazes por impressoras comuns. “É mais vantajoso elaborar a mão, e por dois motivos: por dar identidade à loja e por ser uma alternativa mais econômica.”

 

FRUTAS VIRAM ESCULTURAS PELAS MÃOS DE ANDRÉ

Além do trabalho como cartazista, André Andrade também é dono de uma habilidade que pouca gente tem. Ele faz desenhos de rosas e dá vida a diversos animais em várias frutas, verduras e legumes. E todo o trabalho é esculpido com uma simples faca de serra, mesmo havendo material específico para isso.

Após três anos como cartazista, o supermercado para o qual trabalha recebeu a vista de um superintendente. Para recepcioná-lo, o funcionário de uma empresa fornecedora preparou uma mesa de frutas completamente ornamentada. Trabalho esse que, até então, André não sabia fazer. “E eu faltei nesse dia”, lembra. “Como os produtos se estragam de um dia para outro, vi, no outro dia, no lixo, o desenho de uma rosa num pedaço de uma melancia. Peguei, coloquei no balcão e comecei a treinar. Alguns amigos disseram que eu iria desperdiçar umas cinco a dez melancias para acertar, mas, por incrível que pareça, ficou melhor que a do cara”, garante.

Agora, quando o supermercado recebe funcionários da matriz ou clientes para um café da manhã ou mesmo quando há um almoço especial no refeitório, é André o responsável pela ornamentação da mesa que congrega frutas, verduras e legumes.

Mas o trabalho dele não fica apenas nos limites do supermercado para o qual trabalha. André já preparou mesas do tipo para festas de 15 anos e de noivados. “Além disso, tenho alguns clientes que pedem no fim do ano, para enfeitar a mesa no Natal”, acrescenta.

Personalidades - A mesma faca de serra que André utiliza para talhar frutas, verduras e legumes é utilizada para fazer o rosto de artistas e de personalidades brasileiras. Em uma simples melancia, ele já fez aparecer de forma fidedigna os rostos da apresentadora de TV Regina Casé e do jogador de futebol Neymar Jr. As imagens estão sempre cercadas de adornos, capricho feito por meio de cortes profundos e bem talhados.

O último que fez, com uma rosa ao lado, foi em homenagem ao ex-governador de Pernambuco, Eduardo Campos, que morreu em um trágico acidente de avião, em São Paulo, há doze dias.




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