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Urbanismo

A presença de Vauthier em Pernambuco

Engenheiro francês viveu no Recife no século 19, de 1840 a 1846. Foi contratado pelo conde da Boa Vista, Francisco do Rego Barros, para modernizar a cidade

Publicado em 21/09/2014, às 08h08

 / Foto: Michele Souza/JC Imagem
Foto: Michele Souza/JC Imagem
Cleide Alves

Há uma expressão bem pernambucana que as pessoas mais velhas costumam citar ao se referir a uma construção muito antiga: “Ah, isso é da época dos holandeses!”. E, assim, vão creditando aos flamengos obras em locais onde eles nem sequer botaram os pés. Com o engenheiro francês Louis-Léger Vauthier, que viveu no Recife de 1840 a 1846, acontece o mesmo quando se fala de casas neoclássicas erguidas no século 19.

Em busca dos traços de Vauthier no Recife, lá fomos nós procurar as tais casas de arquitetura de gosto neoclássico, que ele importa da Europa, com seus arcos, esquadrias de madeira e varandas externas. “Ele foi o primeiro a trazer essa linguagem para cá”, diz Rodrigo Cantarelli, da Coordenação de Documentação e Pesquisas Históricas da Fundação Joaquim Nabuco.

Uma delas seria a residência do Conde da Boa Vista (atual Chefia da Polícia Civil), na Rua da Aurora, no Centro. “Dizem que é dele, mas há controvérsias”, avisa a arquiteta Rosa Bonfim, da Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe). Então, vamos à próxima parada, a moradia do Barão Rodrigues Mendes (sede da Academia Pernambucana de Letras), na Avenida Rui Barbosa, Zona Norte.

Epa, mas esse casarão, como conhecemos, é posterior ao período de Vauthier no Recife, alerta Rodrigo Cantarelli. “Não é dele”, garante. Seguindo a viagem, encontramos a outra casa atribuída ao francês, a antiga moradia da família Correia de Araújo Tavares (ocupada pelo TRE-PE), na Avenida Rui Barbosa, perto da Praça do Entroncamento.

Comprovação mesmo, não há. Mas a favor do prédio pesa a semelhança com o Teatro de Santa Isabel, a mais visível obra pública do engenheiro francês no Recife, inaugurado em 1850 e sem contestação da autoria. Quando o casarão tinha a fachada cor-de-rosa, o mesmo tom do famoso teatro da Praça da República, a aparência era maior ainda.

“Se não é de Vauthier, pelo menos teve influência. A casa é uma miniatura do Santa Isabel”, comenta o historiador Hildo Leal da Rosa, do Arquivo Público Estadual. O Cemitério de Santo Amaro, inaugurado em 1851, é projeto dele, orienta Rosa Bonfim. Só a capela, de estilo gótico, foi projetada pelo engenheiro José Mamede Alves Ferreira, em 1853, conferindo o aspecto religioso que o francês não tinha dado.

Chegando ao cemitério, vem à mente uma entrevista concedida ao JC, anos atrás, pelo escultor Jobson Figueiredo, na qual ele destacava a disposição dos túmulos no terreno, de forma triangular, sem distinção entre ricos e pobres. No contorno dos triângulos ficam os grandes túmulos e no interior, as covas rasas. “É possível identificar uma preocupação humana e social no projeto arquitetônico e paisagístico”, disse, à época.

O arquiteto Geraldo Gomes, professor aposentado da UFPE, dá outra pista para se encontrar Vauthier – o Mercado de São José. O projeto original é do engenheiro da Câmara Municipal do Recife Louis-Victor Lienthier. Mas, em 1871, já na França, Vauthier foi consultado e propôs modificações, para adaptar o prédio ao clima da cidade.



Se não é de Vauthier, pelo menos teve influência. A casa é uma miniatura do Santa Isabel

comenta o historiador Hildo Leal da Rosa

A Ponte Pênsil de Caxangá (primeira do gênero na América do Sul), a cadeia de Brejo da Madre de Deus e a pirâmide no alto da Serra do Ponto, no mesmo município, são dele, diz a arquiteta Claudia Poncioni, estudiosa das ideias difundidas por Vauthier. Como a ponte foi levada numa cheia do Rio Capibaribe, em 1869, rumamos para Brejo, no Agreste do Estado.

Pintada de vermelho, a Casa de Câmara e Cadeia tem arquitetura luso-brasileira e fica no Centro da cidade. Fácil, fácil de se achar. O prédio é tombado como monumento estadual desde 1983 e pertence à Fundarpe, que coordena as obras de restauração executadas aos poucos, desde 2008. Essas casas funcionaram no período colonial e eram os prédios civis mais importantes da época. Por lá passavam todas as decisões da cidade.

Agora, para ver a pirâmide, ou melhor, o que sobrou dela, são outros quinhentos. É preciso galgar a serra, o ponto mais alto de Pernambuco, com altitude de 1.195 metros acima do nível do mar. A pirâmide, uma construção de pedras encaixadas, está no topo da Serra do Ponto. Era a marcação para se fazer um mapa do Estado, diz o prefeito de Brejo, Édson de Souza.

Na verdade, o que melhor revela Vauthier em Pernambuco são os documentos guardados no Arquivo Público Estadual, originários da Repartição de Obras Públicas da Província (ROP), que ele organizou e chefiou em sua estada no Recife. São relatórios acompanhados de plantas e projetos arquitetônicos, ofícios, petições e notas com a assinatura do engenheiro.

“Ele não era o único engenheiro francês da ROP. Como chefe, rubricava os projetos da equipe. Ter a assinatura dele nas plantas não significa, necessariamente, que a criação é dele”, diz Hildo Leal da Rosa. Na biblioteca do Departamento de Estradas de Rodagem (DER) há cerca de 30 livros do século 19, escritos em francês, com carimbos da ROP.

Possivelmente, faziam parte da literatura que ele trouxe ou encomendou, diz o historiador João Monteiro, que localizou os livros ao organizar a biblioteca. “São publicações em linho e algodão. Muitas ensinam a construir pontes e uma outra é a base da revolução industrial no mundo”, conta. Louis-Léger Vauthier (1815-1901) foi contratado por Francisco do Rego Barros, o conde da Boa Vista, presidente da Província de 1837 a 1844, para abrir estradas e modernizar a infraestrutura do Recife.


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