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Arte

Aquele cara dos palhaços

Formado em administração, Guimarães Bezerra largou emprego em multinacional para viver da arte. Seus palhaços são vendidos no Brasil e fora dele

Publicado em 21/09/2014, às 08h14

Natural do Rio Grande do Norte e pernambucano de coração há 20 anos, Guima conheceu o barro com a avó índia e aperfeiçoou a técnica com mestres de Tracunhaém / Foto: Guga Matos / JC Imagem
Natural do Rio Grande do Norte e pernambucano de coração há 20 anos, Guima conheceu o barro com a avó índia e aperfeiçoou a técnica com mestres de Tracunhaém
Foto: Guga Matos / JC Imagem
Marina Barbosa
mbarbosa@jc.com.br

Uma explosão de cor e alegria. Não há definição melhor para a arte, a casa e o espírito de Guimarães Bezerra. Guima, como é conhecido, é o artesão dos palhaços. Natural do Rio Grande do Norte e pernambucano de coração há 20 anos, encontrou no personagem circense a fonte de inspiração, renda e diversão. Ele faz palhaços de barro com as cores da irreverência e expressões faciais que carregam um quê de realismo. O trabalho é sucesso em todo o Brasil, mas representa muito mais para o artista, que tem muita história para contar.

No meio do ateliê tomado por esculturas, Guima, que tem o riso fácil, diz que não sabe de onde vem a relação com o personagem. “Tinha tudo para ser triste. Enfrentei muitas adversidades ao longo da vida, mas sou extremamente feliz. De uma situação difícil, nasceu a criatura que é o símbolo da alegria”, reflete o artesão, que também carrega o rosto maquiado de nariz vermelho na camisa e na cortina de sua casa, no Bairro de São José, centro do Recife. “É no palhaço que viajo e posso explorar minhas cores tão queridas. Eles ainda têm tudo que não tenho: cabelo e músculos”, brinca, enfatizando que “não quer parecer coitadinho”. Nem consegue. Bastam poucos minutos de conversa para perceber que o bom humor não fica apenas na arte, faz parte do seu espírito, que sempre teve forças para correr atrás dos sonhos. 

Guimarães Bezerra nasceu em uma família pobre do interior potiguar e parecia fadado a uma vida difícil, que pouco conheceria a euforia característica do palhaço. Na infância, trabalhava para ajudar a mãe e tinha apenas uma fonte de diversão: o barro que era utilizado pela avó, índia, para produzir utensílios domésticos e despertou-lhe o amor pela arte. “O trabalho dela me encantava. Não tinha brinquedo, aproveitava para mexer no barro e inventar. Fazia carros, passarinhos. Precisava morar com ela para aprender este ofício”, acredita.

Aos 12 anos, saiu de casa para estudar em Natal. “Era a única coisa que poderia me fazer diferente.” Depois de dois anos difíceis, divididos entre a rua e a casa do irmão mais velho, conseguiu um emprego e uma escola na capital potiguar. Aos 22 anos, foi em busca de um novo desafio. Veio para o Recife, onde ingressou na faculdade de administração e começou a vender as peças de papel machê que fazia no tempo livre para pagar o curso superior. 



As bailarinas, bois-bumbás e gatos produzidos com detalhes da cultura pernambucana logo fizeram sucesso e foram parar em uma conceituada loja de artesanato. Depois de formado, no entanto, faltou tempo para se dedicar ao artesanato por conta do emprego em uma multinacional. “Sabia que queria viver de arte e aproveitei esse tempo para juntar o dinheiro que precisava para isso”, revela. 

Após oito anos no mundo dos negócios, largou tudo para seguir a vocação original. Em busca de uma identidade que definisse seu trabalho, testou vários materiais e temas até decidir ser o “artesão dos palhaços”. “Sempre tive um grande fascínio pelo circo e com o palhaço posso ousar nas cores. Além disso, na minha primeira exposição, percebi que o personagem fazia muito sucesso. Como tinha uma cabeça boa para negócios, percebi que esse poderia ser meu diferencial”, explica. Cansado do papel machê, especializou-se na arte do barro com os mestres de Tracunhaém, na Zona da Mata Norte pernambucana, e não largou mais os palhaços.


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Hoje, os personagens de barro são vendidos no Centro de Artesanato de Pernambuco e no Aeroporto dos Guararapes, além de lojas em Natal, Fortaleza, São Paulo, Ilha Bela, Belo Horizonte e Ouro Preto. As encomendas também não param. Já são mais de 170 peças na lista e seis meses de espera por um pedido. “Não tenho hora para nada. A ideia de um palhaço novo surge quando menos espero. Moro aqui porque é calmo, aproveito a luz do sol para pintar e no silêncio da madrugada vou para a varanda envernizá-las. Confesso que daqui a dez anos, só quero ter uma casa na praia e me divertir fazendo minha arte”, sonha Guima.


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