Jornal do Commercio
COMPORTAMENTO

Rituais íntimos, afetivos e pessoais

Celebrações ganham emoção quando conduzidas por amigos e parentes

Publicado em 19/04/2015, às 15h42

A poeta Maria Rezende vem conduzindo cerimônias desde 2003 / Foto: Graviola Studio/Acervo pessoal
A poeta Maria Rezende vem conduzindo cerimônias desde 2003
Foto: Graviola Studio/Acervo pessoal
Mariana Mesquita

Luzia derramou a água que batizou a bisneta Nina, ligando-se a ela para além do umbigo. Maria celebrou os casamentos de Júlia e Tiago, seus irmãos. Pedro festejou sua união com Bettina sob o olhar encantado da filhinha Julia Mares, de quatro anos. Nenhum desses momentos foi oficializado através de uma organização formal, jurídica ou religiosa. Todos foram partilhados com entes queridos e se transformaram em rituais marcantes para os envolvidos. Eles são exemplos de uma tendência crescente: a possibilidade criar as próprias celebrações.

"Todos temos necessidades de celebrar, e o que caracteriza os rituais é, sobretudo, a intenção, o foco naquilo que vai fazer bem ao nosso espírito", descreve a escritora Tereza Halliday, autora do livro Celebrações: rituais para momentos significativos. Isso pode ser feito sozinho ou em grupo, gerando beleza, consolo, serenidade, comunhão, renovação. São atos simbólicos que, segundo Tereza, permitem a transcendência e a humanidade, mas não precisam estar vinculados a nenhuma religião.

 

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Um bom exemplo disso é a experiência da escritora Micheliny Verunschk, mãe de Nina e neta de Luzia. Micheliny cresceu dentro da tradição católica, mas não queria um casamento na igreja. “Preferi criar uma cerimônia que marcasse essa passagem num sentido pessoal, humano e divino”, explica. 

A união aconteceu num bar em Arcoverde, sua cidade natal. Ela veio de São Paulo com o noivo, Ricardo. Em vez de padre, quem celebrou a união foi a avó de Ricardo e os pais e os irmãos de Micheliny, junto com os amigos que convidaram para ser padrinhos. Todos os presentes prestaram homenagens aos noivos, através de música, poemas, desejos. “Misturamos elementos pagãos e de diversas tradições religiosas. Foi um casamento que fugiu ao padrão e acabou sendo muito comentado na cidade, que é extremamente católica”, relembra ela. 

Quando Nina, a primeira filha, nasceu, teve dois batizados e quatro padrinhos. “Celebramos a memória, o que nos liga aos outros, à nossa família, à própria sociedade. Não é domínio de ninguém, é algo seu. Não é preciso ter a validação de uma autoridade que não foi constituída por nós e que não nos representa. Na vida da minha família, não temos a necessidade de intermediação com o divino. Conosco é papo reto”, resume ela. 



O cineasta e poeta Pedro Cezar tinha passado por outras uniões e já tinha um filho, José, atualmente com 20 anos, quando começou a se relacionar com a engenheira Bettina. Juntos há 13 anos, nem depois do nascimento de Julia Mares sentiram necessidade de mudar seu estado civil. Mas, no início de março, marcando os 40 anos de Bettina e como forma de renovar a fé na união, eles mudaram de ideia.

“Primeiro, casamos no cartório. Fiquei super emocionado e chocado ao ver como a palavra, o dizer, é importante. Em seguida, veio a festa, um troço que eu não sabia que seria tão marcante. O ritual tem algo de metafísico, de transcendente. Ele permite que você afirme um desejo para si mesmo e partilhe com outras pessoas esse momento, tornando o ato, de alguma forma, sagrado. O casamento renovou a vida que a gente vinha construindo, trouxe paz, serenidade. Tive meus dois filhos presentes na festa, fiz o casamento mais legal que eu poderia ter tido na vida, com uma pessoa que eu já sabia como é bom conviver”, descreve Pedro. Conduzindo a cerimônia, em vez de padre ou juiz, a também poeta e cineasta Maria Rezende, amiga do casal, era só emoção. 

“A primeira vez que celebrei um casamento foi em 2003, e desde então venho fazendo isso para os amigos, parentes e até desconhecidos. Muita gente quer partilhar esse momento. O ritual faz falta, senão a festa vira só um jantar, algo sem foco. Em certos universos, casar ainda é uma coisa que ainda se faz da forma convencional, mas hoje muita gente só faz quando quer e do jeito que quer, resgatando ou criando tradições”, diz Maria.

Ela já morou junto sem casar e achava bobagem, mas terá sua própria celebração em abril do ano que vem. “Ao longo do tempo, fui vendo o quanto é bonito compartilhar amor, trocar energias, afirmar publicamente esse desejo de constituir algo maior. Esse momento tem uma força muito grande”, conta. 

Pedro, o amigo, vai retribuir o carinho e conduzir a cerimônia de Maria, ajudando a “canalizar essa mágica”, enquanto planeja a comemoração dos 25 anos de sua própria união. “Vou roubar descaradamente, pegar os 13 anos que já temos juntos e somar mais 12. Então, em 2027, teremos festa”, ri.




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