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Dia dos Pais

No Dia dos Pais, Johnny Hooker fala sobre aquele que o influenciou

Cantor pernambucano conta da admiração e do carinho que tem pelo pai, o fotógrafo Gil Vicente

Publicado em 09/08/2015, às 06h13

Johnny é a revelação da música brasileira / André Nery/JC Imagem
Johnny é a revelação da música brasileira
André Nery/JC Imagem
Mateus Araújo

Ao telefone, com voz que sorri, Gil Vicente, o pai: “Ele sempre se preparou para isso. Dedicou-se à carreira, estudou, se esforçou, procurou os caminhos”. Num bate-papo virtual, com um texto que sorri, Johnny Hooker, o filho: “Lembro que desde sempre ele foi um grande pesquisador e estudioso de sua profissão, a fotografia”. Um sobre o outro. Um pelo outro. Nessa relação de admiração e carinho, pai e filho se confundem entre ídolo e fã. 

Aos 28 anos, completados na última quinta-feira, Johnny – que nasceu com sobrenome Donovan mas estreou para o Brasil como Hooker – arrasa quarteirão e lota plateias por onde passa, cantando seus versos de brega-rock-fossa pontuados por um rebolado descomunal. A desenvoltura no palco surgiu desde a infância; a verborragia e a ousadia vêm da genética. “Quando Johnny nasceu, eu e a mãe dele, Liz (Donovan, cineasta), éramos jovens de um geração da redemocratização. No final dos anos 1980, havia uma ansiedade por liberdade, era uma época de quebrar paradigmas”, explica Gil. 

A música transgressora daquela época, sobretudo o rock inglês e brasileiro, embalava aquela geração pré-Maguebeat, em tantas conversas sobre arte, em tantas festas nos bares do Recife e até em reuniões em lugares hoje extintos ou à beira de, como o movimentado e afetivo A Prédia, edifício que deve ser derrubado em breve para dar lugar a um novo prédio, de luxo. 

Naquele universo de questionamentos Johnny teve seu primeiro contato com a arte, como lembra Liz Donovan: “ Ele gostava de tudo o que nos cercava. Ele cresceu nesse ambiente, participava muito do meu trabalho, estava sempre no meio da gente, dos nossos amigos. Com 15 anos ele ganhou o primeiro lugar no festival de música na Cultura Inglesa”, lembra ela, que há quatro anos mora em Florianópolis.  

Para o recifense, vencedor do Prêmio da Música Brasileira, edição 2015, na categoria Melhor Cantor, seus pais lhe apresentaram o mundo, e foi o pai o responsável por ele conhecer realidades e ter experiências novas, “apesar da criança chata” que ele era para essas coisas. “Ele me levou para uma sessão de 2001 – Uma Odisseia no Espaço restaurada, no antigo Recife 1, 2, 3, e o filme teve um impacto profundo na criança cinéfila que eu era. Logo depois do filme ele me levou para comer sushi pela primeira vez. Ele me apresentava às coisas o tempo todo”, acrescenta. “Me levava no Alto Zé do Pinho, no Morro da Conceição, nas exposições e shows de amigos. Então sempre tive a oportunidade de, ao lado dele, conhecer toda uma gama de pessoas dos mais diferentes universos.”



Posso dizer que me sinto muito privilegiado de poder ter Gil como pai.

Johnny Hooker sobre o pai

 

Musicalmente, a influência de Gil na vida de Johnny vem pelo lado pop. “Meu pai sempre foi mais interessado em música pop, lembro que ele ouvia muito Jorge Ben, Caetano e também Prince e Madonna (os popstars da época). Era uma música menos dramática e mais divertida do que a que minha mãe ouvia”, explica o cantor. Liz, lembra ele, preferia David Bowie e The Clash. “Vou Fazer uma Macumba pra te Amarrar, Maldito! é definitivamente mais minha mãe. E no próximo disco a influência do meu pai vai aflorar mais. É um outro direcionamento pra música. A única coisa que vai continuar é o drama, que é meu mesmo”, adianta. 

Fotógrafo, Gil Vicente sempre teve o filho diante de suas lentes. De pequeno (as fotos que ilustram esta matéria foram enviadas à reportagem gentilmente pelo pai coruja), até hoje, no palco, Johnny é registrado com carinho e admiração pela câmera sensível e afetiva. Morando no Rio de Janeiro, atualmente, o cantor, autor de Amor Marginal, e seu pai mantêm contato sempre que podem, pela internet e telefone. “A gente sempre se fala. Agora é mais fácil, tem Whatsapp, Facetime...”, conta Gil, que no dia dessa entrevista acabara de receber do Canadá a cópia final do curta-metragem Classic, roteirizado e dirigido por Johnny. “Vou ligar para ele para perguntar se já viu o filme pronto. A gente precisa fazer o DCP (formatação digital em alta resolução) e colocar em alguns festivais”, conta.

 

Paulo Diniz, amigo de infância de Johnny, sempre presenciou essa relação de pai e filho e diz que “é uma relação de amor e orgulho mútuos, com todas as irritações, implicâncias, desentendimentos de pai e filho”. “Gil, virginiano, implicando com Johnny, é o jeito dele de amar mesmo. Johnny, leonino, se irritando, mas no fundo sempre sabendo que era amor”, brinca. 

“No início da carreira, Johnny, com a mensagem andrógina dele, era chocante pra todo mundo, inclusive para a própria família, que custava a entender e a acreditar no personagem dele, como se fosse rebeldia adolescente. Com o passar do tempo e com o crescimento dele, todos começaram a botar mais fé e apoiar mais a carreira”, lembra. “O pai de Johnny conhecia o pessoal do Manguebeat, e Johnny entrava em cena muito como a resistência a esse estigma pernambucano. Então, tudo isso era conflituoso. Mas eu lembro que Gil aparecia para tirar fotos do show e prestigiar, e Johnny ficava extremamente feliz e orgulhoso com um brilho nos olhos”, lembra o amigo. 

Esse orgulho segue até hoje, e cada vez mais forte, ao ver o filho trilhar um caminho de sucesso. “Acho que quando você é artista, ter um filho que também segue a carreira artística põe uma certa responsabilidade no seus ombros. Mas ele sempre me apoiou no que pode e sempre gostou do meu trabalho, diz o filho , também coruja, Johnny. “A gente nem sempre foi muito próximo, mas de uns anos pra cá nossa relação melhorou muito”, completa ele, que diz ver no pai um exemplo humanista de encarar o mundo. “Posso dizer que me sinto muito privilegiado de poder ter Gil como pai”, declara-se.




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