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Mulheres-faquir fizeram história no Brasil

A trajetória das faquiresas que aturaram no País entre os anos 1920 e 1950 é agora revelada em livro

Publicado em 20/09/2015, às 08h00

A curitibana Mara passou 67 dias sem comer, trancafiada numa urna de cristal e deitada sobre cama de pregos / Divulgação
A curitibana Mara passou 67 dias sem comer, trancafiada numa urna de cristal e deitada sobre cama de pregos
Divulgação
Adriana Victor

Rose Rogé, Gitty, Arady Rezende, Zaida, Rossana, Mara, Iliana, Yone, Marciana, Verinha e Suzy King. Onze mulheres cujas vidas foram investigadas por cultivarem paixão comum: o faquirismo. A atividade, de gênese circense, divide-se por uma linha tênue e perigosamente afiada. De um lado, a busca pela fama, o gosto pelo estrelato, a ousadia, a transgressão; de outro, sofrimento, superação e dor. As 11 mulheres-faquir aqui relacionadas, as faquiresas, viveram no Brasil, entre os anos 1920 e 1950. Assunto quase obscuro, hoje, as suas histórias reveladas ajudam a compor o livro Cravo na Carne – Fama e Fome (Editora Veneta), de Alberto de Oliveira e Alberto Camarero, contemplado pelo Prêmio Carequinha, da Funarte.

“O Brasil foi um dos países em que a arte do faquirismo foi mais rica em elementos”, afirma o historiador Alberto de Oliveira. “A maior parte das faquiresas estrangeiras realizava suas exibições apenas jejuando dentro de uma urna de cristal, sem cama de pregos ou cacos de vidro, sem cobras, vestindo roupas normais, ao invés da tradicional roupa de odalisca ou do biquíni das nossas faquiresas.” 

Segundo os autores, as 11 retratadas eram mulheres à frente do tempo em que viviam, o que só reforçou a curiosidade dois sobre as desbravadoras. “Tenho grande fascínio pela estética que envolvia as provas de jejum – a urna de cristal, a mulher quase sempre meio vedete, meio santa, encerrada dentro dela, a presença das serpentes dentro da urna... Esse conjunto é muito forte e mexe bastante comigo”, admite Oliveira. 

Foram mais de três anos de pesquisa, tempo usado para entrevistas e, principalmente, para fuçar jornais da época. Em janeiro de 1923, A Noite, do Rio de Janeiro, trazia reportagem com o título “Uma Mulher Original”. Tratava-se da primeira faquiresa a se exibir no Brasil, a francesa Rose Rogé. Ex-costureira, ex-dona de pensão, ela perdeu o que tinha a partir do escândalo alimentado por seu envolvimento com um padre. Depois de passar fome pelas ruas cariocas, descobriu que poderia jejuar. Então, ficou oito dias sem comer, enterrada em um cinema no centro do Rio. “Por seu pioneirismo, foi aclamada como grande heroína pela imprensa, que via no surgimento de uma mulher na arte do faquirismo uma importante conquista feminina”, revelam os autores. 

Mas a diva das divas, segundo eles, foi Suzy King. “Ela se apresentava cantando e dançando com cobras e outros bichos. Escrevia peças de teatro, compunha marchinhas para o Carnaval, fazia sucesso na TV, em boates e rádios Brasil afora”, assevera Alberto Oliveira. 



PERNAMBUCO

Havia, decerto, a busca pelo recorde de jejum: Sandra, faquiresa gaúcha, passou 83 dias sem comer, em 1958; Malba, uma paulista, enfrentou 80 dias de jejum; a curitibana Mara, 67 dias sem comer, em 1956. Mas o recorde de desse ano foi batido em Pernambuco, no Teatro Marrocos (que ficava nas proximidades da Praça da República e pertencia ao dramaturgo Barreto Júnior. A paranaense Iliana jejuou por 70 dias, exposta no teatro recifense. 

“Uma faquiresa pernambucana se destacou no cenário artístico na época”, conta Oliveira. “Foi a jovem Verinha, também conhecida como a Rainha do Frevo, exímia dançarina do ritmo, que em 1958, jejuou encerrada em uma urna de vidro durante 42 dias em Campinas (SP), deitada sobre uma cama de pregos ao lado de várias serpentes.” 

A vida que se entrelaça: o outro autor do livro, Alberto Camarero tinha oito anos quando viu Verinha se apresentar em Campinas: num “altar pagão, deitada sobre um leito de centenas de pregos, jazia uma jovem loura e bela”. Durante as pesquisas, Camarero conseguiu reencontrar Verinha. “Considerando que esse reencontro levou 54 anos para acontecer, é fácil imaginar o nível de emoção ao vê-la ainda em vida e poder falar desse fascínio que me acompanhou a vida toda”, diz. Hoje, os dois são amigos.

A pesquisa sobre as faquiresas continua, apesar da publicação do livro. "Gostaríamos de pedir que parentes e conhecidos de faquiresas entrem em contato conosco pelo e-mail famaefome@gmail.com. Mesmo que elas não estejam no livro, pois estamos agora trabalhando em um documentário sobre esse tema", finaliza Oliveira.

 




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